Vini Jr. revê o Benfica na Champions em meio à busca por ampliar o legado na luta contra o racismo
Após condenações por insultos racistas na Espanha, denúncia de brasileiro pode ter novo efeito após incidente na principal competição do futebol europeu; brasileiro ganha apoio de companheiros e da CBF em momento de retorno à boa fase
Uma semana depois de denunciar insultos racistas, Vinicius Júnior reencontra o Benfica nesta quarta-feira, no Santiago Bernabéu, em jogo de volta dos playoffs das oitavas de final da Champions League. O argentino Gianluca Prestianni, acusado pelo brasileiro de esconder a boca com a camisa para chamá-lo de "macaco", não vai estar em campo. Em ação disciplinar, a Uefa suspendeu o jogador provisoriamente enquanto investiga os acontecimentos da partida em Lisboa, quando os espanhóis venceram por 1 a 0, com gol do camisa 7.
Vini é um bastião da luta antirracista no futebol. Um levantamento da BBC mostrou que o brasileiro passou por 20 episódios de racismo em 8 anos jogando na Europa. Apesar de dirigentes e membros da opinião pública local tentarem imputá-lo a culpa pelo ódio de torcedores rivais, por ser "provocador demais" — tão insinuante quanto, Cristiano Ronaldo não causava metade da irritação —, o atacante mantém uma posição firme de não se calar diante da discriminação. É possível dizer que a determinação do brasileiro tem surtido efeito.
A suspensão de Prestianni foi baseada em um pedido do Inspetor de Ética e Disciplina nomeado para investigar o caso, que realizou um relatório provisório sobre o tema. O Código Disciplinar da Uefa prevê punições severas em situações desse tipo. O artigo 14 estabelece suspensão mínima de dez partidas — ou penalidade equivalente — para qualquer indivíduo ou entidade que atente contra a dignidade humana por razões como cor da pele, origem, religião, gênero ou orientação sexual, desde que o ato seja devidamente comprovado.
Um episódio semelhante já ocorreu em competições organizadas pela entidade. Em 2020, durante um duelo entre Paris Saint-Germain e Istanbul Basaksehir, o ex-jogador Pierre Webó acusou o quarto árbitro romeno Sebastian Col?escu de usar uma expressão racista ao se referir a ele. O caso foi noticiado pela imprensa internacional, mas acabou não resultando em punição esportiva exemplar. Agora, a comunidade do futebol observa quais serão as consequências de um episódio envolvendo equipes e jogadores de maior apelo.
Graças ao empenho de Vini Jr, a Espanha condenou pela primeira vez uma pessoa por preferir insultos racistas em um estádio de futebol. A primeira sentença saiu em junho de 2024, quando três torcedores do Valencia receberam pena de oito meses de prisão e dois anos de proibição de frequentar estádios por ofensas dirigidas a Vini durante partida em Mestalla, em 2023. Desde então, já foram cinco condenações à prisão por atos racistas cometidos contra o brasileiro.
Depois desse precedente, um episódio anterior aos ataques sofridos por Vini também teve desfecho na Justiça: em 2025, um torcedor do Espanyol foi condenado a um ano de prisão por insultos racistas contra Iñaki Williams em jogo disputado em 2020.
"Racistas são, acima de tudo, covardes. Precisam colocar a camisa na boca para demonstrar como são fracos. Mas, eles têm, ao lado, proteção de outros que, teoricamente, tem a obrigação de punir", comentou Vinicius, nas redes sociais, após o incidente em Lisboa.
"Nada do que aconteceu hoje é novidade na minha vida e da minha família. Eu recebi cartão amarelo por comemorar um gol. Ainda sem entender o porquê disso. Do outro lado, apenas um protocolo mal-executado e que de nada serviu", acrescentou o jogador.
Apoio dos companheiros e da CBF
Apesar de toda a perseguição que sofre nos gramados do futebol europeu, Vini Jr. dispõe do apoio incondicional dos companheiros de Real Madrid. O astro francês Kylian Mbappé, o goleiro Thibaut Courtois e o técnico Álvaro Arbeloa foram alguns dos nomes que se manifestaram publicamente em apoio ao brasileiro.
"Este é um ótimo momento para pôr um fim a essas coisas. Sabemos o que Vinicius nos disse. Isso já aconteceu muitas vezes no futebol e temos que parar agora. A Uefa decide o que tem que decidir. É uma boa mensagem", comentou Coutois, em coletiva de imprensa nesta terça-feira.
"A situação do Prestianni é difícil porque é um jogador contra o outro... eles acreditam no jogador deles, e nós acreditamos no Vini", analisou o goleiro. "O Vini nunca disse nada parecido, então tenho 100% de certeza de que ele ouviu. Acredito totalmente nele. Como ele está se mantendo em silêncio, nunca saberemos ao certo, mas não há muito mais que possamos fazer."
Outros nomes tarimbados do futebol mundial apoiaram Vinicius. Foram os casos dos ex-jogadores Thierry Henry, Rio Ferdinand e Wayne Rooney. O brasileiro também abraçado pelos compatriotas de equipe, como Eder Militão e Rodrygo, e também recebeu uma mensagem pública de apoio de Endrick, que está emprestado ao Lyon, da França.
"Não pare e nunca perca esse teu sorriso encantador meu irmão. Segue em frente. Sempre junto contigo em qualquer circunstância. #BailaVini", escreveu o atacante, em uma foto ao lado de Vinicius.
Capitão da seleção brasileira, Casemiro, ex-Real Madrid e atualmente no Manchester United, foi outro que manifestou apoio a Vinicius e lamentou o episódio. "O sentimento é de tristeza e decepção por ver, mais uma vez, uma situação de racismo com o Vini Jr. Como eu já disse anteriormente não podemos seguir tolerando esse problema no futebol e nem em outras situações das nossas vidas. Espero que medidas sejam tomadas, pois com o racismo a tolerância tem que ser zero", escreveu o volante, em postagem nas redes sociais.
A CBF emitiu nota manifestando apoio irrestrito a Vinicius Júnior e cobrou rigor da Fifa e da Uefa nas investigações sobre o caso. Em carta assinada pelo presidente Samir Xaud, a entidade máxima do futebol brasileiro pediu às federações que "leve em consideração o testemunho da vítima e das pessoas presentes, para identificar e punir de maneira exemplar os envolvidos no episódio."
Vini Jr. de volta à boa forma
O debate entorno da denúncia de racismo feita por Vini Jr. acabou deixando em segundo plano o golaço marcado pelo brasileiro na vitória por 1 a 0 sobre o Benfica. Depois de iniciar a temporada em baixa, o atacante voltou a ser decisivo após a demissão do técnico Xabi Alonso e vem desempenhando papel fundamental no time comandado por Álvaro Arbeloa.
Às vésperas do duelo decisivo com o Benfica, a imprensa espanhola destacou o bom momento vivido pelo jogador. "Algo mudou em Vinicius. E isso se nota. Nas arquibancadas, em campo e, sobretudo, no rosto do brasileiro. Ele está sorrindo novamente, mais uma vez capaz de decidir partidas. O brasileiro explodiu em 2026, e o Real Madrid gira novamente em torno de seu talento transbordante", escreveu o jornal Marca.
Vinicius já balançou as redes por 12 vezes e distribuiu 9 assistências na temporada 2025/26, participando de 21 gols em 36 jogos pelo Real Madrid — oito somente nas últimas sete partidas. Entre 19 de outubro e 8 de janeiro, o atacante chegou a ficar 16 partidas sem balançar as redes e o protagonismo recaiu sobre Mbappé, artilheiro da equipe com 38 gols no período. O francês foi diagnosticado com uma lesão no joelho esquerdo e está fora da partida com o Benfica. Assim, Vini vai retomar para si o papel principal e terá a função de liderar a equipe rumo a classificação.
"Ele encontrou a fórmula vencedora. Desde a temporada 22/23 , quando marcou em cinco partidas consecutivas ( Mallorca, Celtic, Betis, Espanyol e Celta ), ele não demonstrava tanta consistência na frente do gol . São cinco gols nos últimos quatro jogos (Osasuna, Benfica, Real Sociedad e Rayo Vallecano) e, o mais importante, uma constante sensação de perigo. O ataque do Real Madrid gira em torno do que o brasileiro traz para o time", completou o Marca.
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