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Liga de "soccer" ameaça Brasileiro, mas ainda tem barreiras

8 ago 2014 16h00
| atualizado às 17h32
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Se alguém ainda pensa que os americanos não entendem nada de futebol e nem se interessam pelo esporte, está completamente desinformado. Os Estados Unidos já compreenderam a grandeza daquilo que chamam de "soccer" e estão cada vez maiores neste universo: atualmente a Major League Soccer (MLS), principal liga de futebol dos EUA, ameaça o Brasil como maior campeonato do continente. Ainda existem barreiras realmente difíceis de serem superadas, mas está claro que a competição caminha na direção correta.

<p>Estádio de Michigan (EUA) recebeu 109 mil torcedores para Manchester United x Real Madrid em 2 de agosto</p>
Estádio de Michigan (EUA) recebeu 109 mil torcedores para Manchester United x Real Madrid em 2 de agosto
Foto: Leon Halip / Getty Images

Sobram indícios para acreditar que a MLS pode superar o Campeonato Brasileiro em breve. Astros estão sendo contratados, os público nos estádios são cada vez maiores, o interesse das televisões aumentou e há um planejamento para que a liga alcance reconhecimento mundial até 2022. "Um projeto para daqui a oito anos pode parecer bastante, mas para negócios é (um tempo) pequeno", afirma Marcos Peres, ex-comentarista e correspondente do Sportv, que hoje trabalha como diretor de comunicação do Orlando City.

Nem tudo é um sonho: essa evolução ainda esbarra em dificuldades, como o teto salarial dos jogadores, a baixa qualidade técnica e a percepção ruim dos empresários que cuidam dos jogadores. "A liga permite que existam alguns contratos milionários especiais, mas o resto é abaixo. Para o jogador comum o salário não compete nem com a Série B brasileira", afirma Eduardo Uram, um dos principais empresários do Brasil atualmente. Além disso, o passado também assombra: os Estados Unidos já fracassaram nas décadas de 70 e 90 ao tentarem fortalecer o futebol local.

Veja detalhes sobre os pontos positivos e negativos do crescimento da MLS

Planejamento para 2022

É o principal pilar do crescimento atual da MLS. O planejamento foi feito pelos proprietários dos clubes, que são sócios na liga (ver quadro abaixo), e é baseado em muitas medidas já realizadas. Primeiramente os clubes se fortaleceram atraindo o público para os estádios - deram uma boa experiência para os torcedores, que estão cada vez mais presentes. "Tem as facilidades de estacionamento, transporte, restaurante e até o banheiro. Isso faz com que as famílias voltem sempre e com que os clubes consigam vender tickets que valem para a temporada inteira", contou Peres. O Orlando City, mesmo sendo um clube recém-formado, já vendeu mais de 7 mil desses ingressos para o ano que vem.

O resultado obtido até agora já impressiona: "o crescimento da MLS foi o maior do futebol nos últimos quatro anos. A receita cresceu 130%, enquanto no Brasil cresceu 27%. A tendência é que, em seis ou sete anos, a receita chegue a 1 bilhão de dólares (cerca de R$ 2,3 bilhões)", previu Amir Somoggi, consultor de marketing em gestão esportiva. Além disso, os clubes exploraram tudo que era possível para aumentar suas receitas, como programas de sócios, naming rights de complexos esportivos e ações nas redes sociais. Agora com mais dinheiro, a ideia é que a MLS cresça com contratações de grandes astros, aumentos dos salários e consequente evolução técnica, o que ainda não foi alcançado.

<p>Futuro camisa 10 do Orlando City, Kaká disse que foi para MLS por causa do potencial da liga americana</p>
Futuro camisa 10 do Orlando City, Kaká disse que foi para MLS por causa do potencial da liga americana
Foto: Divulgação

Mas o planejamento ainda parece otimista demais, afinal oito anos passam rápido no futebol e ainda há muito que ser feito. "Eu acho que ainda falta chegar jogadores de nível melhor, formar bons jogadores americanos e ter uma maior atratividade técnica", cobrou Uram.

Chegada de astros e salários

A tão pedida evolução na qualidade técnica da MLS passa pela chegada de astros do futebol mundial aos Estados Unidos. David Beckham, Thierry Henry e Robbie Keane foram alguns destaques que foram para lá nos últimos anos. Agora Kaká, Frank Lampard e David Villa estão chegando. E não é só o dinheiro que atrai eles: o meia brasileiro, por exemplo, acertou com o Orlando City dizendo que o potencial da MLS e o projeto do time o motivaram. Há ainda dois fatores que agradam os diferentes perfis de jogadores: sul-americanos podem obter uma qualidade de vida melhor nos EUA; e a facilidade de falar o inglês, idioma universal, aumenta a migração de europeus para o país.

Brasil deveria copiar a MLS?

A estrutura do futebol nos EUA é totalmente diferente do Brasil. Além da existência de uma liga na qual nem há rebaixamento, lá não existem presidentes de clubes, e sim donos, que são sócios da MLS. Um deles é o brasileiro Flávio Augusto da Silva, do recém-formado Orlando City. Ele defende o modelo americano, por entender que assim existem menos dívidas. "O presidente de um clube não compromete seu patrimônio pessoal se criar dívidas. Nos EUA, como sou proprietário do time e sócio da liga, não posso ter dívidas". Flávio disse também que é flamenguista e adoraria investir no clube, mas não sente segurança no mercado brasileiro. "Nos EUA já existe a cultura de praticar esportes e agora o 'soccer' invadiu a América".

Mas especialistas concordam que o modelo da MLS dificilmente seria aplicado no Brasil e talvez nem funcionasse. "Nos EUA eles tentam fazer algo mais parecido com o que faz a Inglaterra, em que os times também têm donos. Mas o Brasil hoje precisa aprender com a Alemanha, que tem uma estrutura parecida com a do Brasileiro - sem dono e sem empresa privada por trás. E hoje a Alemanha tem praticamente o maior campeonato do mundo, com audiência e público nos estádios", sugeriu Marcos Peres, diretor de comunicação do Orlando City.

Além de concordar com Peres e não ver a MLS como um modelo a ser copiado pelo Brasil, o consultor de marketing Amir Somoggi entende que o Brasil precisa se preocupar com diversos outros defeitos de seu próprio modelo, como o insignificante crescimento internacional do Campeonato Brasileiro e até as gestões de estádios: "as arenas não são dos clubes, são das empreiteiras. E esses preços altos nos estádio é porque elas querem ter lucro. Mas isso tem afastado o público, que precisa escolher um jogo ou outro para ir".

Mas a contratação de jogadores de alto nível ainda é bastante limitada. Cada time pode ter apenas três jogadores que recebam valores mais altos que o teto salarial, que ainda é considerado baixo. "É muito rígido esse teto. Nas outras ligas de lá (de basquete e futebol americano, por exemplo) é tendência, mas isso pode limitar a evolução", comentou Sommoggi.

O teto salarial foi importante para que os proprietários de clubes sentissem segurança para investir na MLS inicialmente. Mas no planejamento da liga estão previstas mudanças, ainda não anunciadas, para que o teto salarial não impeça a chegada de mais estrangeiros.

Essa possível grande migração de estrangeiros até poderia enfraquecer a liga local, mas há um outro projeto de longo prazo para impedir isso: a Federação de Futebol dos Estados Unidos (USS) fortalece as categorias de base e reúne até jogadores Sub-15 para treinarem juntos por um longo período e se prepararem para futuramente defenderem a seleção americana.

Público de nível europeu

Há uma chuva de números que podem comprovar que o público americano já se acostumou com o que chamam de "soccer". A Pluri Consultoria divulgou alguns balanços recentes que ajudam a entender isso: entre os 60 clubes com maior média de público nas Américas, há 16 times dos EUA na lista - mais do que o Brasil, que tem só 11. A MLS já está na nona posição entre os campeonatos que mais atraem torcedores no mundo, com 18.743 de média. O Brasil, em 15º, tem média de 14.951 fãs.

A taxa de ocupação nos estádios é ainda mais impressionante: com 90,7 (%), é a terceira maior do mundo, à frente de Espanha, Inglaterra, França e Holanda. Este dado mostra como o público pode seguir crescendo se existirem mais clubes e estádios maiores - em 2015, terão 21 clubes na MLS. Outra prova recente desse potencial aconteceu no sábado passado, quando o gigantesco Big House, em Michigan, recebeu mais de 109 mil espectadores para o jogo entre Real Madrid e Manchester United. Aliás, receber a pré-temporada de times europeus tem virado moda nos EUA. Mas no Brasil um simples amistoso, como o Palmeiras x Fiorentina realizado recentemente, ainda é novidade.

Cotas de TV em alta, mas fora do ideal

Nenhum clube no mundo pode se sustentar apenas com a venda de ingressos. A principal fonte de renda vem das televisões e isso pode ser um problema da MLS. O público americano ainda está se acostumando a ver futebol na televisão. "Existem duas formas de encarar esse problema: o novo acordo da MLS é dez vezes melhor que o anterior. Mas se comparado com o que ganham times da Europa e alguns do Brasil, o número ainda tem que melhorar mundo", analisou Marcos Peres.

Dono do Orlando City explica por que não investiu no Brasil:

O acordo citado por ele foi feito com a ESPN e FOX americanas, além da Univision (que transmite sua programação em espanhol) e durará de 2015 a 2022. O valor é de 90 milhões de dólares (R$ 206 milhões) por ano. "São números talvez modestos ainda, mas comemorou-se bastante nos EUA", contou Peres.

Como consequência dessa pouca exposição na TV, o valor de patrocínio também tem sido baixo nos times americanos. "A Adidas negocia só com a MLS, e o valor que pinga para os clubes é baixo. No Brasil, por exemplo, o Corinthians fecha com a Nike diretamente e ganha muito mais", apontou Somoggi, especialista em marketing.

Preconceito e outras dificuldades

Apesar dos números e dados positivos, ainda há quem enxergue a MLS com preconceito. Em alguns casos as críticas são válidas, apontando os problemas citados acima. Mas outras se baseiam apenas em ideias do passado. O astro Thierry Henry denunciou isso recentemente: "as pessoas na Europa acham que a MLS é uma liga fácil, que é só chegar e fazer vários gols. Mas não funciona assim. Você tem que mostrar que pode conseguir, fazer várias boas partidas e aí sim vai ganhar respeito. Venha, jogue e veja!", afirmou ele, apontando ainda as viagens longas e o calor forte como desafios para quem joga nos EUA.

A imagem da MLS também não é vista como positiva pelos empresários. Não se trata de preconceito nesse caso, mas Eduardo Uram entende que as negociações ainda não são ideais, por causa dos baixos valores oferecidos, além de haver problemas simples nas estruturas dos times: "eles não lidam com o material dos jogadores, com lavanderia, por exemplo. Então as estruturas não são compatíveis ainda. Mas tudo que os americanos tocam dá certo, então há essa ilusão que um dia tudo será mega", explicou o agente.

Fonte: Terra
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