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Ozil 'desaparece' no Arsenal após denunciar governo chinês

Meia também criou polêmica ou não aceitar redução salarial

27 out 2020
12h10
atualizado às 12h26
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Tudo começou com um tuíte. Mesut Özil sabia dos riscos, em dezembro do ano passado, quando decidiu fazer uma denúncia pública surpreendente tanto do tratamento dado pela China aos uigures, uma minoria predominantemente muçulmana na região de Xinjiang, quanto do silêncio cúmplice da comunidade internacional. Amigos e assessores avisaram Özil, meio-campista do Arsenal, que haveria consequências.

Ozil vive momento mais complicado desde que chegou ao Arsenal
Ozil vive momento mais complicado desde que chegou ao Arsenal
Foto: LANCE!

Ele teria que descartar a China como mercado. Seus 6 milhões de seguidores no Weibo, a maior rede social do país, desapareceriam. Seu fã-clube lá - com cerca de 50 mil inscritos - iria sumir também. Ele nunca jogaria na China. Ele poderia se tornar muito indesejado até para qualquer clube com proprietários chineses ou patrocinadores ávidos por fazer negócios lá.

Özil sabia que isso não era alarmismo. Ele estava ciente da resposta furiosa da China - tanto institucional quanto organicamente - a um tuíte de Daryl Morey, o gerente-geral do Houston Rockets da NBA, apenas algumas semanas antes. No entanto, Özil foi inflexível. Ele vinha ficando cada vez mais indignado com a situação em Xinjiang há meses, assistindo documentários, lendo reportagens. Ele acreditava que era seu dever, disse a seus assessores, não tanto destacar a questão, mas pressionar as nações de maioria muçulmana - incluindo a Turquia, cujo presidente, Recep Tayyip Erdogan, tinha sido padrinho no casamento de Özil - a interceder.

E, então, ele clicou em tuítar. O quanto do que se seguiu pode ser rastreado até aquele tuíte é contestado. Özil está convencido de que foi o momento em que tudo mudou. O Arsenal é inflexível quanto ao contrário. Não existe uma maneira fácil e limpa de reduzir a divisão entre essas perspectivas. Talvez ambas sejam verdadeiras. Talvez nenhuma seja. Nem Özil nem o Arsenal quiseram discutir as suas diferenças oficialmente.

O resultado, de qualquer maneira, é o mesmo. Poucos dias depois de Özil se pronunciar publicamente, as duas emissoras parceiras de transmissão da Premier League na China, CCTV e PP Sports, recusaram-se a transmitir uma partida do Arsenal. Quando a PP Sports voltou a transmitir jogos com o Arsenal, seus comentaristas se recusaram a dizer o nome de Özil.

Seu avatar foi removido dos videogames. Ao pesquisar na Internet por seu nome na China, surgiam mensagens de erro. (Foi relatado que sua conta no Weibo foi desativada, embora isso não fosse verdade). Muito deliberadamente, porém, e aparentemente por ordem de um governo autoritário, Mesut Özil estava sendo apagado.

Se parecia, na época, que aquilo era o pior que poderia acontecer, não era. No final das contas, o desaparecimento de Özil estava apenas começando.

Corte de salário

Em retrospectiva, a reação do Arsenal à decisão de Özil de se manifestar foi - pelo menos - inconsistente. Publicamente, o clube agiu rapidamente para se distanciar dos comentários do jogador. A portas fechadas, considerou puni-lo. Seu tuíte e uma postagem simultânea no Instagram para seus mais de 20 milhões de seguidores naquela rede social causaram danos consideráveis - não apenas no Arsenal, mas também para a Premier League. Afinal, a China era seu maior parceiro de transmissão estrangeiro e seu maior mercado externo, e a liga não podia se permitir - mesmo em um mundo pré-covid-19 - ter seus jogos bloqueados e não atingir as carteiras de seus patrocinadores e fãs.

Ansiosa para evitar o tipo de disputa pública que havia ameaçado a relação comercial de bilhões de dólares da NBA com a China, a Premier League fez o possível para não se envolver diretamente com a briga. Contudo, a liga e seus clubes parecem selecionar e escolher seus posicionamentos. Poucos meses após o tuíte de Özil, jogadores que representam os 20 clubes da Premier League - Hector Bellerin do Arsenal era um dos principais defensores - informaram a liga que começariam demonstrações de apoio ao movimento Black Lives Matter durante os jogos. A liga concordou rapidamente com o despertar político de seus jogadores.

No momento em que a Premier League estava discutindo a respeito do movimento Black Lives Matter no verão (do hemisfério norte), é claro, o mundo havia mudado. O novo coronavírus havia forçado um hiato de três meses no futebol e o Arsenal, como todos os outros clubes, estava sentindo as consequências financeiras. Logo, uma nova discussão começou no Arsenal sobre se os jogadores bem pagos do time deveriam aceitar redução de salários. E quase imediatamente a posição de Özil quanto a essa questão também estava aumentando o abismo entre ele e seu clube.

Mesmo depois de seu tuíte em relação à China, Özil desempenhou um papel razoavelmente importante para o Arsenal nos primeiros meses de 2020. Mikel Arteta, o novo técnico do clube, insistiu em sua entrevista para o cargo que queria trabalhar com Özil, um ex-companheiro de equipe, para ver se conseguia fazer o jogador mais bem pago do clube a voltar ao seu melhor. Aquela relação parece ter afundado quando o clube pressionou seus jogadores a ceder parte de seus salários para aliviar a crise de caixa do Arsenal. As negociações duraram seis semanas e, no fim de abril, a maioria havia aceitado.

Özil, porém, ainda tinha dúvidas. Ele pediu à chefia do Arsenal respostas detalhadas a respeito de como as economias seriam usadas, se o proprietário do clube também estaria contribuindo e se o time poderia garantir a ele que usaria o dinheiro para proteger os funcionários que não estavam em campo. Ele não achava que aquelas questões estavam abordadas de forma satisfatória (embora o clube discorde). Depois de uma vídeo chamada por Zoom, em que Arteta persuadiu seus jogadores a "fazer a coisa certa", Özil permaneceu impassível.

O dinossauro

Talvez não haja melhor indicação de quão abrangente tenha se tornado a desconfiança entre Özil e o Arsenal do que o fato de que, junto com seu ativismo político e sua recusa em aceitar um corte salarial, pelo menos parte da tensão entre as partes relacione-se a uma discussão sobre um dinossauro.

Este mês, descobriu-se que o Arsenal se separou de Jerry Quy, um fã de longa data que passou os últimos 27 anos se vestindo como um dinossauro verde enorme (possivelmente; sua espécie não está clara) parado na linha lateral durante os jogos. Quy é o humano por trás do Gunnersaurus, mascote levemente amado, ironicamente, do Arsenal. Sua demissão foi, para dizer o mínimo, um desastre de relações públicas. Özil, imediatamente, agarrou-se a isso, oferecendo-se para pagar o salário de Quy até que os fãs fossem autorizados a retornar aos estádios ingleses e o Gunnersaurus pudesse retornar. O clube ficou furioso.

O começo do fim

Özil, 32 anos, insiste que é seu "amor" pelo Arsenal que o mantém lá. Ele teve oportunidades de sair ao longo dos últimos meses, de acordo com um executivo do futebol com conhecimento das ofertas, mas nenhuma lhe interessou. O tamanho de seu salário - e talvez sua reputação criador de problemas - limita severamente suas opções, mesmo o Arsenal estando tão ansioso em transferi-lo e disposto a pagar dois terços de seu contrato para que isso aconteça.

Foi apenas na semana passada que a realidade de sua situação tornou-se clara. Ele já havia sido deixado de fora do elenco do Arsenal para a Liga Europa desta temporada - ele tuitou sobre a partida contra o Rapid Vienna na noite de quinta-feira de casa - quando foi informado de que também não estaria na escalação para a campanha da Premier League.

Com a janela de transferências fechada até janeiro, agora é tarde para ele deixar a equipe. Até então, no mínimo, ele se encontra no exílio do futebol: um de sua própria autoria, de seu clube, que parece não ter saída. Ele acredita que tudo começou com o tuíte. O Arsenal contesta isso. Onde quer que tenha começado, esse é o resultado dele: 10 meses depois, Mesut Özil tem sido, efetivamente, apagado.

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Estadão
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