Decisão entre River e Belgrano mexe com argentino do Inter
- Felipe Held
Mario Ariel Bolatti é, talvez, um dos maiores jogadores da história do Belgrano, clube ao qual chegou ainda criança e de onde saiu já como atleta profissional, em 2007, rumo à Europa. Mas se engana quem pensa que o volante torcerá fervorosamente para a equipe da cidade de Córdoba, que nesta quarta-feira, às 21h, inicia o duelo com o River Plate por uma vaga na primeira divisão do Campeonato Argentino. O meio-campista do Internacional está dividido, pois tem o coração preenchido pelos dois clubes.
Última grande revelação do Belgrano, Bolatti nasceu em 1985 na cidade de La Para, a cerca de 150 km de Córdoba, capital da província homônima. Em 2006, com 21 anos, ajudou o clube celeste a conquistar sua última promoção à elite do Campeonato Argentino, mas não seguiu por muito tempo vestindo a camisa azul celeste dos "piratas" de Córdoba: ele foi negociado com o Porto, de Portugal, em 2007.
Agora, Bolatti vê de Porto Alegre o Belgrano tentar, talvez, seu feito mais notável em 106 anos de história: subir à primeira divisão e impor o primeiro rebaixamento do River em 110 anos. Ele não esconde a tristeza por assistir às duas equipes pelas quais torce disputando uma vaga. E pior: ver um dos maiores clubes do país à beira de um vexame.
"Para mim é muito difícil opinar sobre esta decisão", admitiu o cordobês Bolatti, em entrevista ao Terra. "Tenho raízes em Córdoba e sempre gostei do River. É muito comum na minha província torcer para Belgrano ou Talleres e por Boca Juniors ou River Plate. Fiquei com Belgrano e River", acrescentou.
Bolatti preferiu não se intrometer na crise do time portenho do bairro de Núñez, que apenas acumulou fracassos depois de vencer o Clausura em junho de 2008 e sofrer um desmanche naquele elenco vencedor. O grande expoente daquele elenco era o atacante colombiano Radamel Falcao García, agora astro no Porto. "Para mim é inacreditável que o River esteja em uma situação dessas, é algo impensável", resumiu.
Como teve a quarta pior média de pontos nas últimas três temporadas dentre os 20 participantes do Argentino, o River terá que disputar contra o Belgrano, quarto colocado da Primera B (segunda divisão), a repescagem para se manter na primeira divisão nacional. O primeiro duelo entre cordobeses e portenhos será realizado nesta quarta-feira, no Estádio Gigante de Alberdi, a 700 km da capital argentina. A volta será domingo, no Monumental de Núñez, em Buenos Aires.
O River Plate tem a vantagem de jogar por dois resultados iguais na promoción, mas Bolatti crê no potencial do Belgrano - o clube de Córdoba fez a melhor campanha do returno da Primera B, com dez vitórias e sete empates em 19 partidas. A equipe de Córdoba, porém, não vence os portenhos do Monumental há 16 anos (ou 12 jogos).
"O Belgrano tem condições, sim, de rebaixar o River. Trata-se de um time acostumado a este tipo de disputa, o torneio da morte argentino. E não tem nada a perder, mas sim tudo a ganhar", disse Bolatti, que, em 2006, enfrentou o bonairense Olimpo, de Bahía Blanca, na repescagem. "A motivação por enfrentar o River será um grande incentivo para todos", emendou o volante do Inter.
Expoente cordobês
Bolatti é, ao lado do meia-atacante Javier Pastore (revelado no arquirrival Talleres e atualmente no Palermo, da Itália), uma das últimas revelações do futebol cordobês. A província chegou até a formar grandes futebolistas no cenário mundial, como o zagueiro Oscar Ruggeri, o meia Pablo Aimar e o atacante Mario Kempes, mas acaba sendo conhecida na Argentina principalmente por outros fatores: ter algumas das principais universidades do país, o "cuarteto" (um animado estilo musical caraterístico e bailante), belas mulheres e um povo receptivo, de sotaque cantado, com vogais arrastadas e cheio de ritmo.
Em Córdoba Capital, que "disputa" com Rosario pelo posto de segunda maior cidade da Argentina, o futebol não é o grande destaque: Belgrano e Instituto aparecem atualmente na segunda divisão. O Talleres, arquirrival dos celestes adversários do River, está na terceira. E Bolatti se tornou um grande expoente em 2009, quando atuava pelo portenho Huracán e ganhou uma chance de Diego Armando Maradona na seleção argentina.
O cordobês, aliás, não decepcionou e marcou o gol mais importante da Argentina naquele ano: foi dele o tento da vitória por 1 a 0 sobre o Uruguai, em Montevidéu, que classificou a Argentina de Maradona para a Copa do Mundo de 2010 na última rodada das Eliminatórias Sul-Americanas.
"Houve outros grandes jogadores antes de mim em Córdoba, mas fico feliz por fazer parte da história e por levar o nome da minha província para o mundo todo", afirmou Bolatti, que pretende entrar em contato com os amigos de Belgrano antes da decisão desta noite, com início previsto para as 21h.