Nostalgia e esperança marcam América x São Cristóvão pela B1
“Honrem essa camisa, pombas! Cadê a garra? Vamos reagir!” O desespero de Celso Luiz Roberto, 53 anos, único torcedor do São Cristóvão no jogo da tarde de quarta-feira (30) com o América, pela Série B1 do Campeonato Carioca, tinha uma justificativa. Seu clube encerrava a competição rebaixado para a B2, que equivale à Terceira Divisão do Rio. Do outro lado, 427 adeptos comemoravam a classificação do América à semifinal do segundo turno.
O time da casa venceu por 4 a 0 e deixou em êxtase seus apaixonados torcedores. Um deles, o aposentado João Paulo Serô de Souza, 65 anos, dizia ter perdido a conta de quantos confrontos entre América e São Cristóvão ele já tinha assistido.
“Desde os anos 60 não perdi nenhum. É um clássico do futebol carioca, mas no Rio só se fala dos quatro paparicados. Fazer o que, né? Já falei pra Geysa (sua esposa): ‘vou seguir o América sempre’, se ela quiser me largar por causa disso, aí a decisão não é minha.”
João é figura carimbada nos jogos do América, notadamente nos que são disputados no Estádio Giulite Coutinho, em Mesquita, na Baixada Fluminense. Foi ali, nesta quarta, que ele repetiu seu ritual de décadas – acender duas velas, uma para cada tempo de jogo, num cantinho da arquibancada. “Se eu esqueço as velas ou se venta muito, o América perde.”
Enquanto a bola rolava e os gols surgiam, outro aposentado, Jorge Agostinho Macedo, 83 anos, conversava com amigos de arquibancada sobre um jogo com o São Cristóvão que lhe traz até hoje recordações. “Foi nos anos 50, no Maracanã, e marcou a estreia do Heleno de Freitas no time. Perdemos por 3 a 1. Depois da derrota, ele criticou a equipe, dizendo que tinha muita gente de cor no América e aí acabou afastado.”
América e São Cristóvão, juntos, são donos de oito títulos estaduais, na divisão principal. O Alvirrubro tem sete e o time da Leopoldina apenas um, em 1926.
“Claro que a realidade mudou e hoje é impossível que voltemos a 91 anos atrás. Mas tenho esperança de que meu clube possa renascer”, disse Celso. Ele tentou fazer da filha Jordana uma herdeira da paixão pelo São Cristóvão. “No início, quando pequena, ela vestia a camisa do clube e eu a levava aos jogos. Depois, virou Fluminense.”
Num clima de cordialidade, raro em estádios de futebol, Celso foi cercado ao final do jogo por torcedores do América que vinham lhe cumprimentar. Alguns queriam saber onde poderiam comprar a camisa oficial do São Cristóvão.
Na sequência da B1, o América vai enfrentar o Artsul no sábado, no campo do adversário. Se João levar as velas, o time entra em campo como favorito.