Espanha terá de lidar com recorrência de racismo e xenofobia no futebol até sediar a próxima Copa
Com histórico de incidentes, país precisa adotar medidas eficazes visando o Mundial que recebe junto de Portugal e Marrocos
EAST RUTHERFORD - Não que Rússia, Catar e os próprios Estados Unidos tenham sido símbolos de respeito à diversidade enquanto sediaram a Copa do Mundo. Entretanto, a Espanha, uma das sedes do Mundial de 2030 e atual campeã, terá de encarar como islamofobia, racismo e xenofobia se manifestam quase livremente no futebol espanhol na tentativa de que isso não se repita sob os olhares de todo o planeta.
As manifestações preconceituosas no futebol espanhol não são novidade no noticiário brasileiro. Nos oito anos em que Vinicius Júnior atua no Real Madrid, o principal jogador da seleção brasileira já denunciou 20 casos de racismo.
Diferentes desfechos já aconteceram. Em 2021, um caso foi arquivado porque a polícia não conseguiu identificar o torcedor do Barcelona que gritou insultos racistas contra Vinicius no Camp Nou.
As situações não se limitam a um clube. Torcedores de Mallorca, Atlético de Madrid, Valencia, Real Valladolid e Osasuna já tiveram o brasileiro como alvo de injúria. O caso mais emblemático foi no Estádio Mestalla, em Valência, em 2023, quando Vinicius reagiu e discutiu com torcedores. Uma confusão se instaurou entre os jogadores. O atacante acabou expulso, mas o cartão vermelho foi anulado posteriormente.
O Real Madrid já teve de agir por causa de racismo da própria torcida contra Vinicius. Em 2024, o clube aplicou uma multa e proibiu um torcedor menor de idade a frequentar o estádio por um ano.
O presidente da Fifa, Gianni Infantino, criticou o caso em comunicado. "Toda a comunidade do futebol se posiciona em solidariedade ao capitão francês", escreveu.
"O futebol mostrou, durante esta Copa do Mundo, como é poderoso para unir a sociedade. Nosso esporte se mantém inclusivo e um espaço seguro para que todos os esforços continuem a expulsar o racismo do jogo e da sociedade", concluiu.
Durante metade da Copa do Mundo, entre 11 de junho e 1º de julho, a Fifa identificou cerca de 89 mil publicações online abusivas envolvendo o torneio, sendo que 11% delas continham especificamente injúria racial.
"Embora a Fifa tenha condenado os incidentes racistas na Copa do Mundo, certamente pode fazer mais para combater a discriminação fora de campo", avalia o coordenador de Esportes e Direitos Humanos da Humans Rights Watch (HRW), Vincent Sima Ole.
Antes do Mundial, a HRW cobrou da Fifa uma contestação sobre ações do ICE contra imigrantes nos Estados Unidos. A organização criticou a entrega do inédito Prêmio da Paz ao presidente Donald Trump.
"A popularidade do futebol confere à Fifa uma plataforma global. Além de condenar os ataques racistas contra atletas e torcedores, ela deveria usar sua influência para combater o impacto das políticas discriminatórias do governo dos EUA sobre torcedores, jogadores e outras pessoas afetadas durante a Copa do Mundo", argumenta Sima Ole.
Yamal vira voz sábia contra Islamofobia na Espanha
O preconceito contra o Islamismo e estrangeiros também é latente, não apenas na Espanha. Em 2024, um relatório da Organização de Cooperação Islâmica (OIC, na sigla original) apontou a Europa como o segundo maior foco de incidentes islamofóbicos.
A Espanha não figurou entre os países com mais casos. Os espanhóis, porém, protagonizaram uma situação recente, em amistoso contra o Egito. Foi em março, com torcedores gritando "quem não pula é muçulmano".
Lamine Yamal, de 19 anos e principal talento espanhol, segue o Islamismo. Ele condenou os cânticos. "Sei que eram direcionados à equipe rival e não eram pessoais contra mim, mas, como muçulmano, não deixa de ser uma falta de respeito e algo intolerável", escreveu o jogador em publicação no Instagram.
O protocolo antirracismo da Fifa foi acionado, com o sistema de som do estádio pedindo que os torcedores parassem. A Real Federação Espanhola (RFEF) disse, na época, que buscava identificar os suspeitos. A Fifa abriu um processo disciplinar. Até então, nenhum desfecho foi publicado.
Os protocolos de Fifa e Uefa
Desde 2009, a Uefa tem um protocolo próprio contra casos de racismo. Os árbitros podem agir em três etapas. Primeiro, o jogo é interrompido, com um aviso no estádio. Depois, se as manifestações persistirem, a partida pode ser suspensa por cinco a 10 minutos com retirada dos jogadores de campo. Em último caso, o jogo pode ser abandonado.
No começo de 2025, a Fifa enfim lançou seu protocolo próprio, que não se limita a injúrias das torcidas e cobre também ofensas entre jogadores e comissão técnica. Para denunciar preconceito, deve ser feito um gesto de "X" com os braços cruzados.
O árbitro, verificando a situação, também faz a sinalização, parando o jogo. Se a discriminação persistir, o juiz pode optar por uma suspensão temporária, última decisão antes de declarar derrota por W.O. do time envolvido no ato.
As regras integram o artigo 15 do Código Disciplinar. Todas as confederações filiadas devem aplicar o protocolo. Além disso, a Fifa impôs uma multa máxima de 5 milhões de francos suíços (R$ 31,69 milhões) para casos de racismo em jogos.
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