1990: Argentina brilha, Alemanha vence e Brasil adia o tetra
- Emanuel Colombari
A Copa do Mundo de 1990 não inspira as melhores lembranças para boa parte da torcida do Brasil. A despeito do nível técnico abaixo do esperado de muitas das seleções presentes no torneio, os torcedores brasileiros que acompanharam o Mundial viram a Seleção comandada por Sebastião Lazaroni pouco inspirada em gramados da Itália, nos quais a campanha foi encerrada com uma derrota por 1 a 0 diante da favorita Argentina nas oitavas de final.
Mas há quem tenha boas lembranças daquele mês de junho de 1990. Enquanto nomes como Careca, Müller, Bebeto, Romário, Alemão, Mauro Galvão e Dunga iniciavam a caminhada em busca do tetracampeonato, Zezé di Camargo e Luciano entravam em estúdio para a gravação de "É o Amor", que foi lançada em abril de 1991 e guindou a dupla ao topo das paradas de sucesso nacional.
"Estávamos gravando nosso primeiro disco. Entramos em estúdio em junho de 1990 e lançamos em abril de 1991. Era um cenário de muita esperança, muita luta, uma visão romântica da vida", contou Zezé di Camargo, que já morava em São Paulo com sua mulher, Zilu, e com as filhas Wanessa e Camilla. "Morava na Vila Alpina (Zona Leste da cidade). O Luciano estava com a gente há dois meses ou quase isso. Tinha acabado de chegar de Goiânia para formar dupla comigo."
Enquanto a dupla se preparava para gravar em São Paulo, a Seleção Brasileira fazia sua preparação final para estrear. Assim, em 10 de junho de 1990, o Brasil entrou em campo no Estádio Delle Alpi, em Turim, para enfrentar a Suécia pelo Grupo C. Resultado: vitória por 2 a 1, com dois gols de Careca - Thomas Brolin descontou. Nos dois jogos seguintes pela primeira fase, duas vitórias no mesmo local por 1 a 0, contra Costa Rica e Escócia. Em ambas, Müller marcou para o Brasil.
Mas enquanto muita gente era dispensada do trabalho no Brasil para ver os jogos do Mundial, Zezé di Camargo e Luciano só pensavam em gravar. "Precisamente quando começou a Copa, a gente entrou no estúdio juntos pela primeira vez. Artista que está começando não tem muita escolha. Era quando o estúdio estava livre, já que os grandes não iam ocupar naquele período", conta Zezé.
Mas a vontade de gravar não impedia a dupla de acompanhar a Seleção Brasileira nas partidas. "O pessoal gravava com a gente, e no horário do jogo, parava. Nos dias em que o Brasil jogava, não tinha estúdio. Era emoção em gravar, era emoção em torcer... Foi assim que gravamos 'É o Amor'", acrescenta o músico.
Mas eis que veio o jogo contra a Argentina no dia 24 de junho. Pela quarta vez, o Brasil entrava em campo no Estádio Delle Alpi. Do outro lado, a Argentina, atual campeã do mundo e com Diego Armando Maradona, então jogador do Napoli, brilhando como nunca em gramados italianos. E após várias chances perdidas pelo ataque brasileiro e de importantes defesas do goleiro Sergio Goycochea, brilhou a estrela do camisa 10 deles.
Aos 35min do segundo tempo, Maradona recebeu a bola no círculo central. Avançou pela direita, escapou do primeiro marcador, escapou do segundo. Perto da grande área, três defensores do Brasil se deslocavam para tentar interromper sua trajetória. Esperto, Claudio Cannigia abriu para o lado esquerdo e recebeu a bola desmarcado. De frente para o gol, o camisa 8 avançou para a área, driblou Taffarel e bateu para fazer 1 a 0. Era o gol da classificação argentina.
Ali, a expectativa de Zezé di Camargo e de milhões de brasileiros esbarrava no talento da geração adversária. "Sempre torci e sempre vou torcer pelo Brasil, mas aquela Seleção não motivava ninguém. Já tinha previsão do que ia acontecer. Fomos eliminados pela Argentina. É melhor esquecer", relembra o cantor, que resume o sentimento de frustração após a eliminação. "Aquela não foi uma Seleção bem escalada. Foi horrível perder", completou.
O Brasil reclamou, disse que Maradona havia oferecido a tal água "batizada" com tranquilizante a Branco. Mas a Argentina deu de ombros. Nas quartas de final, após um 0 a 0 no tempo normal e na prorrogação, a equipe do técnico Carlos Bilardo eliminou a Iugoslávia nos pênaltis, vencendo o desempate por 3 a 2. Os iugoslavos tiveram a chance de avançar depois que Maradona teve seu pênalti defendido e Pedro Troglio mandou na trave. Porém, Dragan Stojkovic abriu a série mandando a bola na trave, e Sérgio Goycochea posteriormente garantiu a classificação ao defender os dois últimos chutes, de Dragoljub Brnovic e Faruk Hadzibegic.
Nas semifinais, outro gol de Cannigia ajudou a Argentina a empatar com a dona da casa Itália - justamente no Estádio San Paolo, em Nápoles, onde Maradona era rei. Com a torcida napolitana dividida entre seu país e seu ídolo, a Argentina venceu nos pênaltis: 4 a 3. E no jogo em que o goleiro Walter Zenga poderia consagrar ainda mais sua invencibilidade de cinco jogos sem sofrer gols, quem brilhou foi Goycochea, que defendeu com categoria as cobranças de Roberto Donadoni e Aldo Serena.
Mas quis o destino que Goycochea não defendesse o pênalti mais importante daquela Copa. Em 8 de julho de 1990, no Estádio Olímpico de Roma, Alemanha Ocidental (em seu último Mundial antes da reunificação) e Argentina se encontraram para decidir quem seria o novo tricampeão mundial. E após 85 minutos um jogo pouco inspirado, Lottar Matthaus foi derrubado na área por Roberto Néstor Sensini. Pênalti, marcado pelo mexicano Edgardo Codesal. Andreas Brehme cobrou no canto direito de Goycochea, que foi na bola e não a alcançou. Era o gol do título da equipe do técnico Franz Beckenbauer.
Para o Brasil, aquela Copa - a última antes do tetracampeonato - deixou lembranças amargas. Mas para Zezé di Camargo di Camargo, a dupla com Luciano leva duas semelhanças com a torcida do Brasil, particularmente com a daquele Mundial: o sonho e o sofrimento. "A gente sonhava em conquistar e conquistamos. E em 2010, lutamos para manter o sucesso alcançado graças ao reconhecimento do público. Assim, os jogadores e o Dunga deveriam fazer: lutar para manter a confiança e credibilidade do público", aconselha Zezé. "Em 2010, continuamos mais sonhadores do que nunca - e sofredores também. Torcedor sofre, né?"
Hoje, duas décadas e dois títulos separam a frustração de 1990 e a expectativa de 2010 - expectativa, essa, "a melhor possível" para Zezé di Camargo. "O Dunga optou pela coerência e escalou os jogadores que já estavam trabalhando com ele, que ajudaram ele a se classificar para a Copa do Mundo, que acompanham a trajetória dele. Não convocou, por exemplo, Paulo Henrique Ganso, Neymar, Adriano, Ronaldinho Gaúcho, a quem ele deu várias oportunidades e que não deu certo. Ele quer jogador que esteja falando a mesma língua. A gente tem de respeitar e torcer. Ele fez o certo, o que dá segurança ao trabalho dele", avalia.
O tetracampeonato só veio em 1994, após o insucesso na Copa de 1990. Tendo em vista a decepção do Brasil no Mundial de 2006, Zezé acredita em novo sucesso na África do Sul? A resposta é cautelosa. "Tomara, mas isso não é uma regra. Tenho muita fé e acho que a gente vence, embora a seleção da Inglaterra seja uma forte candidata", diz, lembrando ainda com um carinho particular da Copa de 1990. "O Brasil pode não ter levado a melhor, mas 'É o Amor' e a dupla Zezé Di Camargo e Luciano nasceram com sorte."