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Copa do Mundo da Fifa 2026

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Opinião: Virginia não está roubando espaço na Copa; papel das mulheres no jornalismo esportivo deveria gerar mais indignação

Influenciadora vai fazer entretenimento; no jornalismo, o desafio é a desigualdade de gênero das redações ao comando

29 mai 2026 - 04h59
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Influenciadora Virginia Fonseca
Influenciadora Virginia Fonseca
Foto: Reprodução/Instagram/@virginia

Virginia Fonseca não é jornalista. E, a menos que sejamos todos surpreendidos, não é especialista de futebol. Dito isso, sua participação na Copa do Mundo, como repórter do Domingão, tomou uma proporção que não faz o menor sentido. Dizer que Virginia está roubando o lugar de jornalistas é um argumento raso, para não dizer falso. Ela está, no máximo, tomando espaço de outras influenciadoras que talvez pudessem ter mais repertório, empatia ou conhecimento.

A Fifa não confirma números oficiais, mas o número de credenciais para a cobertura da Copa deve passar de 10 mil. Para o evento de convocação da seleção brasileira da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), foram 700 jornalistas.

A Globo, detentora oficial das imagens da Copa, enviará para sua cobertura mais de 100 profissionais, entre repórteres, apresentadores, comentaristas e outros colaboradores técnicos. Outros grupos de comunicação também já anunciaram equipes com dezenas de correspondentes.

O mercado do jornalismo é extremamente concorrido, e a cobertura de grandes eventos esportivos como Copas e Olimpíadas é o sonho de qualquer profissional. Mas há um ponto-chave: Virginia não vai fazer jornalismo. Ela será “repórter” – no mais amplo de seus sentidos – de um programa de entretenimento. Foi escolhida, certamente, por ser uma das maiores influs do país, em termos de números absolutos. Espera-se que seus mais de 100 milhões de seguidores, quando somadas todas as redes sociais, promovam engajamento e impulsionem a audiência televisiva e digital do Domingão e da Globo, num momento em que as emissoras se coçam para compensar a queda estrondosa de consumo. Você lembra que Virginia teve um programa de entrevistas por quase 1 ano no SBT, não é?

Virginia não é a primeira não-jornalista a “cobrir” uma Copa na Globo. Pelo contrário, ela apenas segue uma linha que a emissora tem há anos. Susana Werner tinha espaço premium na emissora na Copa de 1998, época em que era namorada de Ronaldo Fenômeno. Débora Secco, no ano passado, chamou mais atenção pelos looks que usava do que por seus comentários nos programas do Sportv em 2022. A participação de Jojo Todynho no Central da Copa, até hoje, não fez o menor sentido.

Virginia não é sequer a única não-jornalista desta Copa. Karoline Lima, ex (ou atual?) namorada de Leo Pereira, também estará, como Repórter da Rede Ronaldo. Para citar apenas as duas.

A influência de Virginia e o machismo do jornalismo esportivo

O tema Virginia tem muito mais camadas do que o raso argumento de tirar espaço de jornalistas. Como já falei sobre a convocação de Neymar, quando defendi sua presença na Copa, podemos debater por que uma personalidade como Virginia Fonseca, que promove casas de apostas e já chegou a depor em uma CPI no Congresso, virou um ícone e referência no nosso país. O que a levou a isso? O que realmente influencia seus seguidores? Como ela os torna pessoas melhores?

O real peso de sua influência de fato nos faria pensar sobre o tamanho da exposição que ela terá. Mas a reação ao anúncio, principalmente entre jornalistas, chama atenção pela indignação seletiva.

Homens, brancos, muitos de meia-idade, são maioria nas redações esportivas. São maioria esmagadora nas mesas-redondas. E são maioria ainda mais absurda no comando das operações. Muitos, muitos mesmo, mereceram o espaço que têm. São admirados e são referência para todos e todas nós. Mas e nós, mulheres? Não merecíamos? Ou não tivemos oportunidade?

Quanto esses críticos estão fazendo, publicamente e principalmente internamente, para mudar esse cenário de desigualdade, que já foi maior, mas ainda é gritante? Como usam seu tamanho e voz para promover mulheres? Quantos abriram mão de uma vaga na Copa para uma colega?

Eu, pessoalmente, tenho muitas restrições aos exemplos que Virginia passa. Mas sua presença em um programa de entretenimento, em um evento que é muito mais do que futebol, deveria ter muito menos espaço de análise do que teve. Qual o papel que o jornalismo esportivo ainda quer imputar a nós, mulheres, em pleno 2026? Isso me preocupa mais do que a Virginia.

Fonte: Portal Terra
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