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Copa do Mundo da Fifa 2026

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De 'relâmpago' em campo a veterano com jogo cadenciado: a metamorfose de Messi

Lionel Messi disputa este ano sua sexta Copa do Mundo pela seleção da Argentina. Sua carreira foi marcada pela contínua evolução, acompanhando as diversas mudanças táticas ocorridas no futebol nas últimas duas décadas.

16 jun 2026 - 06h33
(atualizado às 08h45)
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Lionel Messi carrega com uma das mãos o troféu da Copa do Mundo da Fifa de Futebol Masculino em 2022, no Catar
Lionel Messi carrega com uma das mãos o troféu da Copa do Mundo da Fifa de Futebol Masculino em 2022, no Catar
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

A Argentina pode se tornar o primeiro país a ser campeão da Copa do Mundo duas vezes seguidas desde o Brasil, em 1962 — e apenas o terceiro na história do torneio.

Se isso realmente acontecer, é praticamente certo que o personagem central da conquista será o seu capitão, Lionel Messi.

Com 38 anos de idade, Messi disputa este ano sua sexta Copa do Mundo. Será um recorde triplo, igualado pelo português Cristiano Ronaldo e pelo goleiro mexicano Guillermo Ochoa.

Mas o Messi que disputará a Copa do Mundo da Fifa de Futebol Masculino de 2026 é muito diferente daquele que estreou no Barcelona em 2003.

A maioria dos jogadores entra em declínio com a idade e os atletas de elite encontram formas de se adaptar a isso. Cristiano Ronaldo, por exemplo, se reinventou como cobrador de pênaltis, quando sua velocidade diminuiu.

Mas Messi não teve que se adaptar ao declínio. Ele consegue dominar e se manter à frente do esporte que sempre o desafia.

Desde sua estreia no Barcelona aos 16 anos, em um amistoso contra o Porto do técnico José Mourinho, jogando pela direita, driblando e se enfiando pelo meio, Messi se reinventou pelo menos cinco vezes, evoluindo para se tornar o jogador que ele é hoje, no Inter Miami e na seleção argentina.

Por que Guardiola tirou Messi da ponta

Ronaldinho Gaúcho era o melhor e mais conhecido jogador do mundo quando viu Messi treinar pela primeira vez. Ele disse: "Ele vai ser excelente."

Dois anos depois, em agosto de 2005, Messi se apresentou ao mundo no Troféu Joan Gamper, contra a Juventus de Turim. O técnico do time italiano, Fabio Capello, ficou tão impressionado com o jovem de 18 anos que, segundo se conta, tentou contratá-lo.

Quando Messi tinha 21 anos, Ronaldinho saía do auge e passava o bastão para os seus sucessores. O então técnico do Barcelona, Frank Rijkaard, deixou claro o que o clube precisava dele.

"Direto pelo centro", disse Rijkaard. "Quanto mais ele tocar na bola, melhor para o lateral."

Nos primeiros meses do técnico Pep Guardiola, em 2008, o lado direito do campo era o corredor do argentino, seu caminho particular até o gol.

Guardiola decidiu afastar Messi da ponta pela primeira vez por razões defensivas. Ele não recuava para marcar, o que criava dificuldades para os laterais.

Mas o técnico catalão sabia que Messi sempre acabaria no centro de operações. E a equipe foi construída em torno da sua nova posição, para o maior dos palcos e o maior dos momentos.

O 'falso nove' e a revolução do sistema

O dia era 2 de maio de 2009. O local era o Estádio Santiago Bernabéu, em Madri, na Espanha.

O jogo, Real Madrid x Barcelona, pelo campeonato espanhol, La Liga. Foi ali que Guardiola tomou uma importante decisão.

Ele retirou Messi da ponta direita e o colocou na ponta do ataque, mas sem a função de um atacante tradicional.

Samuel Eto'o foi para a direita e Thierry Henry, para a esquerda. E a instrução para Messi foi: caia, receba e decida.

O jogo terminou 6x2 para o Barcelona, com dois gols do argentino. Assim renascia o falso nove.

Não era uma invenção nova. Foi assim que a Hungria do técnico Gusztav Sebes (1906-1986) demoliu a Inglaterra na sua própria casa, em 1953.

Ele deslocou repetidamente Nandor Hidegkuti (1922-2002) para o meio-campo, puxando os zagueiros e criando espaço para Ferenc Puskás (1927-2006) e Sándor Kocsis (1929-1979). O resultado foi uma vitória de 6x3 sobre os ingleses.

Inicialmente sob a direção do técnico Rinus Michels (1928-2005), Johann Cruyff (1947-2016) atuou como atacante com livre movimentação dentro da filosofia do carrossel holandês, nos anos 1970.

Inicialmente, Messi se tornou um problema sem solução.

Quando ele caía entre as linhas, os zagueiros do Real Madrid precisavam decidir se o seguiam e deixavam um buraco no campo, ou permaneciam e lhe davam mais espaço.

Nenhuma das opções funcionava. Messi atravessava o campo sem dificuldades.

Com Xavi, Andrés Iniesta e Yaya Touré atrás dele e Henry e Eto'o abrindo a defesa adversária, todas as opções dos oponentes davam errado.

No Barcelona, Iniesta (esq.) e Xavi (dir.) mantinham a bola em movimento e criavam o espaço para que Messi (centro) se destacasse.
No Barcelona, Iniesta (esq.) e Xavi (dir.) mantinham a bola em movimento e criavam o espaço para que Messi (centro) se destacasse.
Foto: AFP via Getty Images / BBC News Brasil

Guardiola repetiu o experimento semanas depois, na final da Champions League, contra o Manchester United, de Cristiano Ronaldo. Messi marcou de cabeça aos 25 minutos do segundo tempo e o jogo terminou com o placar de 2x0 para o time espanhol.

Entre 2011 e 2013, Messi assinalou 96 gols em 69 jogos pelo campeonato espanhol.

A Bola de Ouro que ele recebeu em 2009 se tornou um acessório quase permanente. Ele ganhou o troféu novamente em 2010, 2011, 2012, 2015, 2019, 2021 e 2023, acumulando oito premiações.

A primeira Bola de Ouro veio quando ele tinha 22 anos. A mais recente, aos 36.

"Eu não costumava prestar muita atenção à tática", declarou Messi ao jornalista argentino Juan Pablo Varsky, em 2024.

"Mas, com Guardiola, aprendi muito. Comecei a entender os espaços, a reter a bola, como o jogo realmente funciona."

A transição: o peso da equipe

Quando Xavi saiu do Barcelona, em 2015, seguido por Iniesta três anos depois, algo mudou na equipe espanhola.

Messi sempre havia sido o jogador decisivo. Mas, agora, ele precisava agir como o motor completo.

Não havia mais o meio-campo que atuava como sua rede de segurança (os jogadores que mantinham a bola em movimento e criavam o espaço para que ele se destacasse).

Houve uma época em que se esperava que Messi fosse Xavi, Iniesta e o artilheiro, todos ao mesmo tempo. Era pedir demais de qualquer jogador.

Ele solucionou a questão evoluindo novamente.

O artilheiro e número 10, ou falso nove, passou a ser o "gancho". Caindo com mais profundidade, ele se tornou o organizador, que iniciava e, muitas vezes, concluía as jogadas.

Com isso, o número de assistências passou a se aproximar dos gols nas suas estatísticas. Na temporada europeia de 2019-20, por exemplo, ele registrou 25 gols e 22 assistências, em 33 jogos pelo campeonato espanhol.

Messi voltou a marcar mais gols na sua última temporada no Barcelona (2020-21). Foram 30 gols e 11 assistências, em 35 jogos pela La Liga.

Mas a sua primeira temporada no Paris St. Germain confirmou a mudança. Ele marcou 11 gols e registrou 15 assistências em 34 jogos, em todas as competições. Pela primeira vez na sua carreira, o argentino registrava mais assistências do que gols, jogando por um clube.

"Um artilheiro que se transformou em Iniesta", descreveu um comentarista argentino.

O ônus de ser capitão — e a liberação

O melhor momento de Messi como capitão da seleção argentina foi a conquista da Copa do Mundo de 2022, no Catar
O melhor momento de Messi como capitão da seleção argentina foi a conquista da Copa do Mundo de 2022, no Catar
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Paralelamente à sua evolução tática, outra questão levou mais tempo para ser definida: quem é Messi para a Argentina.

Ele se tornou capitão da seleção do seu país em agosto de 2011. Foi quando vieram as derrotas.

Primeiro, a Argentina perdeu para a Alemanha a final da Copa do Mundo de 2014, no Maracanã, após prorrogação (1x0). Depois, a final da Copa América de 2015, nos pênaltis, para o Chile. E, por fim, a final da Copa América de 2016, novamente para o Chile, outra vez nos pênaltis.

Foram três finais perdidas em três anos, o que aumentou a expectativa da torcida sobre o seu capitão.

Ele desistiu após a terceira derrota, como já havia considerado fazer duas vezes antes. E, quando retornou, Messi era diferente.

Na Copa América de 2019 no Brasil, após a controversa eliminação da Argentina pela seleção brasileira na semifinal, Messi deu uma entrevista coletiva e fez fortes críticas à Conmebol, a Confederação Sul-Americana de Futebol.

Messi não era mais o mesmo jogador que, certa vez, pareceu se retirar em silêncio quando o peso da Argentina ficou grande demais. Era um líder que decidiu deixar de ser definido pelas suas derrotas.

A Copa América de 2021 foi libertadora. A Argentina venceu a final contra o Brasil no Maracanã por 1x0, pondo fim a um jejum de 28 anos sem títulos importantes.

O pronunciamento de Messi para a equipe antes do jogo levou o vestiário às lágrimas.

Messi levanta o troféu da Copa América em meio aos seus companheiros, após a vitória da Argentina no torneio de 2021
Messi levanta o troféu da Copa América em meio aos seus companheiros, após a vitória da Argentina no torneio de 2021
Foto: AFP via Getty Images / BBC News Brasil

Já o Messi da Copa do Mundo de 2022 era novamente outra pessoa, uma síntese de tudo o que ele havia vivido antes.

Na semifinal contra a Croácia, ele venceu Josko Gvardiol na corrida, fazendo ressurgir o ponta-direita de 2009 em um momento extraordinário.

Ele teve a precisão do meia-armador no jogo das quartas de final contra a Holanda, com seu passe genial para Nahuel Molina; e na final contra a França, correndo para forçar o rebote que levou ao terceiro gol da Argentina e convertendo dois pênaltis quando a vitória estava em risco.

"O futebol mudou muito", declarou Messi a Zinedine Zidane, em entrevista em 2023. "A forma de jogar, os sistemas."

"O jogo, hoje, é muito mais tático e físico do que antes. Antigamente, você encontrava mais espaços."

Messi fez a afirmação com a simplicidade de alguém que atravessou três eras táticas distintas do futebol moderno: os meio-campistas físicos do Porto e do Chelsea, o auge do posicionamento e dos passes e as disputas táticas pós-Guardiola, com transições rápidas.

E saiu vitorioso de todas elas.

'O último Messi é sempre o melhor'

Messi joga pelo Inter Miami, dos Estados Unidos, desde 2023
Messi joga pelo Inter Miami, dos Estados Unidos, desde 2023
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

No Inter Miami e na Copa América de 2024, Messi anda mais do que corre.

Os críticos costumavam usar isso contra ele. Agora, é sinal de maestria. Messi lê o jogo e conserva sua energia para os momentos importantes.

"O último Messi é sempre o melhor Messi", disse certa vez seu ídolo de infância, o ex-jogador e atual auxiliar técnico da Argentina, Pablo Aimar. Ele provavelmente ainda está certo.

Messi não conquistou ao longo de duas décadas apenas uma coleção de troféus e estatísticas. Ele é a repaginação do que um jogador de futebol pode ser em cada etapa da sua carreira.

O ponta adolescente que surpreendeu Capello. O falso nove que redesenhou o mapa tático do futebol europeu. O gancho que aprendeu a engrandecer os demais jogadores.

O capitão que finalmente se tornou o que seu país precisava que ele fosse — o meia-armador de uma seleção campeã do mundo. E, agora, o veterano que corre pouco e ainda observa tudo em primeiro lugar.

O desenrolar da Copa do Mundo trará muitos superlativos sobre Messi. Mas a maioria deles irá fugir da questão principal.

O mais importante não é sua qualidade como jogador, mas quantas vezes ele precisou se transformar em alguém completamente novo.

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