Argentinos "bacanas", juiz violento e Pelé: veja contos da Copa Roca
- Diego Garcia
Brasil e Argentina revivem a história e voltam a se enfrentar pela Copa Roca nesta quarta-feira, em Córdoba, em partida de ida da 12ª edição de um dos mais tradicionais torneios do continente. Em campo, inúmeras histórias e fatos inusitados da competição, que sempre envolveu as duas principais potências futebolísticas das Américas. Argentinos "bacanas", árbitro violento e até o jovem Pelé estão entre algumas das histórias inusitadas.
"Os jogos contra a Argentina são sempre um prazer, uma satisfação, principalmente se ganharmos. A rivalidade sempre foi grande, desde aquela época, e vencê-los faz parte das principais etapas do futebol brasileiro", empolgou-se, em entrevista ao Terra, o ex-atacante Pepe, campeão da Copa Roca com a Seleção Brasileira nos anos de 1957 e 1963.
"Lembro-me de um jogo em que perdemos por 3 a 2, mas foi compensador. Fiz os dois gols e um deles muito bonito. O goleiro Andrada fez a defesa, aí tirou sarro, quicou a bola; batia ela no chão. Ele a levou até a entrada da área e tentou lançar um ponteiro. Só que a bola veio na minha direção e eu chutei de primeira, de cobertura. Foi um golaço", disse, referindo-se ao confronto pela Copa Roca na edição de 1963, no Morumbi.
Nesta quarta, as duas seleções se encaram a partir das 21h50 (de Brasília), no Estádio Mario Kempes, em Córdoba, e voltam a se encontrar no dia 28 de setembro, no Mangueirão, em Belém. No currículo, oito títulos para os brasileiros e quatro para os argentinos, já que o troféu de 1971 foi dividido entre os países. "Que os nossos atletas consigam superar o bom toque de bola da Argentina, o que é sempre muito difícil", aconselhou Pepe.
Confira abaixo as principais curiosidades sobre a Copa Roca:
O 1º argentino "bacana"
Um argentino "bacana" roubou a cena na primeira Copa Roca da história e deu ao time brasileiro o inédito troféu do torneio. O nome dele era Leonardi, atacante, e marcou o gol de empate da equipe local - a partida acontecia no estádio do Gimnasya y Esgrima, em Buenos Aires - em confronto até então eletrizante. Até aí, tudo normal. O que aconteceria na sequência é que foi inusitado até demais.
Em atitude totalmente inesperada, o argentino avisou ao árbitro Alberto Borghetti que ajeitou a bola com a mão antes do chute e, diante disso, obrigou o mesmo a invalidar o gol. Com isso, o Brasil conseguiu deixar o páis vizinho com o primeiro título de Copa Roca, já que venceu a partida por 1 a 0, graças, principalmente, a honestidade excessiva de um probo rival.
Campeão improvisado
No mesmo dia em que disputava a final do Sul-Americano contra o Paraguai, nas Laranjeiras, no Rio de Janeiro, o Brasil teria pela frente a decisão da segunda Copa Roca contra a Argentina, no Parque Antártica, em São Paulo. Foi então que a Seleção viu-se obrigada a preparar para o duelo com os argentinos uma equipe às pressas, sem qualquer critério de escolha.
Apesar do contratempo, o time titular derrotou o Paraguai por 3 a 0, enquanto a Seleção de improviso bateu os argentinos por 2 a 1, dando ao Brasil dois títulos no dia 22 de outubro de 1922. Neste embate, aliás, ocorreria a primeira substituição da história da Seleção: Leite de Castro, do Botafogo, sofreu concussão cerebral e acabou dando lugar ao atacante Brasileiro, do Minas Gerais.
O árbitro violento
A Copa Roca de 1939 foi uma das mais tumultuadas de todos os tempos. Primeiro, a Seleção Brasileira sofreu a primeira derrota em casa depois de 25 anos de existência, ao ser humilhada pela Argentina por 5 a 1 no Rio de Janeiro. O Brasil venceu o jogo de volta por 3 a 2 e obrigou a realização de uma terceira partida, que marcaria a primeira pancadaria da história da competição.
Em São Paulo, um grupo de argentinos revoltou-se com o árbitro José Ferreira Lemos, que marcou pênalti polêmico, e o cercou com insultos e empurrões. O árbitro não pensou duas vezes: desferiu um soco no nariz de Salomón, zagueiro, entre os mais exaltados na confusão, que apagou por mais de 10 minutos com o golpe. Lemos sequer foi punido e Salomón ainda conseguiu retornar ao jogo, mas jamais foi o mesmo "falastrão" de antes.
O 2º argentino "bacana"
Foi pela Copa Roca de 1940 que surgiu o segundo argentino "bacana" do torneio. Arico Suarez, capitão da seleção alviceleste, mostrou pela mais uma vez que o Fair Play existia antigamente nos clássicos sul-americanos. O árbitro Bartolomé Macías marcou pênalti equivocado de Zezé Moreira, que teria apenas resvalado com a mão na bola - a torcida local apoiou a reclamação dos brasileiros e o jogo era em Buenos Aires.
O capitão argentino posicionou-se e, antes da cobrança de Moreno, chamou o conterrâneo, tomou a frente no lance, correu para a bola e isolou-a pela linha de fundo, sendo aplaudido de pé pelo público presente e também pelos atletas brasileiros. O gesto de coragem, entretanto, não impediu a goleada impiedosa da Argentina, que massacrou o Brasil por 5 a 1. A partida inicial da Copa Roca já havia sido 6 a 1 para eles.
A estreia de Pelé
A primeira partida de Pelé pela Seleção Brasileira foi em uma Copa Roca, em 1957. Na ocasião, o então menino entrou em campo na derrota por 2 a 1, no Maracanã, quando tinha apenas 16 anos, oito meses e quatro dias de vida. Apesar do revés, foi dele o gol de honra do time brasileiro. Ele brilhou de novo no duelo de volta diante dos rivais e marcou na vitória por 2 a 0, que rendeu-lhe o primeiro título com a camisa verde e amarela.
Primeiro título pós-Pelé foi dividido
A Copa Roca também representou um marco, já que foi nela que a Seleção celebrou o primeiro título pós-Pelé. Entretanto, é uma conquista curiosa. Depois de empates por 1 a 1 e por 2 a 2, ambos em Buenos Aires, o troféu acabou dividido entre os dois países, fazendo com que a primeira conquista da Seleção depois da "era Pelé" fosse dividida com a Argentina e em um torneio que apenas dois times disputavam. Fácil, não?
Confira todas as partidas e os campeões da Copa Roca:
1914: Argentina 0 x 1 Brasil, Buenos Aires, 27/09/1914 - Brasil campeão
1922: Brasil 2 x 1 Argentina, São Paulo, 22/10/1922 - Brasil campeão
1923: Argentina 2 x 0 Brasil, Buenos Aires, 09/12/1923 - Argentina campeã
1939: Brasil 5 x 1 Argentina, Rio de Janeiro, 15/01/1939
Brasil 2 x 3 Argentina, Rio de Janeiro, 22/01/1939
Brasil 2 x 2 Argentina, São Paulo, 18/02/1940
Brasil 0 x 3 Argentina, São Paulo, 25/02/1940 - Argentina campeã
1940: Argentina 6 x 1 Brasil, Buenos Aires, 05/03/1940
Argentina 2 x 3 Brasil, Buenos Aires, 10/03/1940
Argentina 5 x 1 Brasil, Buenos Aires, 17/03/1940 - Argentina campeã
1945: Brasil 3 x 4 Argentina, São Paulo, 16/12/1945
Brasil 6 x 2 Argentina, Rio de Janeiro, 20/12/1945
Brasil 3 x 1 Argentina, Rio de Janeiro, 23/12/1945 - Brasil campeão
1957: Brasil 1 x 2 Argentina, Rio de Janeiro, 07/07/1957
Brasil 2 x 0 Argentina, São Paulo, 10/07/1957 - Brasil campeão
1960: Argentina 4 x 2 Brasil, Buenos Aires, 26/05/1960
Argentina 1 x 4 Brasil, Buenos Aires, 29/05/1960 - Brasil campeão
1963: Brasil 2 x 3 Argentina, São Paulo, 13/04/1963
Brasil 5 x 2 Argentina, Rio de Janeiro, 16/04/1963 - Brasil campeão
1971: Argentina 1 x 1 Brasil, Buenos Aires, 28/07/1971
Argentina 2 x 2 Brasil, Buenos Aires, 31/07/1971 - Brasil e Argentina campeões
1976: Argentina 1 x 2 Brasil, Buenos Aires, 27/02/1976
Brasil 2 x 0 Argentina, Rio de Janeiro, 19/05/1976 - Brasil campeão