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Presidente do Fluminense coloca dinheiro das bets acima das famílias

Mattheus Montenegro protagoniza uma das declarações mais insensíveis da audiência no STF

3 nov 2026 - 17h32
(atualizado às 17h33)
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Resumo
Em audiência no STF, o presidente do Fluminense, Mattheus Montenegro, gerou forte constrangimento ao afirmar que o drama de famílias endividadas por apostas não supera o risco de desemprego gerado pela perda de receitas nos clubes. A declaração foi criticada por priorizar contratos comerciais e expor a dependência financeira do futebol em relação às "bets", relativizando os graves impactos sociais do jogo em detrimento de uma defesa corporativa desprovida de sensibilidade social.

O presidente do Fluminense, Mattheus Montenegro, conseguiu transformar a defesa dos interesses comerciais do clube em um constrangimento público. Nesta terça-feira (3), durante audiência no Supremo Tribunal Federal (STF), o dirigente comparou o endividamento de famílias provocado pelas apostas ao risco de desemprego no futebol.

Fotomontagem: Vinicius Teixeira/ Agência RTI Esporte
Fotomontagem: Vinicius Teixeira/ Agência RTI Esporte
Foto: Fotomontagem: Vinicius Teixeira/ Agência RTI Esporte / RTI Esporte

E ainda estabeleceu qual drama, na sua avaliação, não poderia ser maior.

"O drama de uma família endividada não pode ser maior do que o drama de uma família que vai ter que sofrer os efeitos do desemprego, que é o que vai acontecer".

A frase é de uma insensibilidade assustadora. Mattheus Montenegro parece ter esquecido que, por trás dos números das casas de apostas, existem pessoas que perderam salários, comprometeram o orçamento doméstico e arrastaram suas famílias para dívidas.

Gente de verdade, não linhas de uma demonstração financeira.

O presidente do Fluminense resolveu colocar essas pessoas em uma espécie de competição de sofrimento. De um lado, famílias endividadas pelo jogo. Do outro, trabalhadores que podem perder seus empregos com a redução das receitas dos clubes. Como se fosse necessário escolher quem tem mais direito à preocupação pública.

Ninguém minimiza a gravidade do desemprego. Trabalhadores do futebol merecem proteção, estabilidade e respeito. Mas usar essa realidade para relativizar o drama de quem sofre as consequências das apostas é uma forma particularmente conveniente de defender interesses comerciais.

Afinal, onde estava essa preocupação toda quando os clubes transformaram as casas de apostas em protagonistas de seus uniformes, campanhas publicitárias e planejamentos financeiros?

Durante anos, o dinheiro foi bem-vindo.

A dependência cresceu, os contratos engordaram e poucos dirigentes demonstraram o mesmo entusiasmo para discutir os riscos sociais desse modelo.

Agora, quando a torneira ameaça fechar, a preocupação com os empregos aparece como argumento central. É uma inversão de prioridades: em vez de discutir como o futebol pode sobreviver sem depender tanto das bets, tenta-se convencer a sociedade de que restringir esse mercado representa uma ameaça maior do que os danos que ele próprio pode produzir.

O futebol virou refém do próprio dinheiro

Mattheus Montenegro poderia defender um período de transição, cobrar segurança jurídica e apresentar alternativas para preservar empregos. Seria uma argumentação legítima. Mas preferiu recorrer a uma comparação que expõe o quanto a defesa das receitas pode atropelar qualquer sensibilidade social.

O Fluminense não é uma casa de apostas. É uma instituição esportiva centenária, com milhões de torcedores e uma responsabilidade que deveria ultrapassar os interesses de seus contratos comerciais.

O mais perturbador não é o presidente defender o dinheiro que entra no clube. É a naturalidade com que coloca esse dinheiro na mesma discussão que o sofrimento de famílias endividadas e ainda parece considerar que a sociedade deveria compreender sua prioridade.

O futebol quer preservar seus patrocinadores. As famílias querem preservar suas vidas financeiras. A diferença é que as primeiras têm dirigentes com microfone no STF. As outras viraram argumento em uma audiência sobre o dinheiro que os clubes não querem perder.

(*) Wilson Pimentel é jornalista, radialista, empresário e sócio-fundador da Agência RTI Esporte.

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