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Filho incorpora Galeão Cumbica para seguir Corinthians pela América

10 abr 2012 - 08h00
(atualizado às 09h35)
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O ator Ronny Cócegas recebeu uma ajuda inesperada quando adoeceu, em 1999, em decorrência de alcoolismo. Com medo de que o seu caso fosse explorado de forma negativa pela imprensa, o famoso intérprete dos personagens Galeão Cumbica e Lindeza (que consagrou o bordão "calma, Cocada!") foi conduzido por membros da comissão de harmonia da Gaviões da Fiel para um discreto hospital de Guarulhos meses antes de falecer. O apoio dos corintianos não foi sem motivo.

Enquanto vigas, estruturas com concreto e fundações são instaladas nas obras do Itaquerão, estádio do Corinthians que receberá a abertura da Copa do Mundo de 2014, outra tarefa que exige mais sensibilidade é realizada simultaneamente. Com a mesma perícia que o resto dos operários, o ajudante de produção Pedro Procópio de Araújo Neto usa seu tempo livre para espalhar arte pelo canteiro de obras da futura arena alvinegra
Enquanto vigas, estruturas com concreto e fundações são instaladas nas obras do Itaquerão, estádio do Corinthians que receberá a abertura da Copa do Mundo de 2014, outra tarefa que exige mais sensibilidade é realizada simultaneamente. Com a mesma perícia que o resto dos operários, o ajudante de produção Pedro Procópio de Araújo Neto usa seu tempo livre para espalhar arte pelo canteiro de obras da futura arena alvinegra
Foto: Ricardo Matsukawa / Terra

Rogerson Lessa Moreira, filho de Ronny Cócegas, já frequentava a quadra da principal torcida organizada do Corinthians desde a adolescência. Chamado de Cocadinha ou de Galeão pelos integrantes de quem era mais íntimo (apesar de Roger, como o conheciam, não gostar de se propagar como herdeiro do artista), ele sabia que não teria um pedido de auxílio negado quando o estado de saúde de seu pai famoso piorou.

Afinal, estava acostumado a se inspirar no engraçado personagem Galeão Cumbica, um aviador, para seguir o Corinthians com a uniformizada em aeronaves para onde quer que fosse. Pretende recorrer, por exemplo, à agência de viagens oficial do clube para comprar passagens aéreas e assistir às partidas da fase de mata-mata da Copa Libertadores da América.

"Meu pai tinha esse problema com a bebida. Não adianta esconder. Eu, não. Só tomo refrigerante. Meu único vício é o Corinthians. Sigo o time para onde for", avisa um sorridente Roger, ao receber a equipe de reportagem em sua residência, no bairro do Ipiranga, em São Paulo.

Na mesa da sala, fotografias já amareladas de Ronny Cócegas se misturam a imagens do filho corintiano em arquibancadas e a uma coleção com centenas de ingressos, uniformes, revistas, recortes de jornais e pôsteres que remetem ao Corinthians. "Por incrível que pareça, quem deu início a esse amor foi o meu pai. Ele torcia pelo Botafogo, mas era baiano e gostava do Galícia Esporte Clube em Salvador. Em São Paulo, preferia o Corinthians."

Na infância, Roger ficou deslumbrado na primeira vez em que viu o pai demonstrar afeição por futebol. Ronny Cócegas decorou seu Ford Galaxie Landau, na companhia de alguns empresários de circo, com uma bandeira do Corinthians, com mastro fabricado com tubo de PVC preto, e outra do Botafogo, com madeira grossa.

O filho preferiu agitar a primeira pela janela. E não largou mais. "Virou algo até contagiante. Quando eu ia para o Rio de Janeiro visitar o meu pai, ele me levava aos jogos contra o Botafogo no Caio Martins. Dizia que torceria pelo Corinthians, mas só para me agradar", recorda. No aparelho de som do automóvel, a música que tocava no caminho para o estádio era o hino do Botafogo. "Olhe só, que coisa mais linda!", empolgava-se o ator, sem conseguir convencer Roger.

Com o passar do tempo, Ronny Cócegas começou a se orgulhar - e a tirar proveito - do amor do filho pelo Corinthians. "Como eu só andava com camisa, agasalho, pijama, mochila e tudo o mais do Corinthians, ele mentia e dizia para os outros que eu era um jogador de futebol", lembra Roger.

Certa vez, o pai o intimou a trazer um uniforme oficial corintiano para uma agência bancária no Rio de Janeiro. O filho acatou a ordem, mesmo sem entender o motivo. Quando chegou ao local, foi apresentado ao gerente do banco: "Aqui está o meu filho, que joga no Corinthians e está dando essa camisa oficial para você". O humorista, satisfeito, ouviu uma reprimenda ao sair: "Pô, pai, você é sacana. É por essas coisas que passa um monte de cheque sem fundo e sempre tem crédito na praça. Ao invés de cobrar a dívida, o cara te chama para tomar um café no banco!".

Não era apenas o café da agência bancária que Ronny Cócegas bebia de graça. "Em todos os lugares que a gente ia, ele virava o centro das atenções, contando piadas, e não pagava nada. Isso acontecia em bares, pizzarias, churrascarias...", diz Roger.

O humorista aproveitava essas ocasiões para argumentar que jamais conseguiria deixar de ingerir álcool. "Vou te provar que é impossível parar de beber", disse, durante um passeio com o filho pela orla da praia de Copacabana. Bastaram alguns passos para os dois serem interrompidos por um vendedor de batidas: "Ronny! Vem cá e toma um negocinho!". A insistência foi tamanha que o convite se tornou irrecusável. A cena se repetiu até o final da tarde, quando pai e filho foram à casa de outro ator, amigo do humorista. "Como o Roger está grande!", comentou o anfitrião, antes de abrir um armário repleto de garrafas importadas de uísque (bebida favorita de Ronny). "Está vendo? Como vou parar de beber? É f...!", o artista concluiu.

Aquela rotina em Copacabana era prazerosa para Ronny Cócegas desde os seus primeiros dias de sucesso no Rio de Janeiro. De tanto frequentar o tradicional bar de samba Bip Bip, ele havia decidido se tornar sócio do estabelecimento. "Fazia sentido: meu irmão e eu praticamente nascemos dentro do Bip Bip. Mas achei estranho porque, algum tempo depois de fazer negócio, meu pai parou de ir àquele bar", rememora Roger.

O filho, então, perguntou: "E o Bip Bip? O que aconteceu?". Sem jeito, o pai respondeu: "Perdi a sociedade. Bebi toda a minha parte". Anos depois, a confissão ainda provoca um riso incrédulo: "Ele conseguiu beber mais do que havia pagado para ser sócio! Meu Deus do céu... Meu pai fazia umas coisas de louco".

O carismático Ronilson Nogueira Moreira já era conhecido por suas loucuras na época em que morava em Salvador, onde ganhou o apelido de Ronny Cócegas e tocava bateria nas bandas de Raul Seixas e Pepeu Gomes. O único artista de uma família humilde, repleta de irmãos diplomados (todos com nomes iniciados com a letra erre, assim como ele: Roberval, Romélia, Rosalvo, Rovan, Rogerson, Robinson, Roberto...), sempre chamou a atenção pela sua desinibição. "Seu pai era f...!", escutou Roger, em uma passagem pela Bahia.

"Está vendo essa rua aqui? O pessoal asfaltou e construiu um palco nela. Sabe o que o seu pai fez? Subiu em cima, abaixou as calças e defecou. Só para gritar depois: "Eu estreei a rua!", continuou a narrar o amigo de juventude de Ronny, lembrando que o humorista também se divertia com o hábito de deixar chicletes e tachinhas nas cadeiras quando ia ao cinema.

Como muitos nordestinos, Ronny Cócegas levou a sua alegria do Nordeste para o Sudeste em busca de melhores oportunidades de emprego. As primeiras quem lhe deu foi a esposa, Dilermanda Lessa Pereira Moreira. "Quem realmente colocou o meu pai no meio artístico foi a minha mãe, que fazia teatro", conta Roger, o caçula do casal.

Não demorou muito para o novo humorista deslanchar nos palcos e estúdios paulistas e cariocas. Ronny estreou na TV Excelsior em 1967, fazendo imitações no programa de Raul Gil. Passou por atrações como "Show do Riso", "Chico City" e "Os Pankecas" antes de ganhar notoriedade como o Kuki do "Programa do Bozo", o Lindeza de "A Praça é Nossa" e o Galeão Cumbica da "Escolinha do Professor Raimundo".

Ainda trabalhou no cinema, principalmente em pornochanchadas - entre outros, estrelou (sem atuar nas cenas de sexo explícito) "Rabo I", filme de 1985 que exibe até zoofilia.

O estrelato, no entanto, acabou com o casamento de Ronny Cócegas. Dilermanda não conseguiu suportar o lado festeiro do ator com quem havia tido dois filhos (Robinson e Rogerson, o Roger). Separou-se e ficou enojada do meio artístico. "Ela não deixou a gente seguir a carreira do meu pai. Fui chamado para fazer papel de trombadinha em um jornal policial, e ela proibiu. Meu irmão poderia ter participado de uma novela, e ela não quis. Costumava dizer que essa vida era muito suja, que você acabava virando alcoolatra, putanheiro, viciado em drogas ou veado. Era até um pouco radical. Ainda tentei fazer teatro para desenvolver a minha fala, mas ela impediu e arrependeu-se mais tarde", lembra Roger.

Os filhos continuaram bastante ligados a Ronny Cócegas após a separação. Quando iam aos estúdios para visitá-lo e cobrar o pagamento da pensão, eram chamados de forma bem-humorada de "Dia do Pagamento" e "Vale". "Como você tem filhos tão bonitos, sendo tão feio?", perguntavam os colegas de trabalho, aproveitando para tirar sarro do ator. "Ué, a gente não faz filhos com a cara", ele respondia de imediato. "Meu pai não perdoava. E, graças a Deus, éramos filhos da primeira mulher dele. Ele dizia que poderia ter mais alguns por aí, mas nenhum era registrado além de nós", observa Roger, rindo.

Em determinada época da juventude, Robinson (mais um filho corintiano de Ronny Cócegas) passou a se encontrar com o pai com mais frequência. Todas as segundas-feiras, por volta de 17h30, ele impressionava a namorada ao levá-la para os antigos estúdios do SBT na Vila Guilherme, para assistir às gravações de "A Praça é Nossa". "Seu irmão é fogo! Sempre vem me ver com uma mulher!", queixava-se o pai para o segundo filho, de quem acabou se aproximando mais com o decorrer dos anos. "E eu que pensava que o meu irmão era bobo."

Apesar de a mãe reprovar, Roger inevitavelmente seguiu exemplos do pai e apareceu em programas de televisão - por causa de sua paixão pelo Corinthians. Representou a torcida algumas vezes em plateias do programa Mesa Redonda, da TV Gazeta, e foi destaque nos noticiários também por confusões - parecidas com as que mataram dois palmeirenses no último clássico paulista.

"Quando o Neto, meu maior ídolo, fez aquele gol de bicicleta contra o Guarani, levei muita porrada da torcida do Palmeiras. Houve um jogo no Parque Antártica no mesmo dia, e as torcidas acabaram se cruzando no metrô. Desci na estação Santa Cruz, onde havia um monte de palmeirenses à paisana. Eu estava com um agasalho da Gaviões. Um moleque já se meteu na minha frente, falando: 'É a Mancha!'. Eu também era folgado: não quis dar meu casaco para eles e tomei um monte de murros. Vieram para cima de mim e me arrebentaram. Enxerguei tudo amarelo. Um cara ao meu lado ainda tomou uma facada", relata o corintiano, que quase perdeu o emprego em uma empresa metalúrgica por trabalhar com o olho inchado, todo besuntado de pomada, no dia seguinte.

As confusões não passavam despercebidas pela mãe. Ela recortava jornais que mostravam o filho em arquibancadas ou no meio de brigas (ainda que ele estivesse quase imperceptível nas fotos). "A pior vez foi contra o Santos. A torcida estava passando pela Avenida Paulista, quando uma punk mostrou o dedo do meio. Deu o maior tumulto. Chamaram a Rota, que levou 73 pessoas presas. Chegando à delegacia, na Aclimação, os policiais bateram em um por um. E eu ainda tinha esquecido o documento... Por sorte, tirei a camisa da Gaviões no caminho. Acabei sendo liberado sem assinar nada, mas foi uma humilhação danada", diz.

A surra não se resumiu à delegacia. Ao voltar para casa, Roger foi surpreendido por Dilermanda: "Onde você estava?". "Lá no Paulinho, o Berruga", ele se defendeu. "Seu mentiroso! Eu te vi na televisão", desmascarou a mãe, antes de dar bofetadas, para o divertimento provocativo do irmão Robinson.

Enquanto Dilermanda recriminava o envolvimento do filho (que até fugiu de tiros ao apoiar o Corinthians contra o Vasco, em São Januário) com torcidas organizadas, Ronny Cócegas se divertia com aquela sucessão de incidentes. "Esse é p... louca igual ao pai!", vibrava o ator, que ficou decidido a trazer Roger para a sua casa no Rio de Janeiro. E ele sabia exatamente o que usar para atrair o garoto: o futebol.

Já na infância do filho, Ronny havia tentado convencê-lo a se mudar de São Paulo por meio de um artifício esportivo. Amigo de Renato Gaúcho, com quem se encontrava nas areias de Copacabana, ele avisou Roger: "Arrumei um esquema bom para você. Vai virar jogador do meu time, o Botafogo. O Renato Gaúcho está por lá e já deixou tudo acertado. Mas, para dar certo, você tem que vir morar comigo". O menino ficou desconfiado. A mãe, nervosa: "Seu pai é um filho da p...! Ele quer te levar embora! Não existe esquema de Botafogo nenhum!".

Roger cresceu fiel às visitas ao pai no Rio de Janeiro, onde podia acompanhar o Corinthians sem se preocupar com os cuidados excessivos da mãe (e ainda conhecia artistas e jogadores, como o ex-lateral e hoje comentarista Júnior), porém desistiu do sonho de ser profissional de futebol. Preferiu se dedicar como torcedor e ritmista da Gaviões da Fiel - chegou a sugerir que a escola de samba da uniformizada homenageasse também Galeão Cumbica em um eventual enredo sobre Santos Dumont.

"Aprendi a tocar os instrumentos na quadra da torcida, assim como tudo na vida", sorri o corintiano, enquanto demonstra habilidade com o batuque em sua casa. A esposa Daniela recrimina essa declaração com um olhar enfezado. "Vou mentir?", ele retruca.

Perto de completar 40 anos, contudo, Roger já está longe de ser um torcedor organizado briguento, como nos tempos de juventude. "Para falar a verdade, eu gostava um pouco daquelas confusões", admite, com um ar saudosista. Hoje, atuando há 18 anos como bancário na Avenida Paulista (iniciou a carreira ali como office boy), ele já veste mais roupas sociais do que uniformes do Corinthians.

Também passou a ter menos cabelo - como ocorreu em menor escala com Ronny Cócegas, por causa do excesso de laquê utilizado para dar vida a Galeão Cumbica - e mais barriga. "Ele está ficando a cara do pai!", constata a esposa Daniela.

Roger e Daniela têm dois filhos: Cauã (o nome foi especialmente escolhido porque significa "gavião", na tradução do tupi-guarani para o português), de 5 anos, e Amanda, de 3. Para se dedicar a eles, o pai tenta conter o seu fanatismo pelo Corinthians: permanece distante das quadras de torcidas organizadas, embora presente na maioria dos jogos do time do coração. Nas arquibancadas, ainda é comum alguém cumprimentá-lo como "Cocadinha" ou "Galeão".

"Meu pai morreu em 1999, mas parece que continua vivo. As pessoas se lembram dele em todos os lugares aonde vou. Era um cara muito carismático. Só o vi triste quando meu avô faleceu. Ele costumava me dizer que, como os palhaços, sorria bastante por fora, mas podia ter seus grandes sofrimentos por dentro", comenta Roger, que levará consigo o espírito alegre do pai para torcer pelo Corinthians em suas futuras viagens pela América.

É realmente difícil imaginar aquele botafoguense, que guardava consigo imagens de Garrincha (mais uma vítima do alcoolismo), deprimido. Até em seu leito de morte no Hospital São Camilo, Ronny Cócegas teria manifestado a alegria contagiante que o caracterizou. Contam os médicos que o ator, segundos antes de falecer aos 59 anos, interpretou Galeão Cumbica pela última vez ao pronunciar o inesquecível bordão: "Au, au!".

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