Fernando Baiano: decisivo em menos de 10 minutos

O Corinthians foi endeusado na noite de 14 de janeiro de 2000. Cerca de 20.000 dos seus fiéis fizeram uma romaria ao Rio de Janeiro para presenciar a glorificação. Divididos em 300 ônibus e em outras centenas de carros e motocicletas, a maioria começou a deixar São Paulo às 23 horas do dia anterior. Uniram-se nas arquibancadas do Maracanã ao som de uma reza, entoada com coreografia de louvação: "Ô, o, ô... O Todo-poderoso Timão".
O mantra foi criado pela torcida do Corinthians especialmente para aquela final do primeiro Mundial de Clubes organizado pela Fifa, contra o Vasco. E o adjetivo não era sem motivo. Bicampeão brasileiro em 1998/1999, os comandados por Oswaldo de Oliveira formavam um verdadeiro Timão na época: Dida; Índio, Fábio Luciano, João Carlos (Adílson) e Kleber; Rincón, Vampeta, Marcelinho Carioca e Ricardinho; Edílson e Luizão. Restava apenas a internacionalização do clube.
O convite para representar o país-sede do Mundial de Clubes de 2000 (na condição de campeão nacional de 1998), portanto, foi muito bem recebido no Parque São Jorge. Apesar do desgaste. Após disputar mais de 80 partidas na temporada anterior, a equipe ganhou uma folga curta para aproveitar o Reveillón e já voltou a treinar às vésperas da abertura do torneio, em 5 de janeiro - o atacante Luizão, por exemplo, precisou recorrer a um avião teco-teco para retornar do Guarujá a tempo de se reapresentar.

Diferentemente da Copa Intercontinental (que definia um vencedor através de jogo único entre os campeões da Copa Libertadores da América e da Copa dos Campeões, sempre no Japão), o primeiro Mundial de Clubes da Fifa foi disputado por times de todo o planeta. Juntaram-se ao Corinthians: Al Nassr, Manchester United, Necaxa, Raja Casablanca, Real Madrid, Vasco e South Melbourne - o Palmeiras reivindicou o direito de participar da competição, pois conquistou a Libertadores de 1999, mas não foi atendido.
A inclusão de uma equipe carioca, sob a justificativa do título sul-americano de 1998, ajudou a Fifa a separar os clubes participantes em sedes em São Paulo (Morumbi) e Rio de Janeiro (Maracanã). Corinthians e Real Madrid figuravam como favoritos no grupo A, enquanto Vasco e Manchester United foram credenciados a disputar o título no B - o melhor de cada chave avançava à decisão. Al Nassr e Necaxa eram apontados como zebras em potencial.
O Corinthians usou um uniforme redesenhado, com o distintivo no centro da camisa, já na estreia contra o desconhecido Raja Casablanca. Cerca de 23.000 torcedores foram ao Morumbi - metade deles estava no estádio quando o Real Madrid fez 3 a 1 no Al Nassr na preliminar. A suposta fragilidade da equipe do Marrocos não tornou o jogo fácil. Gols, só no segundo tempo. Aos 5 minutos, Luizão escorou um cruzamento preciso de Marcelinho Carioca e abriu o placar. Quem sacramentou a vitória por 2 a 0 foi o estreante Fábio Luciano - que ganhou uma vaga entre os titulares um dia antes, porque o veterano Adílson ainda se recuperava de lesão. O zagueiro aproveitou cobrança de falta de Ricardinho para cabecear. Chutou no travessão depois do rebote do goleiro Chadili. A bola quicou no gramado, mas não entrou - ao contrário do que viu o árbitro italiano Stefano Braschi.
A segunda rodada reservava o confronto mais aguardado pelos corintianos. O adversário era o Real Madrid, que se concentrou no mesmo hotel do Corinthians. Na luxuosa reclusão nos arredores da Avenida Paulista, o irreverente Edílson não poupou provocações ao francês Christian Karembeu e ao compatriota Roberto Carlos: disse que jogaria a bola entre as pernas do primeiro e prometeu "colocar no bolso" o segundo. O lateral esquerdo da seleção brasileira, hoje jogador do Corinthians, não deixou por menos e convocou a torcida do Palmeiras a incentivar a equipe espanhola.

Seria impossível, porém, competir com a devoção dos corintianos naquele dia 7 de janeiro. O Morumbi recebeu 55.000 pessoas, sua capacidade máxima no Mundial. Em um final de tarde chuvoso, o atacante Anelka anotou o primeiro gol do jogo aos 19 minutos do primeiro tempo, desviando uma falta batida por Roberto Carlos. Edílson recebeu assistência de Luizão e igualou 10 minutos depois. Na etapa complementar, o Capetinha cumpriu a sua promessa: passou por Roberto Carlos, enfiou a bola por baixo das pernas de Karembeu e chutou forte para virar o placar. Mas Anelka dividiu as atenções com o corintiano. O francês marcou um belo gol, driblando Dida, e parou na defesa do goleiro brasileiro em cobrança de pênalti.
Três dias depois, os corintianos chegaram mais cedo ao Morumbi. O objetivo era torcer por uma equipe vestida de verde, o Raja Casablanca, adversário do Real Madrid na última rodada da fase classificatória. Surpreendentemente, os marroquinos perderam ''apenas'' por 3 a 2 (Guti e Karembeu foram expulsos) e ajudariam o Corinthians a chegar à decisão através do saldo de gols (4 a 3).
Faltava ainda vencer o Al Nassr, que superava as adversidades físicas para fazer uma campanha razoável no grupo A. Se o Corinthians estava cansado com a numerosa sequência de jogos desde 1999, os árabes acabaram afetados pela falta de alimentação. O Mundial foi disputado durante o feriado islâmico do Ramadã, e os jogadores do Al Nassr só podiam se alimentar após o sol se pôr - deliciavam-se, então, com refrigerante de guaraná e bolachas de coco. Dentro de campo, mais uma vez não houve chocolate. O Corinthians enfrentou dificuldades para ganhar por 2 a 0, com gols de Ricardinho no primeiro tempo e de Rincón no segundo, e fez o suficiente para garantir a primeira colocação da chave.
No grupo B, o Vasco não tropeçou uma vez sequer. O time carioca contava com um elenco repleto de astros, como Romário, Edmundo, Juninho Pernambucano, Felipe, Ramón, Viola e Donizete. A força vascaína foi comprovada no dia 8 de janeiro, com uma convincente vitória por 3 a 1 sobre o Manchester United (dois gols de Romário e um de Edmundo). Foi o fim da torcida organizada Fla-Manchester, criada pelos flamenguistas para agourar o rival. A partir de então, David Beckham e os seus compatriotas tiraram as feições emburradas dos rostos (a pedido do Consulado Britânico) e começaram a enaltecer o Brasil e o seu povo enquanto se bronzeavam nas areias do Rio de Janeiro.

Outros turistas estavam a caminho da Cidade Maravilhosa. Os torcedores do Corinthians chegaram animados para assistir à decisão do Mundial. Muitos cantaram "Nós vamos invadir sua praia", música do Ultraje a Rigor, em Copacabana - fazendo lembrar a famosa invasão corintiana ao Rio nas semifinais do Campeonato Brasileiro de 1976, contra o Fluminense. Nem mesmo o ensaio de uma escola de samba tirou a paz do time paulista durante a madrugada, em um hotel de São Conrado.
Eurico Miranda, então presidente do Vasco, não se abalava com a confiança dos adversários: "O Corinthians é freguês do Vasco. Vai ser moleza". O folclórico dirigente já havia protagonizado uma polêmica na vitória de sua equipe sobre o Necaxa, por 2 a 1. Quando soube que o seu filho Mário brigara com seguranças nos vestiários do Maracanã, invadiu um setor de entrada proibida pela organização do evento. "Foda-se a Fifa! Sou eu que mando!", esbravejou Eurico.
O clima de decisão persistiu até a final brasileira. Nas arquibancadas do Maracanã, um policial militar com a camisa da torcida organizada Força Jovem por baixo da farda distribuiu agressões aos torcedores corintianos. Uma bandeira da palmeirense Mancha Verde tremulou entre os vascaínos. Jogadores de Real Madrid e Manchester United também se uniram ao público carioca, enquanto os mexicanos do Necaxa ficaram divididos - o representante da América do Norte acabara de conquistar o terceiro lugar, ao vencer o Real nos pênaltis (4 a 3) após empate por 1 a 1 no tempo regulamentar.

Foi então que ecoou o coro de "Todo-poderoso Timão". Embalado pelo louvor incessante de sua torcida, o Corinthians realizou um jogo truncado com o Vasco, sem boas chances de gol para nenhum dos lados. O marcador seguiu inalterado na prorrogação. Mas não nos pênaltis, quando Rincón, Fernando Baiano, Luizão e Edu converteram para a equipe de Oswaldo de Oliveira - Marcelinho Carioca e Gilberto, do Vasco, desperdiçaram. A esperança dos cariocas ruiria às 22h42: o ex-palmeirense Edmundo chutou a bola para fora em sua cobrança e deu o primeiro título mundial ao Corinthians.
O grito para o Todo-poderoso Timão não cessou mais. Continuou a ressoar, com voz de choro, enquanto inúmeros torcedores se benziam e agradeciam aos céus no Maracanã - ao mesmo tempo, Oswaldo de Oliveira derramava lágrimas ao dar um abraço simbólico na torcida. Reverberou com mais intensidade ainda no momento em que o capitão Rincón ergueu o troféu de 47,5 cm e 4 kg, no valor de US$ 25 mil, produzido pelo estúdio italiano Sawaya & Maroni. E foi ouvido em São Paulo, onde outros devotos de São Jorge já cruzavam as ruas ajoelhados. Na Avenida ''Corinthians'' Paulista, havia até quem passeasse com violões e cachorros da raça pitbull para ironizar Viola, Romário e Edmundo.
A festa dos corintianos só terminou no dia seguinte, para saudar o desfile em um caminhão de bombeiros dos campeões mundiais. Quase 600 torcedores, no entanto, ainda estavam no Maracanã naquele instante. Por falta de condução, precisaram dormir no estádio que abrigará a final da Copa do Mundo de 2014. Só puderam festejar com comidas e bebidas porque receberam doações das torcidas de Flamengo e Fluminense.

Exatamente uma década depois, o mantra corintiano ainda repercute. A rede de lojas oficial do clube (com mais de 60 franquias espalhadas pelo Estado de São Paulo) se firmou no mercado com o nome "Poderoso Timão". Preparou, inclusive, uma série de produtos para homenagear os 10 anos da conquista corintiana.
A Gazeta Esportiva.Net também não se esqueceu da data. Nas duas primeiras semanas do ano em que o clube comemora seu centenário, seguindo a tabela do Mundial de 2000 até a decisão, foram publicadas entrevistas reveladoras com 12 membros daquele time todo-poderoso. Índio, Fábio Luciano, Kleber, Rincón, Vampeta, Marcelinho Carioca, Ricardinho, Edílson, Luizão, João Carlos, Edu e Fernando Baiano contaram os bastidores do maior Timão que o Corinthians já teve.