Corinthians volta à Vila Belmiro tentando reviver alegria de Tan-Tan
Se "ser corintiano é mergulhar no oceano da ilusão que afoga", o sentimento captado pela sensibilidade de Gilberto Gil já existia em 1931, quando torcedores abarrotaram oito trens de dez vagões rumo ao litoral para ver sua equipe ganhar o Campeonato Paulista. Foi a primeira de duas conquistas do time do povo na Vila Belmiro, palco de nova decisão no próximo domingo.
Os comandados de Tite buscarão no final de semana o que conseguiram as formações dirigidas por Virgílio Montarini e Armando Del Debbio ainda na primeira metade do século passado. Já donos de uma posição de destaque na centenária trajetória alvinegra, os campeões mundiais tentarão repetir algo alcançado por ídolos históricos como Tuffy, Grané, Filó, Brandão, Servílio e Teleco.
Mas "tentar explicar o fenômeno Corinthians por meio de sua galeria de craques (...) é de uma miopia assombrosa que flerta com a cegueira total", como explica o cronista Vitor Guedes, observador da alma preta e branca. Por isso, resumir o triunfo de 1931 ao futebol dos pontas Filó e De Maria é apagar a força de uma torcida que já mostrava seu talento para invasões.
Boa parte das cerca de 20 mil pessoas que foram à Vila em 4 de janeiro torcia pelo então bicampeão estadual. Depois que o tri foi assegurado com uma vitória por 5 a 2 sobre o Santos, a festa começou com a invasão do gramado e só terminou nas estações do Brás e da Luz. "Muitos voltaram em cima do trem", contou Francisco Piciocchi, o Tan-Tan, famoso torcedor da época.Em campo, ficou clara a superioridade do Corinthians. O ótimo Feitiço abriu o placar para os donos da casa, logo aos dois minutos, mas Gambinha e Filó viraram ainda no primeiro tempo. De Maria, Gambinha e Napoli sacramentaram a goleada, que teve ainda um gol do santista Victor no final.
Era a última rodada do campeonato de 1930, que acabou ficando para o comecinho de 1931. O clube que viria a ser conhecido como Timão chegou a disparar na liderança antes de dar aos seus torcedores o sofrimento que eles sempre apreciaram. Ficou para a última jornada, na qual bastava um empate. Aí, não teve sofrimento.
"É agora tricampeão, depois de ter vencido a memoravel batalha de Villa Belmiro, onde a turma local, exceção feita do jogo de artificio dos primeiros minutos do prelio, nada mais fez para luctar à altura do adversario", dizia "A Gazeta" publicada em 6 de janeiro. O jornal apontava ainda que, "quando um quadro vence como venceu domingo, o título não póde pertencer a outro".Havia um remorso por parte do próprio Santos e do Palestra Itália, que abriram mão de um jogo cada um por brigas políticas na Apea (Associação Paulista de Esportes Atléticos), organizadora da competição. Ganhando essas partidas, as equipes igualariam a pontuação do líder e forçariam um desempate.
"Venceu com todas as honras o Corinthians, porque não se recusou em enfrentar seus adversários, porque não desistiu de luctar com ninguem. Triumpha num campeonato o quadro mais constante, o que não sofre a influencia do ‘estouro’ dos seus jogadores e directores. A licção foi dada", afirmou artigo publicado em "A Gazeta".
Foi o último título daquele quadro, que seria desfeito com a debandada de jogadores para a Itália. Na tentativa de montar um supertime, em 1931, a Lazio levou Del Debbio, Filó, Rato e De Maria. As temporadas seguintes foram ruins, com uma clara dificuldade de adaptação ao profissionalismo, e o time do Parque São Jorge só voltou a ser campeão paulista em 1937, com Del Debbio e Filó de volta nas rodadas decisivas.Àquela altura, o centroavante já era Teleco, dono da maior média de gols da história do Corinthians. Com 255 bolas na rede em 248 jogos, o paranaense marcou 1,03 vez por partida e conquistou os três títulos do terceiro tri do clube, entre 1937 e 1939. Em 1941, estava na Vila Belmiro para fazer o que tentarão Emerson, Alexandre Pato e Paolo Guerrero no próximo domingo.
Foi no estádio santista que ele conquistou seu último título, um dos mais fáceis. Em uma campanha arrasadora, com um 7 a 0 sobre o próprio Santos, o esquadrão mosqueteiro foi campeão na antepenúltima rodada. Com o tropeço do Palestra Itália contra a Portuguesa, a vitória por 3 a 2 na Vila Belmiro definiu o dono da taça, que seria guardada pelo próprio Teleco. O centroavante foi o responsável pela sala dos troféus do Parque São Jorge entre 1967 e 1991.
No jogo do título, Armandinho colocou o Santos na frente. Mas fora com Teleco, na década de 1930, que o Corinthians havia começado a ser conhecido como o time da virada. E uma das grandes armas para as viradas eram outro tipo de virada, o giro rápido que o centroavante cansou de usar para superar a marcação e finalizar. "Eu era assim, chutava antes que os zagueiros e o goleiro tivessem tempo para pensar", comentou, na época em que já era o guardião das conquistas alvinegras.
Por isso, não houve pânico quando o primeiro tempo acabou com vantagem dos donos da casa. No início da etapa final, o centromédio Brandão -- outra figura importante na trajetória do clube, capitão por mais de dez anos -- empatou o jogo de cabeça. Na sequência, após chute de Teleco na trave, mais um gênio da história preta e branca, Servílio, virou. Coube a Teleco, de cabeça, com grande contribuição do goleiro Talladas, ampliar. Gradim ainda marcou de pênalti, encerrando-se aí a reação santista.Foram esses os dois títulos celebrados pelo Corinthians dentro da Vila Belmiro. No domingo, não será fácil, como na conquista antecipada de 1941, ou com grande número de torcedores, como em 1930. Mas os 700 fiéis que ocuparão o limitado espaço dos visitantes esperam deixar o estádio com a alegria exibida por Tan-Tan há mais de 80 anos.
O JOGO DO TÍTULO DE 1930
SANTOS 2 X 5 CORINTHIANS
Local: Vila Belmiro em Santos (SP)
Data: 4 de janeiro em 1931, à tarde
Árbitro: Victorino Silvestre
Gols:
Santos: Feitiço, aos dois minutos do primeiro tempo, e Victor, aos 35 minutos do segundo tempo
Corinthians: Gambinha, aos 20, e Filó, aos 27 minutos do primeiro tempo; De Maria, aos 14, Gambinha, aos 16, e Napoli, aos 27 minutos do segundo tempo
SANTOS: Athiê, Aristides e Meira; Oswaldo, Hugo e Alfredo; Omar, Camarão, Feitiço, Victor e Evangelista
Capitão: Feitiço
CORINTHIANS: Tuffy, Grané e Del Debbio; Leone, Guimarães e Munhoz; Filó, Napoli, Gambinha, Rato e De Maria
Técnico: Virgílio MontariniO JOGO DO TÍTULO DE 1941
SANTOS 2 x 3 CORINTHIANS
Local: Vila Belmiro, em Santos (SP)
Data: 28 de setembro de 1941, à tarde
Árbitro: Jorge de Lima
Gols:
Santos: Carabina, aos 20 minutos do primeiro tempo, e Gradim, aos 30 minutos do segundo tempo
Corinthians: Brandão, aos sete, Servílio, aos 20, e Teleco, aos 28 minutos do segundo tempo
SANTOS: Talladas, Neves e Gradim; Figueira, Elesbão e Inglês; Cláudio, Armandinho, Carabina, Antoninho e Rui
Técnico: Dario Letona
CORINTHIANS: Ciro, Agostinho e Chico Preto; Jango, Brandão e Dino; Tite, Servílio, Teleco, Joane e Carlinhos
Técnico: Armando Del Debbio