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Berço da lenda Gylmar, Jabaquara preferiu "Fortaleza Voadora" em 1951

Bicampeão do mundo na Seleção Brasileira, Gylmar dos Santos Neves é o maior orgulho da história do hoje modesto clube da quarta divisão paulista

1 set 2013 - 08h01
(atualizado às 20h37)
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Bandeira do Jabaquara foi colocada junto de Santos e Corinthians no velório de Gylmar
Bandeira do Jabaquara foi colocada junto de Santos e Corinthians no velório de Gylmar
Foto: Bruno Santos / Terra

Santos e Corinthians. Mas também Jabaquara.

Velado e enterrado para a tristeza de familiares, amigos e todo o mundo do futebol na última segunda-feira, Gylmar dos Santos Neves tinha em seu caixão as bandeiras dos três clubes que defendeu. Nos dois primeiros, a exemplo da Seleção Brasileira, ficou marcado pelos títulos e glórias. Mas, naquele em que foi formado, ele teve menos de seis meses como profissional. Ainda foi o goleiro mais vazado do Campeonato Paulista. E mesmo assim também marcou época.

Único campeão mundial com passagem pelo Jabaquara, Gylmar chegou em 1945 à antiga sede do clube no bairro da Ponta da Praia, em Santos, aos 15 anos. "Ele foi levado pelo Alcides, que era um irmão por parte de pai e tinha alguns conhecidos nesse clube", conta Marcelo Izar Neves, filho do ex-goleiro, ao Terra. Era o início de tudo.

Gylmar, o Girafa, era ponta esquerda

Gylmar, o goleiro ao centro, ainda nos juvenis do Jabaquara. Seu apelido era Girafa
Gylmar, o goleiro ao centro, ainda nos juvenis do Jabaquara. Seu apelido era Girafa
Foto: Acervo Pessoal / Sérgio Silveira / Divulgação

Naquela época, a distância entre Santos, Portuguesa Santista e o próprio Jabaquara era menor, então Gylmar optou por um lugar onde se sentiria mais seguro para realizar seu maior sonho. Ele havia tentado treinar no Santos, mas foi recusado. Até então, Gylmar sequer sabia do dom para atuar no gol, era um ponta esquerda. Mas o importante era estar no futebol. O Jabaquara permitiu.

Por três anos, ele jogou nos juvenis sob o comando do lendário Arnaldo de Oliveira. O Papa, como era chamado, ficou conhecido pela capacidade de descobrir talentos e lapidá-los. Assim foi com Gylmar, que virou goleiro. Desde cedo, dos bons, como conta seu Alcebíades De Oliveira Sobrinho. Na época, nos infantis, ele treinava uma categoria abaixo do "Girafa". Era o apelido de Gylmar, muito alto e magro. 

"Era um bom goleiro, uma promessa. Ele tinha um seis anos a mais que eu e impressionava. Era mesmo muito alto e tinha jogado em alguns clubes da várzea. O Papa era famoso em Santos, sempre entre os amadores. Era bravo, xingava, apertava e a molecada tinha muito medo dele", se diverte Alcebíades.

Depois de pouco mais de um ano entre os aspirantes, categoria acima dos juvenis, a primeira chance nos profissionais ocorreu graças à lesão do titular Mauro já na segunda rodada do Campeonato Paulista de 1950. "Ele era um senhor goleiro, negro e de muita categoria. Só saiu porque se machucou. Era conhecido como Fortaleza Voadora", conta Sérgio Silveira, historiador e ex-presidente do Jabaquara.

Gylmar era goleiro de um saco de pancadas. E gostava que fosse assim

A equipe do Jabaquara do Campeonato Paulista de 1950 tinha Gilmar no gol e ainda Ciciá, negociado com o Corinthians
A equipe do Jabaquara do Campeonato Paulista de 1950 tinha Gilmar no gol e ainda Ciciá, negociado com o Corinthians
Foto: Acervo Pessoal / Sérgio Silveira / Divulgação

A lesão de Mauro foi séria, então a oportunidade recaiu sobre os ombros de Gylmar. Tinha completado 20 anos havia poucos dias e recebeu uma batata-quente nas mãos. O Jabaquara vinha de duas derrotas com Mauro no gol e o então prodígio também não conseguiu mudar muito a situação. A estreia foi contra o São Paulo, campeão de 1949, no Pacaembu. Derrota por 5 a 1.

"Meu pai dizia sempre que era melhor começar no Jabaquara. Mesmo como o goleiro mais vazado, porque dessa maneira poderiam ver as qualidades dele. Seria mais acionado. Isso me marcou. Para ele, era melhor jogar num time mais fraco, com uma defesa pior", explica o filho Marcelo Izar. Em seus nove primeiros jogos, Gylmar teve uma vitória, um empate e sete derrotas. Terminaria o Paulista como o goleiro mais vazado. Mas ainda assim com mercado.

Atrás de reforços para 1951, o Corinthians desceu a Serra do Mar porque queria contratar o center half Ciciá, um dos poucos destaques do frágil time do Jabaquara. Ambas as diretorias eram formadas por espanhóis, então o diálogo era mais fácil. Com seu goleiro Mauro perto do retorno, a direção do clube santista conseguiu acrescentar Gylmar no negócio. Sua atuação mais marcante havia sido contra os próprios corintianos em Ulrico Mursa, a casa da Portuguesa Santista. Uma vitória por 3 a 2. 

"Tenho quase certeza que a direção do Jabaquara pensou mais ou menos assim, que a saída do Gylmar resolvia os problemas. Ele estava começando, era mais um e não se sabia até onde poderia chegar. Teve boas atuações, algum destaque, mas não foi aquele negócio de que seria o maior do mundo. O Mauro, se recuperando, voltaria ao gol. Como voltou de fato", explica Sérgio Silveira. Ciciá, o craque do time, não foi tão longe no Corinthians. Já Gylmar...

O eterno carinho e as homenagens pelo Jabaquara

O gol corintiano demorou a ser uma realidade para Gylmar, que chegou ao Parque São Jorge em 1951 e à Seleção Brasileira dois anos depois. Poderia ter ido à Copa do Mundo de 1954, mas se lesionou. Cabeção, seu companheiro de Corinthians, acabou chamado. Só em 58, titular na primeira Copa vencida pelo Brasil, Gylmar virou uma lenda. Mas jamais esqueceu das origens.

"Ele tinha um sentimento enorme pelo Jabaquara", conta Marcelo. "Foi um orgulho que tivemos a bandeira do Jabaquara junto no enterro. Ele fazia questão sempre de mostrar a nós que pagava mensalidade de sócio para ajudar o clube", diz o filho. "Quando perguntavam o time, ele falava que era alvinegro, para não descontentar santistas ou corintianos. Mas que o time do coração era o Jabaquara", lembra Sérgio. 

Gylmar durante homenagem recebida em 1989 em jogo contra o Corinthians
Gylmar durante homenagem recebida em 1989 em jogo contra o Corinthians
Foto: Acervo Pessoal / Sérgio Silveira / Divulgação

Gylmar recebeu duas homenagens importantes do clube em que nasceu para o futebol. Em 1989, deu o pontapé inicial para um confronto de Jabaquara x Corinthians. Em 97, houve um jantar comemorativo para celebrá-lo, e Sérgio estava presente.

"Ali ele se emocionou. Sentiu que o clube dava mesmo importância para ele. Entre os espanhóis da velha guarda, sempre houve o carinho pela ascensão dele na carreira, mas não a mágoa porque jogou pouco tempo. Para o jabaquarense, o importante era dizer que o Gylmar saiu daqui. Sempre era um orgulho ressaltá-lo como um filho, uma cria nossa", conta.

Atualmente na quarta divisão do Campeonato Paulista, o Jabaquara celebra seu centenário em 2014 e um pouco mais triste. "O Gylmar é nossa maior estrela, nossa maior referência em 100 anos", assegura o historiador Sérgio Silveira. Estrela que brilha lá no céu.

Fonte: Terra
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