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Erros de Diniz, show de Cano e um torcedor 'pé-frio'

Fluminense e Internacional protagonizam belo jogo no Maracanã, e o dinizismo, dessa vez, peca

28 set 2023 - 08h56
(atualizado às 16h23)
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CANO - Com os gols, deixa o Fluminense vivo na disputa pela vaga na final da Libertadores; posicionamento perfeito de centroavante na primeira etapa
CANO - Com os gols, deixa o Fluminense vivo na disputa pela vaga na final da Libertadores; posicionamento perfeito de centroavante na primeira etapa
Foto: Marcelo Gonçalves/FFC / Jogada10

João Henrique Capdeville acorda bem cedo na quarta-feira em São José dos Campos, no estado de São Paulo. O corretor imobiliário, que também é músico, cantarola o hino do Fluminense, o clube do coração, enquanto se desloca até a rodoviária da cidade. Embarca no ônibus às 8h. O objetivo é assistir ao jogo válido pela fase semifinal da Conmebol Libertadores entre o Tricolor e o Internacional, no Maracanã. Ele vai se encontrar com casal de amigos advogados, Pablo Aragão e Mariana Soares, ambos de 29 anos. João é um ano mais velho do que os dois.

Antes de encontrá-los, o corretor-músico marca no começo da noite na estação de metrô Largo do Machado, na Zona Sul do Rio, com um amigo de longa data. Vou chamá-lo de Nelson Andrade, pois essa figura pediu para que não fosse identificada com o verdadeiro nome, pois é tímido na maioria das vezes, porém, nas partidas do Flu torna-se quase um louco desembestado. Andrade não vai ao Estádio Jornalista Mario Filho desde março de 2020. Na pandemia, Nelson ficou recluso em apartamento na Zona Oeste por quase dois anos. Nelson viveu do valor médio de uma rescisão e, depois, se sustentou com os chamados trabalhos temporários. Quando tomou a quarta dose da vacina contra a Covid-19, já recebeu a quinta dose até o momento, passou a trabalhar fora de casa normalmente. Nelson é revisor de textos. Não tem um horário fixo e por causa de uma certa ansiedade criada com multidões (aglomerações) deixou de frequentar o Maracanã. Não viu in loco nenhum jogo do Flu há mais de três anos. Vários colegas, tricolores ou, principalmente, torcedores de outros times, tiram sarro dessa situação. Nelson acompanha tudo, mas dos aparelhos de TV do escritório ou do apartamento. Enfim, o revisor de texto com ansiedade voltou a encarar a multidão do Maraca na quarta à noite, dia 27, popular ontem.

João e Nelson se encontram na estação Largo do Machado, e embarcam rumo ao Maracanã. Com o vagão lotado de torcedores gritando ‘NENSE!’, eles conversam sobre a Libertadores de 2008, competição em que o Flu brilhou mas ficou com o vice-campeonato, perdendo o título para a LDU, do Equador. Os dois camaradas vão ao encontro de Pablo e Mariana, que já esperavam nos arredores do estádio na Zona Norte carioca.

O quarteto, então, vai até o setor sul da arquibancada do Mario Filho. Os quatro observam que existem papéis soltos nos assentos. De um lado desses papéis, existem instruções para um mosaico, como, por exemplo, o momento certo para erguê-los para formação do desenho ou da mensagem, que deve aparecer apenas quando o time entrar em campo. Do outro lado dos papéis, apenas uma cor, o verde, sem nenhum texto acompanhando. Esse é exatamente o lado que deve ser erguido para formar os benditos mosaicos quando o time entra em campo.

Nelson, sempre ranzinza, discute com alguns outros tricolores. Ele precisou ficar em pé no assento para enxergar o gramado, pois estão todos assim. Não há conforto, ninguém senta, e Nelson é baixinho, 1,60 metros, e tem pequena deficiência do lado direito do corpo. Assistir ao jogo ali é caótico. Aliás, o primeiro tempo do Flu foi o caos. 

A partida

Enfim, os jogadores entraram em campo numa partida que prometeu. Foi um senhor jogo apesar dos equívocos do treinador interino da seleção e de várias falhas defensivas do Tricolor.

O técnico do Fluminense armou quase o mesmo time que enfrentou o Olimpia. Foi um 4-2-4 ontem à noite, com o acréscimo do lateral Marcelo, que não marca quase ninguém embora seja craque. A equipe ficou exposta. Fernando Diniz resolveu repetir o time que amassou o Olimpia. No entanto, existem diferenças. O Inter tem meio-campo técnico e não fica marcando apenas no último terço do campo. O Colorado fez pressão na saída de bola, e dificultou tudo para o Fluminense.

Mesmo assim, o Fluminense achou um gol. Jhon Arias roubou a bola na intermediária, e foi até a ponta-direita cruzar. John Kennedy protegeu e tocou rápido para Cano. O que aconteceu? Chute de primeira e forte no canto. Flu 1 a 0.

Nelson, João, Pablo e Mariana comemoraram muito. Os 67 mil torcedores do Flu no Maracanã explodiram de alegria. O estádio ficou como cores dominantes o branco, o verde e o grená. Nelson abriu sorriso pensando que não seria chamado de ‘pé-frio’, apelido que o pessoal do trabalho quer colocar (e colocou) nele. Pôxa! Ele estava no gol de barriga do Renato no dia 25 de junho de 1995. Na época, Renato era Gaúcho, pelo menos para os cariocas, e não Portaluppi. Ele estava na grande vitória sobre o Boca Juniors na partida de volta da semifinal da Libertadores de 2008. Ele estava na estreia do Romário no Flu em 2002. O Baixinho fez três gols. Pé-frio?!? Nãooooooooo.

Sem Alexsander, na primeira etapa, o Fluminense não tinha sem um meio-campo compacto. André jogou sozinho como volante. Ganso sempre tocou muito bem a bola, armando de forma acima da média as equipes, porém, tem dificuldades de compor rapidamente o setor.

O torcedor Nelson reclamou e repetiu várias vezes que o já mencionado Alexsander deveria ser titular. Ele tem razão, mas essa repetição das ideias tornou o personagem um chato. João, Pablo e Mariana são muito tolerantes com Nelson Andrade.

Voltando ao jogo, o Fluminense passou sufoco com o buraco no meio-campo, pois Arias, Cano, JK e Keno não conseguiram fechá-lo. Ganso muito menos, e o talentoso Marcelo deveria estar na criação e não do lado esquerdo da defesa. Mesmo assim, Cano deu uma de lateral-direito duas vezes. O artilheiro tentava ajudar na marcação. Além disso, armou jogadas para os companheiros. Numa delas, acertou passe milimétrico para Keno, que desperdiçou chance clara de gol.

O Flu mostrava deficiência de marcação e nas bolas aéreas. Já o experiente Felipe Melo fez bobagem. Pisou na bola na grande área tricolor, e quase o Inter marcou. Quem salvou como um quarto zagueiro foi Paulo Henrique Ganso. O ‘muito educado’ Nelson Andrade soltou impropérios. Eram muitas falhas de marcação. 

Em determinado momento, o lateral-direito Samuel Xavier tomou um injusto cartão amarelo. Logo depois, outra falta. Nessa última, mereceu amarelo. Como o árbitro se equivocou no primeiro, acabou expulsando Samuel. O Tricolor estava com um a menos. Nos acréscimos da primeira etapa, Arias cobriu o setor do lateral. Não deu certo. Renê cruzou e o lateral Hugo Mallo empatou. Falhas de Keno e Marcelo. Precisava de Keno dentro da área do Flu? Marcelo tem, de maneira urgente, ser adaptado ao meio-campo.

A partida – parte 2

Fernando Diniz, com o Fluminense com um a menos, fez substituições no intervalo. Enfim, Alexsander foi uma delas. Mesmo com um a menos, o Tricolor pressionava, mas o Inter virou o jogo com Alan Patrick. 2 a 1. Pablo e Mariana olhavam incrédulos para João e o ranzinza Nelson. Esse último seria realmente pé-frio?

O time de guerreiros não desistiu e, em um escanteio, Nino ajeitou de cabeça para o rápido Cano. O poder de reação do artilheiro argentino é inacreditável. 2 a 2. CANO É UM MONSTRO, COM 35 GOLS NO ANO!

Mesmo com um jogador de linha a menos, o Fluminense foi melhor. No entanto, Fernando Diniz escalou mal a equipe no primeiro tempo, O Internacional tem meio-campo envolvente e jogar apenas com André e Ganso no setor se mostrou inoperante para o Tricolor. O jogo terminou mesmo empatado. A missão é difícil no jogo de volta em Porto Alegre, mas nada é impossível.

O quarteto de torcedores saiu esperançoso. Pela manhã dessa quinta-feira, João Henrique retornou para São José dos Campos. Já Nelson Andrade sonhou com o triunfo que levaria à final da Libertadores no Maracanã. Aliás, ele ficou com fama de pé-frio, pé gelado, mesmo.

Agora, resta aos tricolores acreditarem em triunfo na partida de volta da fase semifinal da Libertadores. Nada de ideias negativas para esses torcedores, pois o jornalista e teatrólogo Nelson Rodrigues dizia que ‘o pessimismo no futebol é insuportável’.

Abraços boleiros. 

Fonte: PV Ferreira PV Ferreira é editor e jornalista esportivo com experiência em coberturas do futebol brasileiro, sul-americano e europeu, além das modalidades olímpicas e paralímpicas. As visões do colunista não representam a visão do Terra.
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