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Marcos Caetano
Domingo, 20 Janeiro de 2002, 20h12
terraesportes@terra.com.br

...E o futebol recomeçou


Há muitos anos, quando um “Radical Livre” era tudo o que a molecada do bairro queria ser – e não algo que mata as tuas células, como garantem os médicos hoje em dia – eu intuía que seria melhor para o meu futuro ler livros e jornais que a escola não indicava, ver filmes incomuns e assistir televisão do que fazer um cursinho de programação de computadores. Algo me dizia que as linguagens Cobol, Fortran e o então modernérrimo Dbase III Plus ficariam pelo caminho, enquanto M*A*S*H, Ultra Man e o Pasquim seriam eternos.

Eu estava certo. A cultura, inútil ou não, venceu. E é exatamente por isso que foi tão embaraçoso receber uma centena de carinhosos e-mails de leitores, avisando que na semana passada eu misturei as histórias de Popó e Pantaleão. Humilhado como um Pedro Bó, peço aqui mil desculpas. Se tivesse confundido Hemingway e Mailer – que também citei na coluna –, tudo bem. Mas equivocar-me com personagens de Chico City depõe contra meus valores mais arraigados. Logo eu, que lembro até do Severino Pangolé, rival do corrupto prefeito Walfrido Canavieira...

Mas deixemos de lado as divagações, pois meu subconsciente – que nas horas vagas faz bico de editor de esportes – me avisa que estou enrolando além da conta, já que a bola voltou a rolar sábado para a Liga Rio-São Paulo. Mãos à obra, então. Mas vou logo dizendo que não houve muito o que destacar. Os jogos entre os times que fazem parte da primeira divisão do Campeonato Brasileiro foram equilibrados, os coadjuvantes – equipes que disputam as séries B e C – perderam feio, e os artilheiros, como Washington e o Baixinho, marcaram gols. Alguns estreantes ilustres também deixaram suas marcas, como os rubro-negros Juninho e Leonardo e o palmeirense Itamar.

Como a temporada está reiniciando agora, após semanas de inatividade, sanguinolentas renegociações de contratos, mudanças de técnicos e pré-temporadas pachorrentas em cidades do interior, não podemos mesmo esperar muito das equipes. Na verdade, alguns times que prometiam bastante, como os finalistas do Brasileirão São Paulo, Fluminense e São Caetano, foram os que mais decepcionaram. Portanto, aquela história do favoritismo teórico das equipes que mantiveram a base do segundo semestre de 2001 não se comprovou na prática. Ao menos na primeira rodada.

O futebol recomeça também para a Seleção Brasileira. E foi duro constatar que entre amistosos difíceis que testariam de verdade os seus comandados e a garantia do emprego até a Copa, Felipão fez a opção menos valente. Exceto pelo jogo com Portugal – que, não sei por que, acho que ainda será cancelado – só vamos jogar com equipes já eliminadas ou de quinta categoria. Vamos treinar contra um monte de galinhas mortas para enfrentar as três galinhas mortas da nossa chave. Considerando que dificilmente chegaremos à final sem passarmos por uma França ou uma Argentina, seria bom um pouco mais de coragem.

Os cronistas mais tarimbados ensinam que nada melhor para fechar um artigo que uma história alegre. Descumprirei a regra para terminar a coluna de hoje pedindo o respeito e as preces dos leitores para um dos grandes do nosso futebol. Morreu Vavá, nosso eterno Leão da Copa, bicampeão em 58 e 62. Nesses dias em que um dirigente do Vasco afirma que só Romário merece ter sua camisa eternizada na história do clube, esquecendo-se dos craques do passado e dos 700 gols que Roberto Dinamite fez pelo time da colina, lembrar-nos de Vavá – que por oito anos vestiu com raça a jaqueta cruzmaltina – torna-se ainda mais necessário.

15 de junho de 1958, Gotemburgo, Suécia. Estréia de Pelé e Garrincha em copas do mundo. O dia mais importante da história do futebol. O placar final apontou: Brasil 2 x 0 União Soviética. Depois daqueles 90 minutos de vertigem, o esporte nunca mais foi o mesmo, assim como nós brasileiros, pois o orgulho pátrio acabara de ser inventado. Na partida que recomeçou o futebol e reinaugurou o Brasil, coube apenas a Vavá a glória de balançar as redes. Ele fez nove gols em duas copas, sendo que três deles em duas finais consecutivas. Sua matada no peito, seguida de passadas largas, quase em câmera lenta, e um voleio fulminante, no jogo contra a França em 58, é até hoje uma das mais épicas e poderosas imagens do esporte. Todo aquele que dá uma Copa do Mundo ao seu país merece o céu. O Peito-de-Aço deu-nos duas. Portanto, que Deus te receba, Edvaldo Izídio Neto.

 

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