Há muitos anos, quando um “Radical Livre” era tudo o que a molecada do
bairro queria ser – e não algo que mata as tuas células, como garantem os
médicos hoje em dia – eu intuía que seria melhor para o meu futuro ler
livros e jornais que a escola não indicava, ver filmes incomuns e assistir
televisão do que fazer um cursinho de programação de computadores. Algo me
dizia que as linguagens Cobol, Fortran e o então modernérrimo Dbase III Plus
ficariam pelo caminho, enquanto M*A*S*H, Ultra Man e o Pasquim seriam
eternos.
Eu estava certo. A cultura, inútil ou não, venceu. E é exatamente por isso
que foi tão embaraçoso receber uma centena de carinhosos e-mails de
leitores, avisando que na semana passada eu misturei as histórias de Popó e
Pantaleão. Humilhado como um Pedro Bó, peço aqui mil desculpas. Se tivesse
confundido Hemingway e Mailer – que também citei na coluna –, tudo bem. Mas
equivocar-me com personagens de Chico City depõe contra meus valores mais
arraigados. Logo eu, que lembro até do Severino Pangolé, rival do corrupto
prefeito Walfrido Canavieira...
Mas deixemos de lado as divagações, pois meu subconsciente – que nas horas
vagas faz bico de editor de esportes – me avisa que estou enrolando além da
conta, já que a bola voltou a rolar sábado para a Liga Rio-São Paulo. Mãos à
obra, então. Mas vou logo dizendo que não houve muito o que destacar. Os
jogos entre os times que fazem parte da primeira divisão do Campeonato
Brasileiro foram equilibrados, os coadjuvantes – equipes que disputam as
séries B e C – perderam feio, e os artilheiros, como Washington e o
Baixinho, marcaram gols. Alguns estreantes ilustres também deixaram suas
marcas, como os rubro-negros Juninho e Leonardo e o palmeirense Itamar.
Como a temporada está reiniciando agora, após semanas de inatividade,
sanguinolentas renegociações de contratos, mudanças de técnicos e
pré-temporadas pachorrentas em cidades do interior, não podemos mesmo
esperar muito das equipes. Na verdade, alguns times que prometiam bastante,
como os finalistas do Brasileirão São Paulo, Fluminense e São Caetano, foram
os que mais decepcionaram. Portanto, aquela história do favoritismo teórico
das equipes que mantiveram a base do segundo semestre de 2001 não se
comprovou na prática. Ao menos na primeira rodada.
O futebol recomeça também para a Seleção Brasileira. E foi duro constatar
que entre amistosos difíceis que testariam de verdade os seus comandados e a
garantia do emprego até a Copa, Felipão fez a opção menos valente. Exceto
pelo jogo com Portugal – que, não sei por que, acho que ainda será cancelado
– só vamos jogar com equipes já eliminadas ou de quinta categoria. Vamos
treinar contra um monte de galinhas mortas para enfrentar as três galinhas
mortas da nossa chave. Considerando que dificilmente chegaremos à final sem
passarmos por uma França ou uma Argentina, seria bom um pouco mais de
coragem.
Os cronistas mais tarimbados ensinam que nada melhor para fechar um artigo
que uma história alegre. Descumprirei a regra para terminar a coluna de hoje
pedindo o respeito e as preces dos leitores para um dos grandes do nosso
futebol. Morreu Vavá, nosso eterno Leão da Copa, bicampeão em 58 e 62.
Nesses dias em que um dirigente do Vasco afirma que só Romário merece ter
sua camisa eternizada na história do clube, esquecendo-se dos craques do
passado e dos 700 gols que Roberto Dinamite fez pelo time da colina,
lembrar-nos de Vavá – que por oito anos vestiu com raça a jaqueta
cruzmaltina – torna-se ainda mais necessário.
15 de junho de 1958, Gotemburgo, Suécia. Estréia de Pelé e Garrincha em
copas do mundo. O dia mais importante da história do futebol. O placar final
apontou: Brasil 2 x 0 União Soviética. Depois daqueles 90 minutos de
vertigem, o esporte nunca mais foi o mesmo, assim como nós brasileiros, pois
o orgulho pátrio acabara de ser inventado. Na partida que recomeçou o
futebol e reinaugurou o Brasil, coube apenas a Vavá a glória de balançar as
redes. Ele fez nove gols em duas copas, sendo que três deles em duas finais
consecutivas. Sua matada no peito, seguida de passadas largas, quase em
câmera lenta, e um voleio fulminante, no jogo contra a França em 58, é até
hoje uma das mais épicas e poderosas imagens do esporte. Todo aquele que dá
uma Copa do Mundo ao seu país merece o céu. O Peito-de-Aço deu-nos duas.
Portanto, que Deus te receba, Edvaldo Izídio Neto.