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Marcos Caetano
Segunda-feira, 17 Setembro de 2001, 13h13
terraesportes@terra.com.br

Fundamentalistas


Passei os últimos dias lendo centenas de artigos, ensaios, reportagens, charges, matérias ou qualquer texto que pudesse trazer alguma explicação sobre a insanidade que tomou conta do mundo a partir da manhã do último dia 11 de setembro. Tamanha foi a proliferação de textos, que é perfeitamente compreensível que o amigo leitor não tenha disposição para debruçar-se sobre novas colunas sobre o ataque terrorista aos Estados Unidos, ainda mais se escritas por quem não é especialista do assunto – se é que os há. Portanto, vou tentar não produzir aqui outra análise da complexa situação mundial, mas apenas escrever sobre o nosso singelo futebol – razão de ser desta coluna, mesmo em tempos tão bicudos.

Mas a verdade é que existe uma relação tão evidente entre as causas da grande crise mundial e o fato mais insólito das últimas rodadas do Campeonato Brasileiro, que dificilmente vou conseguir falar de São Januário sem falar também de Manhattan. E eis aqui o que queria dizer: há um parentesco óbvio entre os fanáticos que explodem edifícios nos Estados Unidos e as torcidas organizadas que espancam adversários e hostilizam jogadores no Brasil.

A dificuldade do ser humano em conviver com a diferença – de doutrina, de raça, de ideologia, de valores – foi a causa de todas as cizânias da história da humanidade. Quando indivíduos se organizam em grupos que se julgam depositários exclusivos das verdades absolutas da vida, o resultado é sempre traduzido em intolerância. E essa intolerância é a causa de todos os conflitos. Seja na política internacional, seja nos campos de futebol.

Infelizmente, a história recente das torcidas organizadas tem sido pautada pela intolerância. Houve uma época em que os estádios viviam cobertos de faixas de torcidas, cada uma representando um bairro ou um grupo de amigos. As torcidas eram autênticas e as pessoas escolhiam a que grupo se juntar por razões de afinidade. Hoje, quase todos aqueles que vão aos estádios procuram justamente evitar as torcidas organizadas. E os que decidem se juntar a uma delas, o fazem menos por bravata ou vontade de brigar com a torcida adversária, e muito mais por necessidade de auto-afirmação.

Hoje vemos nos estádios apenas uma torcida de cada time. Essa torcida tem uma faixa imensa, que normalmente ocupa quase metade do anel do estádio. Essas torcidas são como estados totalitaristas. E não por acaso se organizam em sub-grupos que se intitulam batalhões, brigadas ou divisões – que têm como objetivo eliminar não só as torcidas adversárias, mas se possível também qualquer torcida menor de seu próprio time. Por isso não é raro ver integrantes dessas torcidas esquecendo dos jogos para trocar gritos de guerra e até sopapos com as outras facções do seu próprio clube.

É muito fácil recordar os nomes dessas torcidas gigantes. Mas tente lembrar de outras duas torcidas de cada um dos grandes clubes. A tarefa é muito mais difícil. Com esforço, lembraremos de mais uma, e a terceira torcida, se houver, será apenas uma torcida de faixa, que não tem sede, bateria, uniforme ou qualquer coisa além de um pedaço de pano com um nome escrito, tristemente pendurado nas arquibancadas. Muita gente vai protestar, mas quem tem o hábito de ir aos estádios sabe exatamente do que estou falando.

Pois são essas torcidas totalitárias, sem concorrência, donas da verdade e tão temidas pelos clubes, que acabam se transformando em monstros. Monstros de intolerância, de brutalidade, de hostilidade, de racismo até. Monstros que contribuem para o afastamento do torcedor comum dos estádios. O torcedor que quer ver celebração, participar da festa do futebol – e não ouvir gritos ameaçadores contra os adversários, que em tantos aspectos se assemelham aos dos integrantes do Talibã ou do Jihad.

Pois foram exatamente esses fundamentalistas das arquibancadas que domingo, no jogo do Vasco, acabaram protagonizando as cenas mais deploráveis da rodada. Cenas que só quem vive num mundo como o nosso – no qual em nome de Deus um bando de imbecis acha certo implodir prédios com dezenas de milhares de pessoas dentro – pode compreender.

Enquanto mais de 90% dos torcedores presentes gritavam o nome de Romário, celebrando o artilheiro que mais alegrias deu ao clube e ao Brasil nos últimos 10 anos, um grupo raivoso perseguia o craque com xingamentos e ameaças de agressão. É isso mesmo: torcedores do Vasco ameaçando a vida do maior jogador do próprio clube. “Romário: você não é maior que o Vasco”, dizia uma faixa brandida por eles. Curioso, pois justamente eles se consideram maiores do que o Vasco, visto que tentam impor sua opinião à grande maioria dos torcedores que apóiam Romário.

Isso não é, claro, exclusividade do Vasco. E, convenhamos, Romário também não é nenhum coroinha. Mas considero que esses torcedores que depredam sedes de clubes, destroem salas de troféus e agridem jogadores são desprezíveis. Quase tão desprezíveis quanto os radicais fundamentalistas islâmicos. Aos que enxergam exagero nessas colocações, recordo que milhares de vidas já foram destruídas por atitudes violentas das chamadas torcidas organizadas.

E infelizmente não estamos muito longe do dia em que um jogador brasileiro será assassinado pelas mãos de torcedores furiosos. Se alguém duvida é só falar com o Vampeta, que acaba de declarar que os jogadores do Corinthians andam armados para se defender de ataques da Fiel. Está na hora da maioria pacífica e silenciosa fazer alguma coisa.

 

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