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O bolor do futebol brasileiro

A eliminação do Brasil na Copa do Mundo de 2026 reacendeu o debate sobre o papel de Neymar na Seleção Brasileira.

5 jul 2026 - 21h10
(atualizado às 21h10)
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Neymar Júnior antes da partida entre Brasil e Escócia, pela terceira rodada do grupo C da Copa do Mundo
Neymar Júnior antes da partida entre Brasil e Escócia, pela terceira rodada do grupo C da Copa do Mundo
Foto: Megan Briggs/Getty Images / Esporte News Mundo

Não vou começar este texto dizendo que a culpa da eliminação do Brasil é inteiramente do camisa 10 da Seleção. Não é. Futebol nunca funciona assim. Mas existe algo que precisa ser dito.

Neymar se tornou o bolor da Seleção Brasileira. Não porque seja o pior jogador do elenco. Não porque tenha sido o único responsável pela eliminação. Mas porque sua presença passou a contaminar tudo ao redor.

O bolor não destrói algo de uma vez. Ele aparece aos poucos, ocupa espaço, se espalha silenciosamente até comprometer tudo. Quando você percebe, já não existe apenas um pequeno problema, todo o ambiente foi contaminado.

É exatamente esse o efeito que Neymar produz hoje na Seleção.

Pela primeira vez desde que começou seu ciclo vestindo a camisa amarela, ele deixou de ser o protagonista absoluto. E a impressão que passa é que não consegue lidar com isso.

Durante meses vimos uma sucessão de episódios que pareciam ter um único objetivo: recolocar Neymar no centro das atenções. Declarações, vídeos, recados públicos, aparições constantes e uma mobilização enorme para que sua convocação acontecesse.

A impressão que se tinha era de que a Copa não era sobre o Brasil, era sobre o ego ciclópico do moleque de 34 anos.

Uma Seleção campeã precisa que seus jogadores coloquem o grupo acima de si mesmos. Com Neymar, a sensação é exatamente a oposta. Tudo gira em torno dele.

O que mais me incomodou contra a Noruega nem foi o desempenho técnico, porque não já não se esperava nada em campo.

Desde os primeiros segundos em campo, Neymar gesticulava pedindo a bola o tempo inteiro. No pênalti brasileiro, protagonizou discussões e provocações. A linguagem corporal transmitia a sensação de que ele ainda se enxergava como alguém acima dos demais.

Esse comportamento não ajuda um grupo.

Ele pesa.

Outro ponto que me incomoda é a incapacidade de reconhecer os próprios limites.

Na minha avaliação, Neymar não demonstrava condições físicas ideais para disputar uma Copa do Mundo. Ainda assim, permaneceu no centro do projeto. Faltou um gesto que considero simples para alguém com o mínimo de paixão, admitir que talvez aquele não fosse mais o seu momento.

Isso também é liderança. Amar é deixar ir quando necessário.

Porque amar a camisa, às vezes, significa abrir espaço para quem está mais preparado.

A convocação foi o primeiro erro desse processo. Não atribuo intenções ocultas a Carlo Ancelotti nem acredito que a decisão tenha ocorrido por qualquer motivo extracampo. Mas considero que houve uma pressão enorme da opinião pública (alimentada pelo próprio Neymar) para que ele estivesse na Copa, mesmo sem apresentar o rendimento físico e técnico que justificasse tamanho protagonismo. E o preço foi alto.

O Brasil carregou durante toda a competição um debate que jamais deveria existir. Era sempre sobre Neymar.

Existe um ditado popular que diz que "o pombo defeca, espalha e ainda pisa em cima". É uma expressão usada para quem cria um problema e depois amplia o estrago ao redor.

A metáfora pode parecer dura, mas ajuda a explicar a situação.

A eliminação para a Noruega e o anúncio da aposentadoria da Seleção Brasileira conclui encerramento definitivo desse ciclo. Isso é um alívio para o nosso futebol tão importante e lindo historicamente.

Ao torcedor brasileiro, não tiro a razão. Estamos há 24 anos esperando pelo hexacampeonato. Nesse período, acumulamos frustrações, promessas e gerações que ficaram pelo caminho. Justamente por isso, precisamos ser mais críticos.

O ciclo para 2030 oferece uma oportunidade rara.

Não para encontrar um novo Neymar.

Mas para finalmente entender que a Seleção Brasileira sempre será maior do que qualquer menino.

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