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Nilton Santos: a Enciclopédia que reinventou o futebol

27 nov 2013 - 20h11
(atualizado às 20h50)
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"Invejo os laterais de hoje. Não pelo dinheiro que eles ganham, mas pela liberdade que têm para jogar", confessava, ainda aos 77 anos, aquele que é considerado o maior lateral esquerdo da história do futebol mundial, não à toa apelidado de "Enciclopédia do Futebol".

Nílton dos Santos, bicampeão mundial com a Seleção Brasileira, tetracampeão estadual com o Botafogo e campeão de vários outros títulos internacionais, sempre com as mesmas camisas, foi o responsável por mudanças táticas em várias seleções e clubes do mundo e também por um novo papel do lateral em campo.

"Sempre gostei de atacar, mas fazia com cuidado, pois se o time tomasse um gol naquela hora eu ia parar na forca", lembrava. Nílton Santos reconhecia que era favorecido na época. "Tinha a vantagem de ter Garrincha no meu time. Ele atraía o jogo para a direita e eu aproveitava para dar minhas arrancadas. Consegui fazer 11 gols pelo Botafogo e três pela Seleção Brasileira, o que era um absurdo na época. Creio que fui um dos primeiros laterais a atacar e não só a marcar", orgulhava-se.

Nílton Santos era um jogador clássico, elegante, raramente fazia falta e nunca jogava com violência. Começou a carreira como centroavante, mas foi colocado como quarto zagueiro em um treino e logo em seguida firmou-se na lateral. A obsessão pelo ataque, no entanto, permaneceu e o fez inovar o futebol de sua época, com suas estranhas arrancadas pela esquerda.

Dono de um futebol refinado e hábil, chutava e driblava com as duas pernas - coisa rara na época. Em campo, exercia uma liderança discreta, mas firme. Jogadores como Amarildo, que substituiu Pelé na Copa do Mundo de 1962, o próprio Pelé e Garrincha, de quem era considerado o melhor amigo e compadre, respeitavam-no muito.

Conquistado nosso primeiro Mundial, em 1958, na Suécia, o então garoto Pelé, de 17 anos, chorou no ombro do já veterano Nilton Santos, na época com 33. "É isso aí, garoto", consolava Nílton. "Finalmente somos campeões, e graças a você", agradecia.

Malandragem salvadora

Em outra ocasião, durante a Copa de 62, no Chile, ele conseguiu conter os ânimos do estourado Amarildo, que não de graça tinha o apelido entre seus companheiros de Botafogo de "Possesso". "Eu e o Didi chamamos o Amarildo e falamos que os espanhóis iriam tentar irritá-lo e que ele teria de se controlar para não ser expulso. Ele entendeu o recado e se comportou maravilhosamente bem. Parecia um anjo dentro de campo", lembrava.

Foi nessa Copa também, a de 62, que ocorreu um lance que marcou a vida de Nílton Santos e a história do futebol brasileiro. O jogo era contra a Espanha, válido pela última rodada da fase de classificação, e decisivo. Quem perdesse, voltava para casa. Nílton Santos contava o que aconteceu:

"Começamos mal e tomamos um gol no primeiro tempo. O técnico espanhol colocara um cara novo e veloz em cima de mim, mas ele era canhoto. Ele ganhava todas as corridas, mas na hora de cruzar, tinha que ajeitar a bola para a perna boa. Nessa hora, eu chegava e roubava a bola. No segundo tempo, a mesma jogada se repetiu, mas, na hora de cortar a bola, acabei derrubando o espanhol dentro da área. Instintivamente, dei dois passos e saí da área. O árbitro estava longe, não viu e marcou falta, e não pênalti. Foi pura malandragem, daquelas que a gente aprende nas peladas", exaltava.

Depois deste lance, os espanhóis desmontaram, ao mesmo tempo em que Mané Garricha começava a dar seu show particular, driblando os adversários de todas as maneiras. Numa destas jogadas, Amarildo empatou o jogo. Os espanhóis entraram em desespero. Todo mundo recuou na tentativa de parar o Mané das 'Pernas Tortas'. Mas não teve jeito, e, em outra jogada do ponta-direita brasileiro, Amarildo fez seu segundo gol na partida, o da vitória brasileira.

Nílton afirmava que, embora não tenha feito gol naquela partida e nem mesmo jogado tão bem, aquele lance do pênalti acabou sendo decisivo. "Sem ele, seríamos eliminados e, hoje, em vez de sermos pentacampeões, seríamos tri, como a Alemanha e a Itália".

Nílton era fiel

Nílton Santos vestiu apenas duas camisas em toda sua carreira de jogador de futebol: a do Botafogo, que defendeu por 17 anos em 716 jogos, e a da Seleção Brasileira, pela qual fez 75 partidas oficiais e dez não-oficiais, marcando três gols.

Romântico, não ligava para dinheiro. "Acho que sempre fui amador. Cheguei a assinar três contratos em branco, no auge de minha carreira", dizia. Mas ele não se arrependia. "Faria tudo de novo, outra vez. Tudo o que tenho, tudo o que eu sou, devo ao Botafogo".

Seu outro amor, talvez o principal: a bola. "É a minha vida. Foi quem me deu tudo. Nunca me traiu, nunca me bateu na canela. Sempre me obedeceu. Minha bola é minha vida", confessava.

Nílton Santos começou no time carioca em 1948. Em 1950, já participava de sua primeira Copa, na reserva. "Foi muito triste ver o Maracanã silencioso. Deu vontade de fugir". Depois de um Mundial regular na Suíça, em 1954 ("foi uma bagunça geral"), teve sua grande chance na Suécia, quatro anos depois.

Na véspera da final contra os suecos, confiante, chegou a declarar a alguns repórteres que queriam saber se ele dormiria tranquilo: "Pelé, Garrincha e Didi jogam no nosso time. Os suecos que passem a noite em claro pensando em como marcar o Brasil. Vou dormir sossegado". O resultado todos sabem: 5 a 2 para o Brasil.

"Volta, Nílton"

Outra passagem marcante na carreira de Nílton Santos foi a de um gol na Copa de 58. O Brasil vencia a Áustria por 1 a 0, no começo do segundo tempo. Nílton pegou a bola na defesa e começou a avançar: "Volta, Nílton", gritou do banco Vicente Feola, técnico do Brasil. O lateral continuou correndo e ultrapassando os adversários. Já quase na intermediária, ouviu novamente: "Volta, Nílton", mas fingiu não ouvir e chegou à entrada da área austríaca: "Volta, Nílton", berrava Feola, quase se esgoelando. Nílton chutou com maestria da entrada da área e marcou o segundo gol brasileiro, que levou o público ao delírio.

"Boa, Nílton", murmurou Feola, já se sentando no banco novamente. O ano de 1962 foi considerado de ouro para o lateral. Conquistou o bi mundial no Chile com a Seleção e o bi carioca com o Botafogo, numa final histórica contra o Flamengo, com show de Mané Garrincha. E em 1964, ele abandonou o futebol e o clube de General Severiano, aos 39 anos.

Mesmo parando de jogar, Nílton Santos não se afastou do futebol. Em 1998, tocava um projeto de uma escolinha de futebol em Palmas, Tocantins, para crianças carentes. Mesmo declarando que nunca sonhou em ser treinador de futebol - "é muito desgastante" -, chegou a treinar o Bonsucesso, modesto clube do subúrbio do Rio de Janeiro, depois de passar, sem grande êxito, pelo Galícia e Vitória, ambos da Bahia.

Ele também lançou, em 1998, um livro autobiográfico com o apropriado nome de "Minha bola, minha vida", pela editora Gryphus. Certa ocasião, solicitado para se autodefinir, Nílton disse: "Sou um cara que só jogou futebol em um clube. Encerrei minha carreira com quatro meniscos, o que prova que tinha bom equilíbrio. Sou muito feliz e tenho a minha consciência tranquila. Quando tenho sono, durmo em cinco minutos. Minha religião é não fazer mal a ninguém e, se puder, ajudar o próximo".

Seis anos depois, a Enciclopédia integrou a lista dos 100 melhores jogadores vivos - a relação foi elaborada pela Fifa com ajuda de Pelé. Carlos Alberto Torres, Cafu, Falcão, Pelé, Júnior, Rivaldo, Rivelino, Roberto Carlos, Romário, Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo, Djalma Santos e Sócrates foram os seus compatriotas acompanhantes.

Já pela Federação de História e Estatística do Futebol (IFFHS), Nílton Santos foi eleito o nono maior jogador brasileiro do Século XX, além de o 28º da América do Sul. A Fifa também não teve dúvidas e elegeu o brasileiro como o melhor lateral-esquerdo de todos os tempos. Para completar, jornalistas esportivos de todo o mundo ‘convocaram-no’ para a seleção sul-americana da história.

Em 2009, ainda foi eternizado com uma estátua em uma das alas do Engenhão, estádio que o Botafogo utilizava antes de problemas na cobertura. A escultura, inaugurada em uma cerimônia emocionante, foi feita pelo artista plástico Edgar Duvivier.

Com 88 anos, dos quais cinco lutou contra o Mal de Alzheimer, Nílton Santos faleceu em uma clínica na zona sul do Rio de Janeiro. Às 15h50 da quarta-feira do dia 27 de novembro de 2013, uma infecção pulmonar encerrou o último capítulo de uma brilhante Enciclopédia.

Gazeta Esportiva Gazeta Esportiva
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