Mesmo com dificuldades pessoais, Wade brilha na NBA
Seus companheiros de equipe já haviam deixado o local há muito tempo quando Dwayne Wade emergiu da sala de exercícios do Miami, usando roupas de rua e cheirando a linimento. Wade, um armador de 1,93 metro, estava sofrendo dores mais fortes do que costuma, naquela noite do final do mês passado, ainda que, pelo seu desempenho em quadra, ninguém deva tê-lo percebido.
Ele marcou 27 pontos e jogou 32 minutos em uma vitória contra o Memphis Grizzlies, o que incluiu uma enterrada por sobre a marcação do pivô Darko Milicic, de 2,13 metros. Depois de uma massagem no vestiário, veio a análise de seu desempenho em conversa com repórteres, que Wade conduziu enquanto exibia um símbolo conspícuo de sua dor.
Era uma foto de seus dois filhos, Zaire e Zion, suspensa de uma longa corrente enfeitada por bolas de prata do tamanho de pérolas. A jóia pesava muito no coração de Wade. "Eu costumava usá-la muito mais", ele disse. "Mas preciso trocar a foto; eles estão mais velhos agora". Ele fez uma pausa. "Amo muito os meus meninos. Quero carregá-los sempre comigo".
Wade, 27 anos, deve estar satisfeito por ter carregado o jovem time do Miami Heat das 15 vitórias da temporada passada ao quinto posto na conferência leste, este ano, com 43 vitórias e 39 derrotas e uma disputa de playoffs contra o Atlanta Hawks.
Depois de duas temporadas prejudicadas por lesões, a magia de Wade se fez sentir com todo o vigor, desta vez. Nos 79 jogos que iniciou, ele se colocou em concorrência direta com LeBron James e Kobe Bryant; em 20 dessas partidas, ele conseguiu mais de 10 pontos e 10 rebotes, e durante a temporada ele registrou 173 roubos de bola, 106 tocos e uma média de 30,2 pontos, a melhor da NBA.
O melhor desempenho de Wade em suas seis temporadas de basquete profissional surgiu durante um dos piores períodos em sua vida pessoal. Ele está enfrentando o fim de seu casamento, o distanciamento de seus filhos, e a destruição de sua imagem imaculada junto à imprensa."Casei-me aos 20 anos porque queria ser perfeito", disse Wade. "Mas ninguém é perfeito. Você percebe isso à medida que envelhece. É preciso fazer o melhor que se pode".
Seis dias depois do jogo contra o Memphis, Wade estava reclinado por sobre uma cerca, contemplando a baía de Biscayne; o Miami Heat estava realizando seu Festival da Família, na ilha Watson, um evento anual que arrecada dinheiro para as organizações de caridade que o time apoia. Desde o título do Heat em 2005/6, Wade suplantou Dan Marino, o quarterback aposentado do Miami Dolphins, como maior astro do esporte da cidade. Mas seus colegas de equipe sabem como colocá-lo na real.
O calouro Michael Beasley se aproximou de Wade durante o festival; ele trazia uma jiboia de três metros de comprimento, chamada Fluffy, enrolada no pescoço. Wade saiu correndo na direção oposta e disse, mais tarde, que "meu coração disparou".
Ron Magill, do zoológico de Miami, o tratador de Fluffy, diz que assustar Wade usando uma cobra se tornou uma tradição. "Todo mundo o vê como um grande herói", disse Magill. "Mas quando ele vê uma cobra, sai correndo como uma menininha".
Microfones assustam Wade quase tanto quanto os ofídios. No mês passado, a camisa de Alonzo Mourning, seu antigo colega de equipe, foi aposentada durante uma partida. Antes da cerimônia, realizada no intervalo, Wade decidiu no par ou ímpar com Udonis Haslem quem faria um pequeno discurso de apresentação em nome do time desta temporada.
Wade fala mais durante as conversas internas do time, mas são suas ações que transmitem a mensagem. Em um jogo contra o New York Knicks, no domingo, que seu time precisava vencer para garantir o quinto lugar na classificação da conferência, ele marcou 55 pontos, apenas um abaixo do recorde da equipe. Por duas vezes, nos minutos finais, ele dispensou oportunidades de arremesso para fazer passes a Beasley, que terminou com 28 pontos.
"Qualquer outro jogador teria marcado o máximo possível de pontos para conquistar um recorde", diz Beasley. "Que ele prefira confiar em seus companheiros em um jogo difícil como aquele diz muito sobre seu caráter".
Wade tem olhos plácidos e costuma sorrir sempre, o que torna difícil adivinhar o que está pensando. Mas nem sempre. Pat Riley, presidente do Heat e seu técnico na temporada do título, lembra uma partida em que, no intervalo, deu uma séria bronca em seus jogadores. Depois ele olhou para Wade, que tinha a cabeça baixa e estava encolhido como um cachorro que está sendo ameaçado. "Fui criado em uma família de alcoólatras", conta Riley, "e lembro de ter agido como ele. Fui até Wade, coloquei minha mão em seu ombro e disse que ele não era mais um menino em Chicago e não precisava se preocupar".
Pouco depois que Wade nasceu, em janeiro de 1982, seu pai, também chamado Dwayne, saiu da casa da família, em Chicago. Jolinda, a mãe, tinha de cuidar das três filhas e do novo bebê, mas terminou derrotada pelo vício. Nos anos de infância e juventude de Wade, ela foi detida mais de uma vez por acusações relacionadas a drogas, e serviu sentença de prisão antes de conseguir reorganizar sua vida.
Quando estava no primeiro grau, Wade se mudou para o outro lado da cidade, para a casa de seu pai e da noiva deste, Bessie McDaniel; o relacionamento entre eles se deteriorou e logo os dois se comunicavam apenas em brigas aos gritos. Wade diz que aguentou tudo em silêncio, e que sonhava formar uma família estável, o que não perdeu tempo em fazer.
Começou a namorar com Siohvaughn Furches quando estava no segundo ano do segundo grau; ela era um ano mais velha. No último ano do colegial, Wade se mudou para a casa da mãe de Siohvaughn, Darlene. Com a orientação dela, conseguiu vaga na Universidade Marquette, ainda que ficasse fora do time de basquete durante todo o primeiro ano porque não tinha obtido desempenho acadêmico suficiente para jogar.
Ao final de seu primeiro ano de faculdade, Wade se casou com Siohvaughn; Zaire, que hoje tem sete anos, nasceu logo depois. Foi um sonho realizado. Ele realizaria dois outros em seu terceiro ano de estudo, quando levou Marquette às semifinais do basquete universitário norte-americano, com 27 vitórias e seis derrotas; no final da temporada, foi selecionado pelo Heat para a NBA, em 2003.
Wade chegou à NBA sem ficha policial e sem qualquer indicação de desenvolvimento intelectual limitado. Ele doa dinheiro à sua igreja e se envolveu nas atividades de caridade do time com entusiasmo; a reputação dele como bom moço logo cresceu. "Às vezes eu ouvia pessoas dizendo que eu não saía, não fazia isso, não fazia aquilo", diz. ¿Não sou maluco, mas gosto de viver. Sou humano".
Na pós-temporada de 2006, Wade apresentou um grande avanço em seu jogo e carregou o Heat ao seu primeiro título na NBA. Depois de registrar média de 34,7 pontos por partida nos seis jogos das finais contra o Dallas Mavericks, ele foi selecionado como melhor jogador das finais.
Mas pouco depois que esse conto de fadas se tornou realidade, um outro se desfez.
Zion nasceu em maio de 2007, e poucas semanas mais tarde Wade e a mulher se separaram. "Quando você está sempre sob os holofotes, e as pessoas costumam julgá-lo, às vezes você persiste em alguma coisa mesmo que não esteja funcionando porque não quer ser julgado", disse Wade.
No pedido de divórcio, Siohvaughn acusou Wade de infidelidade e de negligenciar os filhos. A imagem dele sofreu novo abalo no final do ano passado, quando foi processado por um ex-sócio devido a um restaurante falido.
Siohvaughn, que voltou com os meninos para Illinois, havia concordado em conceder entrevista para este artigo, quando o Heat enfrentou o Chicago Bulls no mês passado, mas mudou de idéia na noite anterior. A mãe de Wade foi uma das 34 pessoas que compareceram ao ginásio com ingressos enviados pelo jogador; os dois filhos dele estavam ausentes.
"É uma situação complicada, agora", diz Wade. "A tarefa a realizar é garantir que a separação seja concluída sem problemas, e que possamos fazer o melhor pelos meninos".
Jolinda Wade, que está sóbria há sete anos e é pregadora em uma igreja batista que seu filho comprou para ela em Chicago, esperou por quase uma hora depois do jogo para dar um longo abraço no filho. Não quer de maneira alguma desperdiçar essa segunda chance de ser uma mãe para seu único menino.
"Ele me tirou dos mortos", ela disse. "E vamos fazer a mesma coisa por ele: reanimá-lo".
Tradução: Paulo Migliacci