Barco brasileiro cruza o Ponto Nemo em uma das travessias mais remotas da vela mundial
A etapa tem extensão total de seis mil trezentas e noventa milhas náuticas, o equivalente a onze mil oitocentos e trinta e quatro quilômetro
O Barco Brasil cruzou o Ponto Nemo durante a quarta etapa da Globe 40, a volta ao mundo em duplas disputada a bordo dos Class40.
A passagem pelo local considerado o mais distante de qualquer terra firme do planeta marcou um dos momentos mais simbólicos da campanha brasileira na regata, disputada atualmente no Oceano Pacífico.
A equipe formada por José Guilherme Caldas e Luiz Bolina deixou Sydney (AUS) no dia primeiro de janeiro, com destino a Valparaíso, no Chile, naquela que é uma das perninhas mais longas e exigentes da competição.
A etapa tem extensão total de seis mil trezentas e noventa milhas náuticas, o equivalente a onze mil oitocentos e trinta e quatro quilômetros, e deve ser concluída no fim do mês. No momento, o time brasileiro ocupa a terceira colocação geral nesta perna e lidera a categoria Sharp.
Conhecido oficialmente como Polo Oceânico de Inacessibilidade, o Ponto Nemo está localizado no meio do Oceano Pacífico Sul, a quase três mil quilômetros das ilhas habitadas mais próximas. A região é marcada pelo isolamento extremo, a ponto de, em determinados momentos, os seres humanos mais próximos estarem a bordo da Estação Espacial Internacional.
“Passamos há pouco pelo Ponto Nemo, o centro do Polo de Inacessibilidade do Pacífico, considerado o ponto do oceano mais distante de qualquer terra emersa. Fica no cruzamento de linhas entre o Havaí, a Ilha de Páscoa, a Antártida e a Nova Zelândia. Neste momento, as pessoas mais próximas de nós, fora a tripulação, estão na Estação Espacial Internacional, a cerca de trezentos a quatrocentos quilômetros de altitude. É muito impactante a sensação de estar no fim, ou no início, do mundo”, afirmou José Guilherme Caldas.
Além da lonjura, o local é conhecido por servir como “cemitério” de naves espaciais desativadas e por apresentar baixa concentração de vida marinha, consequência das correntes oceânicas que tornam a área um ambiente de reduzida produtividade biológica.
O comandante brasileiro também relatou as condições enfrentadas pela dupla nesta parte do percurso. “Seguimos navegando em condições bastante severas, com frio intenso no ambiente, em torno de sete graus, e na água, que está a cerca de cinco graus. Ao mexer nos cabos, a sensação é de que tudo vai congelar. Estamos no modo geladeira, e a carne dentro somos nós”, disse.
Segundo José Guilherme, a estratégia adotada tem sido priorizar a segurança diante das rápidas mudanças de clima e mar. “Estamos adotando uma velejada conservadora e defensiva. As condições nesta latitude mudam muito rápido, e um ajuste que parece ideal em um momento pode se tornar arriscado em poucos segundos, com chance de perder uma vela fundamental. Quem persegue é quem precisa se arriscar”, concluiu.
O Barco Brasil lidera a categoria Sharp da Class40 com nove pontos, à frente do francês Free Dom, que soma treze vírgula cinco pontos. Na classificação geral, que inclui o prólogo entre Lorient, na França, e Cádiz, na Espanha, a liderança é do francês Credit Mutuel, enquanto o representante brasileiro aparece como o melhor colocado entre os barcos da categoria Sharp.
A Globe 40 reúne sete veleiros de diferentes países e utiliza um sistema de pontuação em que vence quem somar menos pontos ao final da volta ao mundo. A regata é disputada em barcos Class40, divididos entre as categorias Scow, de proa larga e projetos mais recentes, e Sharp, de proa fina, que também contam com premiação específica ao término da competição.