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Padre irlandês "assombrou" F1 e dançou em show de talentos

29 ago 2014
08h26
atualizado às 08h35
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Cornelius Neil Horan. Sim, é difícil relacionar o nome à pessoa. Padre irlandês que empurrou um maratonista brasileiro no momento em que a medalha de ouro olímpica parecia apenas questão de tempo. Ficou mais fácil? Certamente sim. Cornelius Neil Horan, atualmente com 67 anos, foi o sujeito que (literalmente) tirou Vanderlei Cordeiro de Lima do eixo, mas que, possivelmente, deu ao atleta canarinho a maior glória de sua carreira: a de ser reconhecido e virar exemplo de humildade e espírito esportivo no principal evento do planeta.

O fato que tornou Horan conhecido mundialmente e vilanizou a sua figura no Brasil completa dez anos nesta sexta-feira. Em 29 de agosto de 2004, Vanderlei Cordeiro de Lima caminhava, ou melhor, corria a passos largos para colocar o seu nome na galeria dos campeões olímpicos. Liderava a tradicional prova da maratona dos Jogos de Atenas, quando, a 7 km da chegada, foi empurrado por Cornelius e perdeu não só cerca de 13 segundos, como também a vitória que parecia certa. Foi ultrapassado por Stefano Baldini, da Itália, e pelo americano Meb Keflezighi, ficando na terceira colocação da prova.

Vanderlei, porém, não se importou: entrou no Estádio Panathinaiko fazendo corações para a torcida e festejando como se estivesse faturando o ouro. O atleta que mais tinha mais motivos para estar triste era o que mais estava feliz. O brasileiro teve o seu feito reconhecido: no fim do ano, foi homenageado pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) e recebeu a medalha Pierre de Coubertin, que exalta o alto grau de esportividade e o espírito olímpico demonstrado por um atleta durante a disputa dos Jogos.

Mas e Cornelius Horan? O que aconteceu com o padre irlandês que invadiu a prova da maratona em Atenas e tirou a medalha de ouro de Vanderlei Cordeiro de Lima? O que o motivou a fazer isto? Será isto que o Terra desvendará a partir de agora:

Foto: Nick Laham / Getty Images

Profecias do fim do mundo e expulsão da igreja

Cornelius Horan nasceu no condado de Kerry, sudoeste da Irlanda, em 22 de abril de 1947. Aos 26 anos, foi ordenado padre, mas desde então nunca se tornou unanimidade na Igreja Católica. Muito pelo contrário: foi sempre mal visto pela maiorida dos outros religiosos, que não aceitavam seus ideais. O estopim ocorreu quando ele publicou o livro "Um novo mundo de glórias está chegando", no início da década de 1990, no qual externava seus estudos e profecias sobre o fim do planeta. Consequência? Expulsão da Igreja irlandesa. Para transmitir suas mensagens, então, era necessário apelar para outro mundo: o esportivo.

Invasão em Silverstone e prisão

Com o intuito de divulgar "a sua religião", como a fez parecer, Cornelius passou a virar figura frequente em eventos de grande audiência e repercussão em todo mundo. A fama, porém, só foi conquistada em 2003, durante o Grande Prêmio de Silverstone de Fórmula 1. Vestido com trajes irlandeses, ele simplesmente invadiu a pista e correu por toda a Reta Hangar – na qual os carros atingem cerca de 280 km/h – com cartazes que ordenavam: “leiam a Bíblia” e “a Bíblia está sempre certa”. No fim, fiscais retiraram o padre da pista, Rubens Barrichello venceu a prova, e Cornelius ficou preso por apenas dois meses. O mundo, contudo, tinha um indício do estrago que presenciaria um ano depois.

Foto: Getty Images

Prévia em corrida de cavalos e empurrão em Vanderlei

Em 2004, Horan mostrou que “não estava de brincadeira” e invadiu o Derby de Epsom, tradicional prova de cavalos da Inglaterra, sendo retirado do evento apenas pela polícia. Ele não foi preso, mas passou a ser vigiado para não atrapalhar mais eventos esportivos. Não foi o suficiente. No dia 28 de agosto daquele ano, fechou a porta de sua casa em Londres, pegou três trens até o aeroporto e embarcou para a Grécia. Chegou à capital grega no dia seguinte e, na altura do quilômetro 35 da maratona, empurrou o então líder, Vanderlei Cordeiro de Lima.

Cornelius foi condenado a um ano de prisão, a pagar multa de 3 mil euros e também acabou proibido de comparecer a qualquer evento esportivo durante três meses. O irlandês também foi completamente afastado da Igreja Católica da Inglaterra. Depois de alguns anos, admitiu-se arrependido por ter atrapalhado o brasileiro – ele disse que seu objetivo era mostrar por alguns segundos o cartaz com os dizeres: "a segunda vinda de Cristo está próxima" - e revelou que fez algumas aulas de português para pedir desculpas a Vanderlei. O atleta o perdoou, mas eles nunca conversaram.

Foto: Nick Laham / Getty Images

Danças, Copa 2006 e volta aos Jogos

Afastado definitivamente da Igreja Católica da Inglaterra, Cornelius Horan vive há quase duas décadas em um quarto alugado em uma casa em Peckham, no sul de Londres. Sua esposa morreu em 2012, aos 92 anos, e ele se mantém graças a doações de religiosos com os quais ainda possui contato. Além disto, apresenta-se nas ruas da capital inglesa dançando “soft jig”, tradicional da cultura irlandesa, e ganha alguma renda com isto.

O caso mais curioso de sua “vida pós-Atenas” ocorreu em 2009, quando participou do programa Britain’s Got Talent, uma espécie de show de talentos da Grã-Bretanha. Nele, vestiu os mesmos trajes com os quais se tornou mundialmente conhecido e fez a folclórica dança irlandesa. Foi aprovado na primeira fase, mas os produtores disseram que “não haviam o reconhecido”. Na rodada seguinte, porém, acabou eliminado – a edição foi a mesma que revelou a cantora Susan Boyle.

<p>Cornelius Horan foi preso mais de uma vez por atrapalhar eventos esportivos</p>
Cornelius Horan foi preso mais de uma vez por atrapalhar eventos esportivos
Foto: Nick Laham / Getty Images

Apesar disto, Cornelius não abandonou os eventos esportivos mesmo após os incidentes de 2004. Em 2006, viajou à Alemanha e foi encontrado com cartazes de ataque a Hitler e planos de uma nova invasão, desta vez em um jogo da Copa do Mundo. A polícia agiu rápido e o deixou preso por nove semanas antes de enviá-lo de volta para a Inglaterra.

Sua última aparição ocorreu exatamente nos Jogos Olímpicos. Em Londres 2012, assistiu justamente à prova da maratona, mas foi cercado por policiais durante todo o tempo e ainda declarou torcida ao brasileiro Marilson Santos. No fim, o atleta verde e amarelo foi o quinto colocado, e Cornelius prometeu vir ao Rio de Janeiro para acompanhar os Jogos de 2016.

(Crédito das fotos: Nick Laham/Getty Images)

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Fonte: Terra

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