Varejo tem 'ressaca' da Copa do Mundo em julho e registra queda de 0,8% nas vendas
Resultado ocorre após pico de vendas em maio e junho; queda de 4,9% em móveis e eletrodomésticos foi a mais intensa desde dezembro de 2023
As vendas do varejo brasileiro caíram 0,8% em julho de 2026, atingindo o piso das expectativas após o fim da Copa do Mundo, segundo o IBGE. O recuo foi puxado por móveis e eletrodomésticos (-4,9%) e papelaria (-4,2%), segmentos que vinham aquecidos por TVs e álbuns do torneio. O varejo ampliado cresceu 0,4%, também abaixo do esperado. Para analistas e a CNC, o crédito ainda caro e o recorde de endividamento das famílias limitam o consumo e apontam para uma desaceleração no terceiro trimestre.
RIO - As vendas do comércio varejista recuaram 0,8% em julho de 2026 ante junho, na série com ajuste sazonal, de acordo com a Pesquisa Mensal de Comércio divulgada nesta terça-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Na comparação com julho de 2025, houve alta de 1,2%. No acumulado de 2026, o varejo restrito avança 1,8% e, em 12 meses, 1,6%.
O resultado mensal veio no piso das estimativas do Projeções Broadcast. A mediana apontava queda de 0,3%, com intervalo de queda de 0,8% a alta de 0,3%. No confronto interanual, o avanço de 1,2% ficou abaixo do esperado, cuja mediana era de 2,2%, com projeções entre 1,4% e 3,3%.
O gerente da pesquisa, Cristiano Santos, destacou que o recuo de julho ocorreu após dois meses de variações positivas, ainda que pequenas, de 0,2% em maio e 0,3% em junho.
Ele ponderou que o pico da série histórica segue próximo. Após três altas consecutivas no primeiro trimestre, o indicador atingiu o topo da série em março de 2026, renovando o recorde anterior de novembro de 2025.
"O mês de julho está 1,5% abaixo do topo da série. O pico continua muito próximo", disse.
Na leitura setorial, móveis e eletrodomésticos recuaram 4,9% em julho, e livros, jornais, revistas e papelaria caíram 4,2%. Segundo Santos, a Copa do Mundo influenciou o comportamento do varejo entre maio e julho, com uma "ressaca" em julho após o pico de vendas de maio e junho.
Eletrodomésticos x móveis
Ele afirmou que o movimento se relaciona mais com a parte de eletrodomésticos do que com móveis, devido à venda de televisores. "É um retorno ao que aconteceu na maior parte do ano e, principalmente, no primeiro semestre de 2026 para móveis e eletrodomésticos", afirmou.
A retração de 4,9% foi a mais intensa desde dezembro de 2023, quando o segmento de móveis e eletrodomésticos recuou 6,6%.
No caso de livros, jornais, revistas e papelaria, o técnico apontou influência do ciclo de vendas de álbuns de figurinhas do mundial. A atividade registrou forte alta em maio, de 17,3%, e recuo de 11,7% em junho na comparação com maio, mantendo queda em julho e com perda de fôlego também no interanual.
No varejo ampliado, que inclui veículos, material de construção e atacado alimentício, as vendas subiram 0,4% em julho ante junho, após queda de 1,1% em junho.
O resultado ficou abaixo da mediana do Projeções Broadcast, de 0,9%. Na comparação com julho de 2025, o ampliado cresceu 1,8%, também abaixo da mediana projetada, de 2,5%. No acumulado do ano, o ampliado avança 1,9% e, em 12 meses, 1,2%, ante 0,8% até junho.
Santos observou que, apesar do recuo do varejo em julho, indicadores macroeconômicos usualmente associados ao consumo estavam, em geral, favoráveis, o que sugere uma defasagem entre condições financeiras e resposta das vendas.
"Se você parear os principais indicadores que, em princípio, podem explicar o resultado do comércio varejista ou têm influência no comércio varejista, a maioria deles entra na equação como fatores positivos", afirmou.
Ele explica que a queda de juros não se traduz necessariamente no mesmo mês em expansão do crédito e em maior consumo. Além disso, as famílias podem direcionar recursos para poupança ou pagamento de dívidas.
Segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), o crédito caro e o orçamento familiar comprometido por dívidas seguiram limitando compras de maior valor no comércio varejista brasileiro em julho.
"Parte do comércio é altamente dependente de financiamento e o custo do parcelamento ajuda a explicar a queda nas vendas", diz o economista da CNC João Vitor Gonçalves.
A perspectiva do setor, na visão da CNC
Para o fechamento de 2026, a CNC projeta uma alta de 2,3% para o comércio. A inflação mais baixa de alimentos deve favorecer o consumo nos supermercados nos próximos meses. No entanto, a recuperação do varejo tende a ser desigual. O recorde do endividamento das famílias e o nível ainda elevado dos juros devem continuar limitando, em especial, o varejo mais dependente de crédito.
"A taxa Selic segue em patamar restritivo para a economia, embora o Banco Central siga com o ciclo de cortes. Simultaneamente, Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), apurada pela CNC, mostrou que 82,0% das famílias brasileiras estão endividadas, um recorde histórico", ressalta Gonçalves.
Analistas veem perda de tração
Entre economistas, a leitura predominante é de perda de tração na margem no início do terceiro trimestre. O Itaú avaliou que a pesquisa de julho é consistente com um terceiro trimestre fraco e afirmou que seu indicador proprietário sugere alguma melhora em agosto, sem recuperação forte, em linha com uma desaceleração gradual.
No ASA, o economista Leonardo Costa disse que os dados reforçam a visão de atividade mais fraca na margem e seguem compatíveis com PIB praticamente estável no terceiro trimestre, mantendo projeção de alta de 0,2% na comparação trimestral com ajuste sazonal, com enfraquecimento mais claro em itens de consumo discricionário.
A Terra Investimentos também apontou surpresa negativa e desempenho mais fraco nos principais setores, observando queda da média móvel de três meses, e passou a esperar recuo de 0,3% do IBC-Br na margem após os dados.
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