Unidade de negócios sustentáveis da Heineken quer expandir marcas após faturar R$ 256 mi no 1º ano
Heineken Spin trabalha com marcas de impacto, agricultura regenerativa e visa expandir reciclagem de vidro; empresa planeja estudos científicos e facilitar acesso à água potável para comunidades pobres
Estudar os DNAs encontrados nos estômagos de moscas não parece ter muito a ver com a produção de bebidas, num primeiro momento. Mas para a Heineken Spin, a unidade de negócios sustentáveis da fabricante holandesa de cerveja, esse conhecimento é importante para entender a biodiversidade na área de agricultura regenerativa de limão tocada pela companhia em Itu, no interior de São Paulo.
A pesquisa é um dos projetos da Spin para o próximo ano, após resultados considerados satisfatórios nos primeiros 12 meses, com faturamento de R$ 256 milhões. Os recursos vieram principalmente da venda de três marcas "de impacto": a água enlatada Mamba Water, a cerveja Praya e o chá Baer-Mate. Os números ainda não significam lucro, já que alguns dos projetos visam o médio e longo prazos.
"A lógica é de colocar esse propósito para o consumidor, trazer uma visão positiva para que as pessoas se engajem. A escolha dos projetos a serem apoiados é baseada nas lacunas que enxergamos, para sermos mais assertivos", afirma Mauro Homem, vice-presidente de sustentabilidade e assuntos corporativos da Heineken Brasil.
O caso da agricultura regenerativa é um dos exemplos. A companhia prevê que sejam gerados R$ 37 milhões em receitas por meio desse pilar até 2030, além de evitar um gasto estimado de R$ 53 milhões ao longo de 20 anos com as reduções de emissões de carbono. O projeto prevê a restauração de uma área com mais de 800 hectares e a geração de 120 postos de trabalho, sendo que 200 mil mudas nativas do bioma Mata Atlântica já foram plantadas em 142 hectares. Também se espera que, pelos produtos serem orgânicos, tenham acesso a mercados diferenciados, com rentabilidade maior.
As moscas são consideradas importantes para entender os impactos da lavoura na fauna e na flora local, já que se alimentam de matéria orgânica. Após os insetos serem capturados e mantidos a -20 ºC, os DNAs presentes em seus sistemas digestivos são analisados por pesquisadores, e é possível saber quais espécies de animais estão presentes na região — dessa forma, foi percebida a presença de onças-pardas, antas e três primatas diferentes.
Outra ação voltada para a agricultura regenerativa é a criação de "barraginhas", microbacias para ampliar a recarga dos lençóis freáticos, reduzir a erosão do solo e contribuir para o fluxo de córregos que alimentam o Rio Tietê perto de Itu.
O planejamento para o próximo ano inclui a instalação de estações de tratamento para o fornecimento de água potável na Ilha do Combu, em Belém, e em Benavides (PA). Apoiado pela marca Mamba Water, o projeto já está consolidado em Acopiara (CE), e deve ser expandido, também para ajudar a marca a crescer e ser mais vista pelos consumidores.
Pilares
A Heineken Spin trabalha principalmente com quatro pilares: atua na geração de energia renovável e na reciclagem de vidro, além da agricultura regenerativa e das marcas de impacto. A companhia tem um parque eólico no Ceará e parcerias para a produção de energia solar.
Em relação ao vidro, a Heineken investe em hubs para o processamento do material antes da reciclagem. Três já foram inaugurados, em Bahia, Pernambuco e Espírito Santo. "Queremos ampliar para outros territórios. Hoje o foco está no Nordeste porque é onde tem taxas menores de reciclagem, então é uma área mais promissora", comenta o VP de sustentabilidade. Já há faturamento neste pilar, mas a visão de obter maiores retornos financeiros está no longo prazo.
A Spin planeja o crescimento das marcas com o início de vendas das três na região Nordeste e o lançamento de dois novos rótulos não-alcoólicos. O volume de produção de Mamba, Praya e Baer-Mate cresceu quatro vezes entre julho de 2024 e julho deste ano, e a distribuição comercial — que considera canais e pontos de venda — saltou de 10 mil em 2024 para mais de 60 mil em 2025. "Elas ganharam força de comunicação, tem bons números de penetração e vendas, mas também de recompras do produto pelo cliente", relata o executivo.
Também neste pilar, um programa de aceleração para empreendedores de São Paulo que queiram produzir bebidas foi lançado em parceria com a Escola de Negócios da Favela. A ideia é incentivar pequenas marcas, ensinar lições sobre o mercado e, se alguma chamar mais atenção, investir.
"Queremos crescer em escala, distribuição e presença. Queremos que o consumidor perceba isso na essência, os benefícios das marcas. Consideramos esse um formato interessante para seguir crescendo, mostrar que são marcas autênticas, demonstrar resultados finais para as pessoas", avalia Homem.
Por isso, as causas apoiadas são centrais no processo de divulgação: acesso à água potável para Mamba Water, com a doação de um litro para cada lata vendida, e a proteção das praias para Praya. Baer-Mate ainda não tem uma causa para apoiar.
Essa também é a visão para evitar que a unidade caia na polarização política. "Não nos posicionamos com viés fundamentalista. Não estamos surfando numa onda e tentando ser oportunistas, querem construir algo para o futuro de longo prazo da Heineken", projeta Homem. Os projetos foram apoiados pela alta liderança global da empresa e atraem atenção das outras operações internacionais da companhia.
Avaliação
Para Heiko Spitzeck, diretor do Núcleo de Sustentabilidade da Fundação Dom Cabral (FDC), Spin pode ser uma iniciativa importante por conseguir colocar a Heineken de forma mais amigável para os consumidores. Segundo ele, além do aspecto reputacional, é importante avaliar se ajuda a reduzir custos, diminuir riscos e gerar novas receitas — o que é viabilizado pelos pilares, segundo ele.
"As novas gerações têm outros hábitos de consumo. Por isso, tem que inovar e se diferenciar. Nada melhor que marcas de impacto que não só geram reputação, mas também novas receitas. Nem todas as marcas da Heineken vão virar referência, mas se uma ou duas virarem, já valeu a pena", conclui o especialista.