Temor com petróleo e situação econômica leva taxa de juros da dívida de vários países ricos a disparar
As taxas de juros de longo prazo de vários países ricos superaram nesta quinta-feira (1°) recordes registrados há duas décadas, em meio à alta dos preços do petróleo e aos temores sobre a sustentabilidade da dívida pública pelos Estados. A França, que apresentou o seu projeto de orçamento para 2027 prevendo economias de € 43 bilhões, é um dos casos mais problemáticos.
O temor pela alta da energia e incertezas fiscais levaram os juros da dívida soberana de países ricos a níveis recordes de décadas, encarecendo o crédito global e derrubando as bolsas europeias. A França vive tensão redobrada devido ao alto endividamento e à crise política interna. Esse cenário eleva as expectativas de novas altas nas taxas básicas pelos bancos centrais, embora o setor de tecnologia resista com otimismo impulsionado pelos fortes investimentos em inteligência artificial.
A taxa para títulos franceses de dez anos disparou para 4,96%, contra 4,85% no dia anterior, um recorde desde 2002.
Nos Estados Unidos, a taxa equivalente atingiu 5,34%, acima dos 5,29% no dia anterior, o nível mais alto dos últimos 24 anos. No Reino Unido, o índice atingiu um pico não visto desde 2007, de 5,50%, enquanto a taxa para títulos de 30 anos ultrapassou, pela primeira vez desde 1998, a marca de 6%.
Tratam-se das taxas de longo prazo pelas quais os países se endividam nos mercados para financiar suas despesas e pagar suas dívidas. Embora os preços do petróleo estejam recuando ligeiramente, com a retomada das exportações de petróleo bruto do Golfo, a queda não basta para aliviar a pressão sobre o mercado de títulos.
Impacto em toda a economia
Os países não são os únicos a sofrerem essa pressão, que se repercute nas famílias e nas empresas, que também pagam cada vez mais caro para obter empréstimos. A alta dos preços da energia provoca uma aceleração da inflação em todas as grandes economias; por isso, os investidores antecipam novos aumentos das taxas de juros básicas por parte dos principais bancos centrais.
O rendimento dos títulos alemães de 10 anos, referência na Europa, chegou a subir para 3,64%, antes de retornar, ao meio-dia, ao nível da véspera (3,58%), patamar equivalente ao de 2009. Em outras partes do continente, a taxa italiana atingiu 4,69%, contra 4,61% no dia anterior.
Os títulos soberanos estão sob pressão há vários meses devido à disparada do preço do petróleo, à concorrência de gigantes da tecnologia que entram em massa no mercado de dívida para financiar a IA e aos receios quanto à sustentabilidade fiscal dos Estados.
França na linha de frente
Nesse contexto, a França é alvo de atenção especial, uma vez que o governo do primeiro-ministro Sébastien Lecornu apresentou, durante a manhã, seu projeto de orçamento para 2027, em meio a incertezas políticas crescentes.
Paris demonstra sua intenção de "recuperar" as finanças públicas do país. "A realidade está batendo à porta", afirmou o ministro Sébastien Lecornu no X, referindo-se ao montante crescente de juros que o país tem de pagar.
Os investidores duvidam cada vez mais da capacidade da França de aprovar o pacote, visto que a situação política está travada e o país apresenta um déficit e uma dívida em relação ao PIB entre os mais elevados da Europa.
Isso ocorre especialmente porque "o risco político francês não se limita mais ao Parlamento e já se projeta para 2027", às vésperas da eleição presidencial, observa John Plassard, analista da Cité Gestion Private Bank.
Bolsas sofrem, setor de tecnologia resiste
Nesse cenário, os mercados de ações sentem o impacto. Na Europa, no meio do dia, Paris recuava 1,21%, Londres 1,54%, Milão 0,97% e Frankfurt 0,54%. Os contratos futuros em Wall Street indicavam uma abertura cautelosa.
Nesse contexto desanimador, um setor se destaca: o de tecnologia. A gigante de chips Micron apresentou, na quarta-feira, previsões muito melhores do que o consenso dos analistas citados pela Bloomberg, o que impulsionou o entusiasmo dos investidores em relação a ações ligadas à inteligência artificial.
Na Ásia, os índices dispararam, uma vez que as empresas do setor de semicondutores, principais beneficiárias dos investimentos maciços das gigantes de tecnologia no desenvolvimento de IA, têm grande peso nesses mercados. Tóquio fechou com alta de 3,30%.
Com AFP
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