Setor externo vai bem, mas inflação enfeia a cena interna
Com crédito caro e custo de vida pressionado, o cenário projetado para 2027 permanece desconfortável para as famílias no Brasil
O comércio exterior brasileiro supera expectativas, acumulando superávit de US$ 62,39 bilhões até setembro e projeção anual de US$ 84,4 bilhões. Em contraste com a força das exportações, a economia interna patina devido à incerteza política e aos juros altos, com crescimento do PIB estimado entre 1,85% e 2,1%. Pressionada pela inflação resistente próxima do teto da meta, a redução da Selic segue lenta, mantendo o crédito caro e o custo de vida elevado para as famílias nos próximos anos.
Com superávit de US$ 7,74 bilhões em setembro e US$ 62,39 bilhões em nove meses, o comércio exterior brasileiro tem superado as projeções num ano de grande insegurança internacional e protecionismo crescente no mundo rico. O saldo acumulado é 34,8% maior que o obtido entre janeiro e setembro do ano passado. A projeção oficial para o ano foi reduzida de US$ 90 bilhões para US$ 84,4 bilhões, mas esse valor, se confirmado, ainda será 24% maior que o de 2025. As estimativas são do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.
O superávit projetado vai depender principalmente do sucesso das exportações de mercadorias, estimadas em US$ 382,5 bilhões, valor 9,8% maior que o alcançado um ano antes. As vendas externas têm crescido bem mais que a atividade econômica e isso deve repetir-se neste ano. Segundo projeção do mercado financeiro divulgada no início do mês, o Produto Interno Bruto (PIB), valor adicionado da produção de todos os setores, deve aumentar 1,85% em 2026.
Há quatro semanas o crescimento era estimado em 1,93%, mas as previsões têm sido afetadas pelas incertezas políticas e pela instabilidade internacional. Pouco mais otimista que as projeções do mercado brasileiro, o cenário recém-divulgado pelo Banco Mundial indica para o Brasil uma expansão de 2,1% neste ano, pouco inferior à calculada para o conjunto da América Latina e do Caribe, 2,2%. Juros altos, incerteza política e investimentos públicos mais fracos são apontados como entraves ao crescimento de alguns países da região, incluídos Brasil e México.
No caso brasileiro, a incerteza quanto à inflação dificulta um corte mais veloz da taxa básica de juros, a Selic. Desde o começo do ano essa taxa foi reduzida de 15% para 13,75%. Para dezembro, o mercado estima 13,50%. A projeção para o fim do próximo ano permanece em 12% há várias semanas, com inflação de 4,30%, ainda longe da meta central, 3%, e perto do teto, 4,50%. Com crédito caro e custo de vida pressionado, o cenário projetado para 2027 permanece desconfortável para as famílias. Nada, por enquanto, indica mudança relevante depois das eleições.
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