Sem cerimônia, golpistas vendem cartões clonados em perfis abertos nas redes sociais
Esquema ocorre através de contas no Twitter, que divulgam os cartões clonados e notas de dinheiro falsas
Com alguns cliques e sem sair de casa, qualquer um pode ter acesso a uma infinidade de cartões clonados e notas falsas sendo vendidas sem nenhuma cerimônia nas redes sociais. Os perfis deixam de forma escancarada a sua proposta na rede e usam os termos "Cartão Clonado" ou "CC" como identificação.
O esquema parece se repetir: através do Twitter, perfis anunciam grupos no WhatsApp para que, sem compromisso, o interessado em adquirir um cartão clonado veja os relatos de outros usuários. Ainda no próprio perfil aberto, o golpista deixa disponível um número de WhatsApp para que os interessados na compra entrem em contato. Apesar de ser tão explícito, pouca coisa é feita para coibir o crime.
Um dos perfis mapeados pelo Terra utiliza o nome de "Neymar Cartão Clonado". Com quase 4.000 seguidores, e ativo desde abril de 2022, já foram mais de 200 publicações feitas pelo golpista, que usa um número com o DDD do Estado de Mato Grosso.
Procurada, a Polícia Civil do Estado afirmou que assim que tomou conhecimento da existência do perfil, através da própria reportagem, passou a investigar o caso. Ainda assim, mesmo com o contato feito há mais de cinco dias, o perfil continua ativo na rede social.
O delegado Ruy Guilherme Peral da Silva, titular da Delegacia Especializada de Repressão a Crimes Informáticos (DRCI) da Polícia Civil do Mato Grosso, explicou que a internet é um campo muito vasto e, apesar dos mapeamentos feitos pelas equipes de inteligência, não é possível alcançar tudo.
"Algumas redes sociais não removem tão facilmente esses perfis. Têm algumas que tem uma política de privacidade mais forte e uma vez que identifique que determinado perfil está violando, já remove. Depende do caso", explica o delegado.
A evolução do golpe
A fundadora do Instituto de Pesquisa em Direito e Tecnologia do Recife (IP.rec), Raquel Saraiva, destaca a dinamicidade com que os golpes estão evoluindo. "As autoridades de investigação ficam um pouco reativas, não tem como você se adiantar a uma prática dessa ou prever que as pessoas vão começar a vender cartão clonado pela internet", afirma.
Um exemplo disso é a data de criação da própria DRCI do Mato Grosso, já citada anteriormente. A unidade em que trabalha o delegado Ruy Guilherme completou dois anos em dezembro de 2022. Nesse curto período, a delegacia já recuperou mais de R$ 5 milhões alvos de golpes, como fraudes eletrônicas, segundo afirma o delegado.
Raquel Saraiva salienta também que há uma responsabilidade das plataformas por onde esses golpes são anunciados. "Como são contas muito antigas, elas já poderiam ter passado por uma moderação, então é uma falha mesmo da empresa, da rede social, de não conseguir conter a prática criminosa dentro da plataforma. Ou esses filtros estão ausentes ou eles estão falhando em captar esse conteúdo criminoso na plataforma", diz a pesquisadora ao lembrar que encontramos um perfil ativo desde 2010 no Twitter.
Raquel destacou ainda que desde a compra do Twitter por Elon Musk, e as demissões em massa pela qual a rede passou, houve uma queda na segurança da plataforma. O Terra tentou contato com a assessoria do Twitter no Brasil, mas ela foi extinta em meio às demissões.
Já o WhatsApp informou não ter acesso aos conteúdos das mensagens trocadas pelos usuários por causa da tecnologia de criptografia de ponta a ponta como padrão. "O aplicativo encoraja que as pessoas reportem condutas inapropriadas diretamente nas conversas, por meio da opção 'denunciar' disponível no menu do aplicativo (menu > mais > denunciar). Os usuários também podem enviar denúncias para o email support@whatsapp.com, detalhando o ocorrido com o máximo de informações possível e até anexando uma captura de tela", diz por meio de nota.
A plataforma disse ainda que nos Termos de Serviço e na Política de Privacidade do aplicativo, "o WhatsApp não permite o uso do seu serviço para fins ilícitos ou que instigue ou encoraje condutas que sejam ilícitas ou inadequadas. Nos casos de violação destes termos, o WhatsApp toma medidas em relação às contas como desativá-las ou suspendê-las." O aplicativo também afirmou que está disposto a fornecer dados disponíveis às autoridades públicas para investigações.
Os golpistas que vendem cartões clonados nas redes sociais estão deixando uma série de rastros, segundo explica o delegado Ruy Guilherme. A polícia é capaz de investigá-los por três frentes: através dos dados compartilhados na compra do chip de celular, da conta no Twitter e no WhatsApp. "Apesar de não ter fronteiras, a internet não é terra sem lei", enfatiza o delegado da DRCI.
O Terra também entrou em contato com o Ministério da Justiça e Segurança Pública, que, em 2022, lançou o Plano Tático de Combate a Crimes Cibernéticos. Porém, a assessoria sugeriu que a reportagem entrasse em contato com a Polícia Federal para pedir informações sobre o assunto, que ainda estava com a demanda sob análise até o momento desta publicação.