Samarco aposta na descarbonização para sustentar demanda em meio a ciclo de minério barato
Presidente da mineradora, Rodrigo Vilela afirma em entrevista que companhia espera atingir sua capacidade máxima em março de 2028, para 'começar virada' e passar do prejuízo ao lucro
Para enfrentar o ciclo de baixa do minério de ferro, a Samarco aposta na alta do prêmio de suas pelotas, insumo estratégico para a descarbonização do aço. Com plano de investir R$ 13,8 bilhões até 2031, a mineradora prevê alcançar a capacidade máxima de produção e voltar a lucrar em 2028. A empresa mira a demanda de mercados como EUA e Índia para compensar a desaceleração chinesa, enquanto o acordo de Mariana traz previsibilidade e reduz os litígios jurídicos sobre as suas operações.
RIO - A queda do minério de ferro pressiona as mineradoras, mas a Samarco conta com um fator de proteção: a alta do prêmio das pelotas, impulsionada pela restrição de oferta no Oriente Médio. Com um produto que pode reduzir em até 80% as emissões de carbono na produção de aço, a companhia aposta na descarbonização para sustentar a demanda em um ciclo de preços mais baixos. A estratégia é ganhar fôlego agora para colher os resultados nos próximos anos.
Em entrevista exclusiva ao Estadão/Broadcast, Rodrigo Vilela, presidente da Samarco, detalha o plano de retomada, que prevê R$ 13,8 bilhões em investimentos até 2031. A empresa espera atingir a capacidade máxima em março de 2028 e passar do prejuízo ao lucro no mesmo ano. Até lá, trabalha com o minério cotado a cerca de US$ 90 por tonelada.
Além da China, a Samarco vê oportunidades na Índia e nos Estados Unidos, onde a política de Donald Trump de fortalecer a indústria de base favorece as pelotas brasileiras. Vilela afirma ainda que o acordo de reparação de Mariana reduziu os riscos jurídicos da companhia.
Leia, a seguir, a entrevista com o executivo.
Como o sr. vê o mercado de minério de ferro hoje?
Estamos em um ciclo de muita volatilidade. Há uma conjuntura de condições externas, com quase oito meses de guerra no Oriente Médio, e a consolidação do aumento enorme do preço do petróleo repercutindo em toda a cadeia — e impactando diretamente o frete — e a depressão do mercado, da demanda. Ao mesmo tempo, a oferta segue em alta. Há um efeito muito desafiador para nós, principalmente na América do Sul e no Brasil, que tem uma perna de exportação muito grande. É um ciclo de bastante pressão para a nossa indústria: aumento de custo, redução da receita e preços bastante voláteis.
Como o sr. avalia a dinâmica da oferta e demanda do minério?
Existe um aumento relativo de oferta, principalmente dos grandes produtores. Ao mesmo tempo, há uma queda do consumo na China e um aumento dos estoques por lá, impactando diretamente o preço. Já se vê paralisação de operações: as mineradoras que estão no terceiro quartil, na faixa superior de custos, já estão paralisando no Brasil. As nossas projeções e nossos orçamentos de 2027 e 2028 consideram uma depressão de preços em relação ao que a gente vinha praticando.
A situação é similar no mercado de pelotas?
A pelota tem um comportamento um pouco diferenciado, porque trabalha com prêmio, e o prêmio da pelota está aumentando. Isso acontece porque a oferta de pelota foi totalmente prejudicada pela guerra do Oriente Médio. Os produtores de lá estão com muita dificuldade de produzir. Então, o prêmio está positivo, o que compensa um pouco tanto o frete quanto a queda do preço (do minério). No caso da Samarco, estamos um pouco menos impactados na conta global e financeira.
No que se baseia a aposta em pelotas?
A pelota está no momento correto, porque é a opção de escolha do cliente para reduzir a emissão de carbono. Ele pode emitir até 70% menos carbono se comparado ao sinter feed (tipo de minério de ferro em pó fino) convencional na produção de aço. Para todos os clientes que estão num processo de transição energética, ou que já têm compromisso ou legislação com penalizações, a pelota aparece como um elemento fundamental de competitividade. Não somos classificados como mineral crítico, mas a nossa cadeia é bastante crítica nesse processo. Os nossos estudos de inteligência de mercado apontam para um crescimento bastante sustentado da demanda em função dos projetos de descarbonização que já estão em construção. O nosso modelo de negócio prevê um aumento importante de demanda e nós estamos aqui, então, para garantir a oferta.
Como andam os investimentos para a retomada?
Do ponto de vista financeiro, são R$ 13,8 bilhões até 2031, com recursos da Samarco. Em março de 2028, vamos chegar à capacidade máxima, de 25, 26 milhões de toneladas de finos e pelotas. A gente mantém, mesmo que as condições macroeconômicas não estejam favoráveis momentaneamente, porque acreditamos nos fundamentos do mercado e, principalmente, no potencial que a pelota tem, especialmente a partir de 2029, 2030, quando tivermos toda a nossa cadeia funcionando 100%. A gente termina 2026 "on time and budget", ou seja, cumprindo o projeto, tanto no cronograma quanto no financeiro. 2027 é um ano de grande intensidade de capital e de grande investimento na área social, principalmente em pessoas. Vamos contratar cerca de 4 mil pessoas em 2027, entre diretos e contratados, para o projeto de alcançar 100% da capacidade produtiva instalada.
Quando a companhia deixa o prejuízo contábil e vira para o azul?
Em 2028 já chegaremos e começaremos a trabalhar numa relação de lucro muito mais sustentável do que a que temos hoje, e começaremos a nossa virada.
Como fica a conciliação entre o investimento e a reparação?
O investimento na retomada é feito com recursos próprios da Samarco, e eventualmente podemos fazer alguma captação. Temos dinheiro em caixa e linhas de crédito abertas. Na reparação, quando a Samarco não consegue (dar) contribuição, a Vale e a BHP fazem os aportes. E tudo que fazem como aporte é convertido em integralização de capital na Samarco.
Qual a expectativa para o preço do minério?
Para o Platts (índice de referência), ao redor de US$ 90 até 2027.
A eleição presidencial traz impactos?
Temos o nosso mapeamento de risco, oportunidades e desafios, e nos preparamos para qualquer cenário. Para a indústria como um todo — não só a mineração nem só a Samarco —, as mudanças de legislação que estão ocorrendo agora podem trazer impacto de custo. Além disso, a oportunidade no novo governo é fazer a redução dos juros. Juros a 14% dificultam qualquer atividade comercial e aumentam de forma muito significativa toda a cadeia de custo, o que se reflete no preço final. A gente sempre aguarda que as transições e as mudanças de governo possam trazer novas perspectivas. Esse talvez seja o grande copo cheio dessa mudança: taxa de juros e maior previsibilidade na economia, para nos sustentar internamente. Nosso produto é exportado, então dependemos muito mais da economia global do que da brasileira. Mas a brasileira nos traz sustentação de custo, que é fundamental para manter a operação quando o mercado global está deprimido, como está agora.
Essa depressão de preços dura mais um tempo?
O nosso mercado é cíclico, sempre foi. A depressão já era esperada, principalmente pela queda do consumo na China, já era esperada e já vem ocorrendo nos últimos anos. A China provavelmente vai continuar reduzindo seu consumo de aço como um todo, o que impacta diretamente o minério, mas tem uma dinâmica interessante: consegue fazer grandes incentivos de maneira muito rápida. As expectativas estão principalmente na Índia e em mercados emergentes. E há um mercado muito importante que vem aumentando o consumo: o americano. A política do Donald Trump de levar de volta a indústria de base para os EUA tem afetado de maneira positiva o Brasil, porque somos mais competitivos que os chineses para os americanos, principalmente por causa da distância. Já percebemos um aumento importante do mercado americano na cadeia de produção, principalmente de pelota. As siderúrgicas consomem a pelota numa perspectiva de descarbonização e de economicidade.
Após encerrar a recuperação judicial, a Samarco pretende voltar ao mercado de crédito ou realizar novas emissões?
Ainda não. Estamos estudando uma renegociação dos nossos bonds e uma nova emissão, mas isso é uma perspectiva. Ainda não está na hora.
Como vocês enxergam o Novo Acordo do Rio Doce dois anos após a assinatura?
O que percebemos nesses dois últimos anos é essa despressurização dos litígios, trazendo previsibilidade tanto financeira quanto jurídica muito melhor. O desembargador Ricardo Machado Rabelo (que coordenou a mesa de repactuação) sempre falava em pacificação total do território. (...) O acordo traz uma reorganização nas obrigações de fazer e de pagar e na percepção geral. (...) Isso se reflete em melhores provisões para a Vale, para a BHP e para a Samarco. (...) E os riscos jurídicos diminuem brutalmente, e temos previsibilidade do que entregar e de quando entregar. Isso traz previsibilidade financeira e, principalmente, permite verificar a sensação da entrega.
Como estão os desembolsos do acordo?
Quase metade do valor, 48%, já foi investida nesse primeiro período, apesar de o acordo ser de 20 anos. E com entrega concreta. O número é importante, mas a entrega concreta traz essa completude: o dinheiro e a percepção de que ele está chegando onde tem que chegar, na ponta. Primeiro, as indenizações; segundo, as obras; terceiro, as obrigações que o governo e os municípios estão fazendo. A quantidade de hospitais e de quilômetros de rede de água potável e saneamento básico que construímos nesses dois anos é incrível.
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