Bradesco cresce lucro sob ventos contrários, mas inadimplência limita recuperação estrutural
Banco apresentou o 11.º trimestre consecutivo de crescimento sequencial do lucro líquido, mas resultados elevaram desconfiança na Faria Lima em relação ao ritmo de sua recuperação
O Bradesco registrou lucro líquido de R$ 7,1 bilhões no terceiro trimestre, alta anual de 14,6%, mas a elevação da inadimplência para 4,6% e o aumento das provisões para R$ 10,6 bilhões acenderam o alerta do mercado. O cenário econômico adverso no crédito rural, de PMEs e no varejo reduziu a rentabilidade e levou o banco a adotar maior cautela na concessão de crédito. Embora o controle de custos e as receitas de serviços ajudem, analistas já temem a perda de fôlego na recuperação da instituição.
Enquanto navega sob a bússola de um ambicioso plano de transformação estratégica, o Bradesco cumpriu parte do dever de casa ao apresentar o 11.º trimestre consecutivo de crescimento sequencial do lucro líquido. Mas os ventos que sopram nos mares revoltos da economia levam a um aumento na inadimplência, diante dos ruídos nas carteiras de pequenas e médias empresas, varejo de pessoa física e do recém-comprado banco John Deere, focado no financiamento ao agronegócio.
A metáfora, descrita pelo presidente do banco, Marcelo Noronha, dá o tom da cautela que tem ditado a estratégia da instituição: "Se tivéssemos sob o evento de popa da economia, com crescimento maior e juros abaixo de 10%, olha que cenário teríamos. Poderíamos estar crescendo carteira em 20%", afirmou, durante teleconferência para comentar os resultados do terceiro trimestre.
Em vez disso, o quadro é de taxa Selic persistentemente em dois dígitos e incertezas sobre a política fiscal. "Com comprometimento da renda das famílias maior e endividamento das empresas, temos que ter mais cautela e andar mais devagar", disse o executivo.
Na Faria Lima, a mensagem eleva a desconfiança em relação ao ritmo da recuperação estrutural do Bradesco. No início da tarde, as ações ordinárias e preferências chegaram a registrar queda de mais de 1%. Há um temor de que o primeiro grande banco a divulgar resultados tenha sido um prenúncio de um ciclo mais difícil que o esperado.
Para se proteger, o Bradesco intensifica a rotação da carteira de crédito em favor de operações com garantia, mas com uma margem financeira e rentabilidade mais contidas. A dinâmica, porém, foi parcialmente compensada pelo controle dos custos e resiliência nas receitas com serviços. Com isso, o lucro líquido recorrente somou R$ 7,1 bilhões no terceiro trimestre, um crescimento de 14,6% em relação a igual período do ano passado, mas de apenas 0,8% frente aos três meses anteriores.
Retorno
O retorno sobre o patrimônio (RoE), em 15,6%, representou um revés na ambição declarada de alcançar níveis mais competitivos de rentabilidade. Mas há uma ressalva importante: o indicador foi diluído pela operação de aumento de R$ 10 bilhões no capital, sem o qual a métrica teria ficado praticamente estacionada em 16,1%.
O resultado foi pressionado também pelo crescimento anual de 24% nas despesas com provisões para devedores duvidosos (PDD), que alcançaram R$ 10,6 bilhões no trimestre. Como proporção da carteira, indicador conhecido como custo de crédito, as provisões avançaram de 3,3% para 3,7% em 12 meses. Segundo o banco, os principais vilões incluíram os segmentos rural e alguns grupos de cartão de crédito para pessoa física. O John Deere, de financiamento de maquinário e equipamentos agrícolas, também compôs o movimento.
Em pequenas e médias empresas, as linhas com garantia de programas do governo contribuíram com metade do aumento da inadimplência na passagem trimestral. Esses mecanismos garantidores oferecem período de carência que pode chegar a 24 meses. Depois disso, o banco precisa esperar mais um período até poder solicitar a honra da garantia. Nesse ínterim, a operação acaba entrando na métrica de atrasos.
Tudo somado, a inadimplência acima de 90 dias avançou de 4,3% em junho para 4,6% em setembro. "Eu vejo um horizonte de mais crescimento de custo de crédito, de inadimplência no mercado, mas eu tenho uma segurança de que a nossa carteira é muito mais controlada do que a do sistema financeiro como um todo", assegurou Noronha.
No lado das receitas com juros, o aumento no colchão contra calotes penalizou a margem financeira líquida, que desconta justamente as despesas com provisões. Há ainda uma pressão do mix de crédito mais conservador, que protege o balanço com linhas mais seguras, mas com spreads no geral mais baixos. Neste cenário, a margem com clientes teve alta anual de 10,1%, a R$ 20,5 bilhões no trimestre. Já a margem com mercado, que reflete atividade de tesouraria, recuperou-se para R$ 875 milhões e deve alcançar cerca de R$ 3 bilhões no ano, segundo os executivos do banco.
A desaceleração da margem, contudo, ficou em parte compensada por um desempenho forte em receitas com serviços, sobretudo em mercados de capitais e rendas de cartões de crédito. O banco também avançou na trajetória de melhora da eficiência, com queda de cerca de 1% nas despesas operacionais, a R$ 16,3 bilhões.
Para analistas, a soma das variáveis indica um equilíbrio delicado entre contínua recuperação estrutural e contratempos na qualidade de ativos. "Entendemos que o trimestre preserva a trajetória de recuperação, mas sem folga: o próximo estágio da tese dependerá de o banco voltar a crescer a carteira sem nova piora da inadimplência", afirma Eduardo Nishio, da Genial Investimentos.
"Ainda tem gás no tanque?", perguntam os analistas do BTG ao analisar o balanço do banco. Para a equipe liderada por Eduardo Rosman, os resultados indicam uma perda de fôlego no ritmo de recuperação do lucro da instituição, criando um ponto de partida mais desafiador para os ganhos de 2027 e risco de queda para as estimativas do mercado para o banco.
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