Por que olhar apenas uma queixa pode não ser suficiente? Atendimento multidisciplinar muda a forma de cuidar do paciente
Fundador do Instituto Willian Ortega explica por que reunir diferentes especialidades pode ajudar a construir um acompanhamento mais amplo e individualizado
Defendido pela OMS e pelo Ministério da Saúde, o atendimento multidisciplinar busca superar a fragmentação do cuidado ao integrar diferentes especialidades focadas nas necessidades reais do paciente. Essa abordagem evita procedimentos excessivos e garante uma visão ampla da saúde, princípio adotado pelo Instituto Willian Ortega ao expandir seus serviços para além da estética, unindo áreas médicas complementares para oferecer diagnósticos mais precisos e tratamentos verdadeiramente integrados.
Um paciente chega ao consultório com uma queixa específica, mas, durante a avaliação, outros fatores podem aparecer. O que inicialmente parecia uma demanda isolada pode envolver alimentação, alterações metabólicas, saúde da pele, questões funcionais ou até a necessidade de avaliação por outro especialista. É justamente aí que olhar apenas para o motivo inicial da consulta pode ser insuficiente.
A discussão sobre um cuidado menos fragmentado não se limita às clínicas particulares. A Organização Mundial da Saúde (OMS) defende modelos de atenção integrados e centrados nas pessoas, nos quais diferentes serviços e profissionais atuem de forma coordenada de acordo com as necessidades de cada indivíduo. Segundo a organização, mesmo onde existe acesso aos serviços de saúde, o atendimento ainda pode ocorrer de maneira fragmentada.
Dados mais recentes ajudam a dimensionar o desafio. O relatório Health at a Glance 2025, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), mostrou que, entre usuários da atenção primária com condições crônicas nos países avaliados, apenas 59% relataram uma boa coordenação dos cuidados recebidos. A entidade alerta que, quando um paciente passa por diferentes profissionais e serviços sem integração, podem surgir necessidades não atendidas, uso excessivo de serviços e piores resultados de saúde.
No Brasil, o próprio Ministério da Saúde trabalha com equipes multiprofissionais na Atenção Primária e destaca que profissionais de diferentes áreas podem atuar de maneira complementar para oferecer um cuidado integral. Em agosto de 2026, o Ministério publicou novas diretrizes para a organização e operacionalização dessas equipes.
Para o Dr. Willian Ortega, fundador do Instituto Willian Ortega, a lógica também pode ser aplicada ao atendimento realizado em clínicas privadas.
"Nem sempre aquilo que leva o paciente até o consultório representa tudo o que precisa ser avaliado. Ele pode chegar buscando uma solução específica e, durante a conversa e a avaliação, percebemos que existem outros fatores envolvidos. É nesse momento que saber encaminhar e trabalhar junto com outros profissionais faz diferença", explica.
Quando diferentes especialidades precisam conversar
A proposta multidisciplinar não significa que vários profissionais devam participar de todos os atendimentos. O princípio é outro: reconhecer os limites de cada área e identificar quando uma necessidade exige um olhar complementar.
A própria OMS define os serviços integrados como aqueles organizados para oferecer um contínuo de promoção da saúde, prevenção, diagnóstico, tratamento, manejo e reabilitação, com coordenação entre diferentes níveis e locais de atendimento. A organização também aponta as equipes multidisciplinares como parte desse modelo.
Na prática, isso pode ocorrer em situações bastante diferentes. Um paciente em processo de emagrecimento, por exemplo, pode demandar acompanhamento nutricional e médico e, posteriormente, apresentar questões relacionadas à pele ou ao excesso de tecido. Da mesma forma, uma pessoa que procura inicialmente um procedimento estético pode apresentar uma condição que precise ser avaliada por outro profissional antes de qualquer intervenção.
"Trabalhar de forma multidisciplinar não é fazer tudo para todo mundo. É justamente o contrário. É reconhecer quando determinado caso precisa de outro conhecimento e colocar o paciente no centro dessa decisão", afirma Ortega.
Essa percepção também motivou uma reformulação no Instituto Willian Ortega, em Cascavel, no Paraná. Em 2026, o espaço ampliou sua atuação e passou a reunir profissionais de diferentes áreas, incluindo cirurgia plástica, urologia, nutrologia, cuidados com a pele e estética.
A mudança surgiu após a equipe observar que parte dos pacientes chegava procurando um procedimento determinado, mas apresentava outras necessidades durante a avaliação. Em vez de manter cada demanda isolada, a proposta passou a ser facilitar o diálogo entre diferentes especialidades quando o caso exigir.
"A estética continua fazendo parte do Instituto, mas não queremos que o paciente seja enxergado apenas a partir de um procedimento. Se durante uma avaliação percebemos que existe algo que precisa ser acompanhado por outro especialista, esse caminho precisa fazer parte do planejamento", explica Willian.
A transformação também representa uma nova etapa para o Instituto, que amplia sua atuação para além da área pela qual Ortega ficou conhecido profissionalmente.
Multidisciplinar não significa excesso de atendimento
Ter diferentes especialidades disponíveis também exige cuidado para que a proposta multidisciplinar não seja confundida com a realização indiscriminada de consultas, exames ou procedimentos.
O foco, segundo Ortega, deve permanecer na necessidade individual.
"Não é porque existem vários profissionais disponíveis que o paciente precisa passar por todos eles. A avaliação precisa indicar o que realmente faz sentido. O objetivo é ter outras possibilidades quando elas forem necessárias e não criar etapas que o paciente não precisa cumprir", destaca.
Essa preocupação acompanha uma discussão internacional sobre modelos de saúde centrados na pessoa. Em documento sobre integração do cuidado, a OMS defende uma mudança de sistemas organizados principalmente em torno de doenças e instituições para modelos capazes de observar o indivíduo de maneira mais ampla e coordenar os serviços ao longo de sua trajetória.
Para Willian, essa é também uma mudança de mentalidade dentro dos espaços privados de saúde.
"Quando diferentes profissionais conseguem conversar, cada um continua atuando dentro da sua especialidade, mas existe uma visão mais ampla daquele paciente. A pergunta deixa de ser apenas 'qual procedimento ele veio fazer?' '. Essa é a direção que queremos fortalecer dentro do Instituto", conclui.
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