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BB vê tração em renegociação de dívidas rurais e projeta superar R$ 20 bi em prorrogações

Para Gilson Bittencourt, MP deve ajudar a reduzir o provisionamento de dívidas do setor no médio prazo

21 out 2026 - 16h01
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Resumo
O Banco do Brasil acelerou a renegociação de dívidas rurais via MP 1.376 e projeta superar R$ 20 bilhões em prorrogações até 12 de novembro. Com R$ 15,9 bilhões já em andamento, a instituição flexibilizou garantias para agilizar os acordos e utilizar integralmente os R$ 12,4 bilhões em subsídios do Tesouro. O banco descarta crise estrutural no setor e aposta na alta dos preços das commodities e na nova safra para aliviar a inadimplência e recuperar a capacidade de pagamento do produtor.

BRASÍLIA - Após um início lento, o Banco do Brasil observou que a renegociação de dívidas rurais no âmbito da Medida Provisória (MP) 1.376/2026 ganhou tração ao longo das últimas duas semanas. Ao todo, o banco já renegociou R$ 3,3 bilhões em operações, enquanto R$ 6,5 bilhões em operações já analisadas estão na esteira para aprovação. Juntas, as operações somam 6.271 propostas.

Outros R$ 6,1 bilhões em operações estão em análise pelas agências do banco, totalizando R$ 15,9 bilhões em operações já renegociadas, em aprovação e em análise, o equivalente a 13 mil propostas.

O banco, líder em crédito rural no País, projeta superar R$ 20 bilhões em reestruturação de financiamentos de produtores rurais até o fim da vigência da MP, em 12 de novembro.

"Temos expectativa muito alta de execução das renegociações. Com o avanço das últimas duas semanas, devemos ultrapassar R$ 20 bilhões em renegociações entre recursos equalizados, recursos direcionados do depósito à vista, da poupança rural e recursos a taxas livres", avaliou o vice-presidente de Agronegócios e Agricultura Familiar do banco, Gilson Bittencourt, em conversa com jornalistas.

Ao todo, considerando os demais agentes financeiros do mercado, R$ 10,7 bilhões já foram renegociados por meio da MP 1.376/2026, segundo dados do Banco Central. Com o avanço das renegociações, a expectativa é de que os R$ 25,8 bilhões liberados pelo Tesouro para subsidiar as operações sejam consumidos até o fim do prazo da MP. Desse montante, o BB responde por R$ 12,4 bilhões, valor que deve ser utilizado integralmente, segundo o banco.

Segundo Bittencourt, o banco iniciou o processo de renegociação voltado aos produtores inadimplentes - aqueles com prestações de empréstimos em atraso -, a fim de que esses produtores tivessem o acesso ao crédito reabilitado para contratar o Plano Safra, antes de focar, em um segundo momento, também os produtores adimplentes com dificuldades de pagamento.

"Verificamos que a renegociação dos inadimplentes veio em patamar menor do que imaginávamos", apontou Bittencourt. De acordo com o executivo, havia uma expectativa por parte de produtores de que a MP não iria "rodar" e de que poderia haver outro instrumento para a reestruturação. Outra parcela relatou ao banco não ter interesse em fazer a prorrogação nas condições previstas na MP, mesmo com enquadramento na medida, e que buscaria outra alternativa.

Em média, entram na esteira do banco cerca de R$ 500 milhões por dia em novas operações de renegociação. "Estamos com muita tração. Estamos bastante animados com esse andamento", pontuou. A maior parte das operações renegociadas envolve recursos a taxas controladas, segundo Bittencourt, principalmente de grandes produtores que possuíam empréstimos a taxas livres. Já aqueles que tinham operações com taxas controladas ou que, eventualmente, já fizeram outras prorrogações não buscam a renegociação com o mesmo ímpeto, afirmou.

Para alcançar um número maior de produtores dentro do prazo exíguo até o fim da renegociação, o banco vem flexibilizando a exigência de garantias e outras condições para facilitar a repactuação, priorizando a análise da capacidade de pagamento.

"Estamos correndo com as nossas operações, fazendo de tudo para agilizar o processo. A MP vence em 12 de novembro e os recursos estão começando a ficar escassos", alertou. Segundo Bittencourt, o banco tem feito busca ativa de produtores para regularização das dívidas, seja com a MP, seja com outras linhas próprias de reestruturação. "O banco quer continuar emprestando (para o setor). O agro é a essência do banco", defendeu.

Apesar do avanço da renegociação, a pressão da inadimplência "continua alta", segundo Bittencourt. "Os inadimplentes vieram em um patamar menor do que os adimplentes com carteira prorrogada", disse. Na análise do executivo, parte dos produtores mantém a expectativa de que ainda ocorrerá alguma forma de anistia ou perdão da dívida, o que gera o chamado risco moral: quando mesmo aqueles que possuem capacidade de pagamento atrasam os empréstimos na expectativa de novas medidas.

Para Bittencourt, a perspectiva de aumento de rentabilidade para a nova safra deve ajudar no alívio da inadimplência no agronegócio, somada à previsão de produtividade elevada e de estabilidade na área plantada.

"O preço do arroz saiu de R$ 58 a R$ 60 por saca e hoje sinaliza acima de R$ 80 por saca; a soja saiu de R$ 115 a R$ 120 por saca para contrato futuro de R$ 155 a R$ 160 por saca; o milho também está cotado acima de R$ 60 por saca. Café e carnes também seguem com expectativa boa de preço. São preços que remuneram o produtor, estimulam o plantio e esse aumento amplia a margem do produtor porque os custos já estavam dados", exemplificou. Nesse cenário, a expectativa é de que a nova safra gere maior capacidade de pagamento dos financiamentos pelos produtores.

A perspectiva do BB é de estabilização da inadimplência a partir deste trimestre e, na sequência, um movimento gradual de queda. Ao fim do primeiro semestre de 2026, a inadimplência da carteira de agro do BB ficou em 6,27%. O indicador é referente a operações com atraso acima de 90 dias.

"A inadimplência do agro do BB é menor do que a inadimplência no mercado de agro. No BB, a inadimplência do agro pesa mais porque a carteira de agro representa um terço do total, mas segue abaixo do mercado e com expectativa de que, aos poucos, vá melhorando", apontou, citando que a instituição financeira ampliou as exigências de garantias para se resguardar no momento. "Ainda vai continuar em patamar alto até buscarmos estabilidade para o ano que vem", continuou. O processo de redução da inadimplência deve avançar também à medida que houver redução do risco moral.

Para Bittencourt, a Medida Provisória que permite a renegociação das dívidas rurais deve ajudar a reduzir o provisionamento de dívidas do setor no médio prazo. "A MP vai ajudar pouco no provisionamento no curto prazo, mas, no médio prazo, vai ajudar bastante. A reversão do provisionamento não é uma ação igual e imediata entre as operações", observou.

Quanto às recuperações judiciais registradas no agronegócio, Bittencourt avalia que houve banalização de um instrumento legal - o processo de recuperação judicial -, com uso até mesmo por produtores com capacidade de pagamento ou com possibilidade de desmobilização de ativos. "É um instrumento legal e uma alternativa para alguns produtores. Começamos a ver casos de pedidos de RJs se transformando em falência, com uma dívida muito maior que a original e, às vezes, uma perda maior para o produtor", afirmou.

Bittencourt comentou que o provimento do Conselho Nacional de Justiça no primeiro semestre, com orientações sobre as RJs, contribuiu para homogeneizar o entendimento dos juízes quanto ao instrumento. "Não acho que elas vão acabar amanhã. As RJs vão continuar, mas, quanto mais cumprirem as condições e a função para as quais foram criadas, será muito melhor ao setor", pontuou.

O BB descarta crise no agro. "O agro está pujante. Entendemos que dá para buscar o rearranjo das contas dos produtores neste período de renegociação de sete a oito anos", disse. Na análise de Bittencourt, o endividamento recorde do setor deriva de fatores como arrendamento a preços elevados em momento de alta dos preços internacionais, imobilização de capital pelos produtores, investimento elevado do setor no boom de preços, intempéries climáticas que afetaram a produção e prorrogações sucessivas de operações.

"As renegociações anteriores surtiram efeito e foram eficazes, olhando para o agro a partir da situação do agro e analisando o aumento da produção brasileira, da produtividade, da renda do setor, da qualidade de vida e do PIB gerado pelo agro. Apesar das dificuldades, o agro cresceu e se desenvolveu. Há endividamento, mas não há descapitalização", afirmou. O executivo defendeu avanços em seguro rural e em mecanismos que ajudem o produtor a mitigar riscos, bem como incentivos para que o setor "gere poupança" em momentos de maior rentabilidade, a fim de enfrentar períodos adversos.

Segundo Bittencourt, o banco espera manter a participação no financiamento ao agronegócio, entendendo que o setor é cíclico. Ao fim do primeiro semestre, a carteira de agronegócios do banco atingia saldo de R$ 421,6 bilhões.

Estadão
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