País investe pouco em tecnologia e apela para as importações
A balança comercial da indústria brasileira de bens de capital apresenta um déficit constante, reflexo da necessidade de o país importar grande parte do maquinário empregado na produção nacional. Entre os mecânicos, por exemplo, a importação entre janeiro e outubro de 2012 chegou a US$ 25,1 bilhões, enquanto as exportações atingiram menos da metade desse valor - US$ 10,7 bilhões (ambas cotações em dólar FOB). Para o presidente da Associação Brasileira dos Importadores de Máquinas e Equipamentos Industriais (Abimei), Ennio Crispino, o cenário tem duas explicações principais: a falta de condições para investir em pesquisa e desenvolvimento; e a vocação do Brasil para ser um país exportador de manufaturas, em vez de tecnologia de ponta.
Os maiores fornecedores do Brasil nesse setor são a China, os Estados Unidos e a Alemanha, que estão mais avançados em pesquisas nessa área, destaca o professor de Economia Internacional da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Evaldo Alves. "São países que investiram mais em tecnologia e desenvolvimento", diz Alves. Por aqui, o setor tem força, mas não chega a ser tão competitivo. Por isso, em 2010, as importações da indústria de bens de consumo corresponderam a 22,6% das entradas no País, totalizando quase R$ 41 bilhões, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC). "Para muitos tipos de equipamentos, não há produção local com tecnologia de ponta e, muitas vezes, também não há em quantidade suficiente", resume Crispino. Outra vantagem da importação de máquinas é que a tecnologia já consolidada apresenta uma qualidade superior e menor possibilidade de falhas do que o produto nacional. Esse fator traz uma economia na manutenção desse maquinário, que pode compensar o investimento feito pela empresa.
Para reverter esse quadro, Alves observa que tanto governo quanto iniciativa privada deveriam ampliar seus investimentos em pesquisa e tecnologia. Segundo ele, menos de 20% do que é produzido no País é destinado à aquisição de novas máquinas e à pesquisa industrial. Em outros países, o índice médio é 30%, podendo chegar a 40%, como na China. Não se trata, segundo o professor da FGV, de tornar a indústria de bens de capital completamente nacional - o que seria arriscado, uma vez que os produtos perderiam competitividade frente à produção altamente tecnológica e mecanizada de outros países. "É uma questão de gestão de qualidade e maior acesso ao mercado, uma vez que produtos mais sofisticados têm maiores chances de venda", afirma Alves.
O presidente da Abimei se mostra pessimista em relação à possibilidade de o País aumentar os investimentos na indústria de bens de capital. "Hoje, ela já tem uma dificuldade até de sobrevivência, quanto mais de investir parte do faturamento em pesquisa e desenvolvimento", critica. Entre as soluções disponíveis, Crispino comenta a possibilidade de as empresas brasileiras estabelecerem parcerias com fabricantes estrangeiros para investir em alta tecnologia. Para ele, essa seria uma das únicas possibilidades de o País competir com aqueles que detêm uma tecnologia de vanguarda. Outra medida seria incentivar a manufatura sem pressionar o mercado com medidas protecionistas para a aquisição das máquinas nacionais, o que geraria ineficiência no setor, segundo o presidente da Associação. "Os meios de produção importados não são nocivos ao País. O Brasil precisa deles para crescer, não há outra forma. Eles estão longe de poder ser considerados os vilões da história", avalia Crispino.
Imposto de importação onera empresas do setor
A maior necessidade por esse tipo de máquina vem da indústria automobilística, que requer peças de alta precisão para atender às exigências das montadoras. Entre outros exemplos, Crispino cita a indústria de petróleo e gás e a médico-hospitalar (que produz próteses ortopédicas). O setor de biotecnologia, enumera Alves, também recebe o apoio de tecnologia estrangeira. A desvantagem das importações, contudo, está no preço final cobrado do consumidor pelo produto. Antes, os importados desse setor eram taxados entre 14% e 16% ao entrar no País. Neste ano, porém, a Câmara de Comércio Exterior (Camex) reduziu essa alíquota para 2%. A Abimei, no entanto, defende a eliminação do imposto de importação, bem como a redução de outros encargos que incidam sobre as despesas de capital e pesam no orçamento das empresas.
Hoje, os incentivos costumam beneficiar os consumidores, na tentativa do governo em alavancar as vendas de determinado produto e escoar estoques - a exemplo da redução de IPI para automóveis e artigos da linha branca. Para tornar o País mais competitivo, entretanto, Crispino destaca que seria necessário reduzir o custo Brasil e injetar novos investimentos na produção. "Somente com isso você deixa a mercadoria mais barata. Aí poderão tirar do faturamento para investir em tecnologia", analisa o presidente da Abimei. Além disso, os impostos arrecadados pelo próprio consumidor funcionariam como uma compensação. "O que a companhia vai produzir com a máquina já é um interesse para o governo. O empresário vai vender mais, e esse vai ser o benefício", enfatiza.