"Colônias" integram a economia das "metrópoles"; saiba como
A crise financeira que abalou as grandes economias mundiais e elevou a taxa de desemprego na Zona do Euro para 12% em fevereiro de 2013 (era de 7,3% no mesmo mês de 2007, conforme a Eurostat, agência de estatísticas da União Europeia) se espalhou mundo afora sem permitir que país algum escapasse ileso. Mas atacou especialmente os 54 territórios que ainda hoje são ligados a outros países, resquícios do período colonial. O número aumenta se contabilizados departamentos ultramarinos incorporados politicamente às metrópoles.
Como explica o professor de História Contemporânea da Universidade de São Paulo (USP) Osvaldo Goggiola, eles não foram afetados exatamente por serem dependentes de economias mais fortes, mas por eles próprios, hoje, serem parte dessas economias. "Essas localidades não são mais consideradas colônias: são territórios ultramarinos, sem moeda própria e sem instituições nacionais. Logo, eles não são apenas afetados pela economia da metrópole: eles são parte dessa economia", diz o professor.
O termo "colônia" caiu em desuso, com o apoio das Nações Unidas, pois a definição estaria ligada à exploração territorial. A verdade é que, se o mau desempenho econômico de um estado é preocupante para um país, o mesmo acontece na relação do país com seu território ultramarino: o que é ruim para um, é ruim para outro.
Porto Rico, território norte-americano, é exemplo: teve o Produto Interno Bruto (PIB) reduzido em 2% ano a ano entre 2007 e 2010, de acordo com dados do Banco Mundial (BM). Os Estados Unidos - que aqui se encaixa no perfil de "metrópole" - acompanhou o mau desempenho e teve um crescimento médio do PIB de 0,25% durante o período.
A necessidade de intervir com mais vigor nas enfraquecidas economias de territórios ultramarinos fez com que a União Europeia, ainda em 1959, criasse o Fundo de Desenvolvimento Europeu (FDE), instrumento de ajuda comunitária para o desenvolvimento das então colônias. Hoje, são 21 países e territórios ultramarinos que se relacionam com membros da UE: 12 com o Reino Unido, seis com a França, dois com a Holanda e um com a Dinamarca. O aporte financeiro do FDE aprofundou a dependência econômica das colônias, mas gerou oportunidades e desenvolvimento.
Mesmo que a nomenclatura hoje seja outra, Goggiola ressalta que a relação "metrópole-colônia" persiste em diversas áreas. "A autonomia aparece no futebol e em assuntos amenos. Os times da Guiana Francesa disputam uma liga nacional, e não o Campeonato Francês, por exemplo. Mas as grandes questões são decididas pelo governo da metrópole", afirma.
A Guiana Francesa, que é um departamento ultramarino do governo parisiense, tem representantes na Assembleia e no Senado francês, seus cidadãos podem votar nas eleições presidenciais, e a moeda corrente é o euro. O fato de os salários no país serem pagos na moeda unificada da Europa colaborou para um fenômeno interessante. "Muitos brasileiro preferiam ser faxineiros na Guiana Francesa do que ter algum outro emprego no Brasil, pois lá eles recebiam em euros", diz. O movimento migratório se iniciou nos anos 1960, durante a construção do Centro Espacial em Kourou, segundo município mais populoso da Guiana.
Segundo a Unesco, a taxa de crescimento demográfico no país, entre 1999 e 2006, foi de 4% - destes, 1,3% devido ao saldo migratório. Mas os números devem ser maiores, já que a maioria dos imigrantes brasileiros está em situação ilegal: no início dos anos 2000, segundo estudo de Ronaldo Arouck, o consulado do Brasil em Caiena (capital) tinha o registro de 10 mil brasileiros documentados, mas estimava em 8 mil os chamados "flutuantes".
Referendos refutam independência
Porto Rico votou recentemente a favor da anexação do país aos Estados Unidos. Assim, após aprovação do Congresso, ele se tornará o 51º estado norte-americano. Foram 61% de votos favoráveis à anexação - o que mostra que, de fato, há benefícios em ser "território ultramarino" de uma grande economia, em especial para seus cidadãos, que ganham direitos semelhantes aos dos cidadãos da metrópole.
A população das Malvinas - território britânico reivindicado pela Argentina - também demonstrou desejo de permanecer vinculado à metrópole, e de maneira ainda mais contundente que os porto-riquenhos: 98,8% dos votantes optaram pela permanência do território sob domínio inglês. Goggiola conta que, apesar disso, há interesse por independência, mas que ele varia de acordo com o território. "Guadalupe, território da França no Caribe, e Quebec, província canadense com forte descendência francesa, são alguns dos locais onde há movimentação pela independência", relata.