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O comércio agrícola navega num mundo sem regras e incerto

Precisamos de estratégias para lidar com Trump e esse mundo caótico que vivemos

24 jul 2026 - 05h42
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A rápida expansão da oferta agropecuária brasileira coincidiu com uma demanda crescente vinda principalmente da Ásia, com forte presença da China. Na década de 1990, os fluxos de comércio dispararam, depois de reduções unilaterais de tarifas e da criação de regras e disciplinas multilaterais sobre uso de tarifas, cotas, subsídios e barreiras técnicas e sanitárias. A isso se somam a entrada da China na OMC e a explosão de blocos e acordos preferenciais de comércio mundo afora. As palavras de ordem eram globalização, interdependência, abertura comercial, regras comuns.

Mas esse mundo ruiu a partir de 2020. As novas palavras de ordem são fragmentação, soberania, segurança, protecionismo e poder. E é nesse contexto que chega o novo tarifaço de Trump, que impôs uma tarifa adicional de 25% sobre as importações de produtos brasileiros, com listas de exceção.

Não bastassem os EUA, a China impôs uma salvaguarda (cota) que reduzirá em 35% as compras chinesas de carne bovina do Brasil. E a União Europeia retirou o Brasil da lista de países habilitados a exportar carnes ao bloco por conta de exigências sobre antimicrobianos. Definitivamente entramos em um mundo de comércio administrado por políticas comerciais discricionárias, e não por eficiência competitiva.

No caso dos EUA, a solução não me parece estar na aplicação de reciprocidades (que hoje não estão na mesa) ou de retaliações diretas, que apenas ampliariam conflitos e sanções. Na minha opinião, a nossa opção mais racional seria iniciar negociações amplas e duradouras que tragam ganhos mútuos, a exemplo de outros 85 países que sofreram investigações e pressões dos EUA. Deveríamos:

• Mostrar a essencialidade dos nossos produtos para a economia dos nossos clientes (na contenção de inflação, por exemplo) e para o funcionamento de cadeias de valor específicas, com apoio de atores locais.

• Ampliar os canais de comunicação e iniciar negociações que tragam resultados de interesse para os dois lados. Isso poderia envolver tanto preferências tarifárias quanto temas que vão muito além do comércio, como agilidade de processos, investimentos conjuntos e parcerias em áreas convergentes, como minerais críticos, bioenergia e segurança alimentar global.

É preciso mostrar a essencialidade dos nossos produtos para a economia dos nossos clientes
É preciso mostrar a essencialidade dos nossos produtos para a economia dos nossos clientes
Foto: Tiago Queiroz/Estadão / Estadão

Olhando mais à frente, o Brasil precisa iniciar um processo estruturado de construção de estratégias para lidar com esse mundo incerto e caótico em que vivemos. Um mundo onde regras comuns dão lugar a poder unilateral e diplomacia permanente vale mais do que reações explosivas.

Estadão
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