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Não há nada que indique culpa de Campos Neto no caso Master, diz Galípolo

Em audiência na CPI do Crime Organizado, presidente do BC afirma que nenhum indício contra antecessor foi encontrado em processos ou sindicâncias

8 abr 2026 - 12h08
(atualizado às 12h36)
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BRASÍLIA - O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, disse nesta quarta-feira, 8, que não há nenhum processo ou sindicância que aponte para culpa do seu antecessor, Roberto Campos Neto, no crescimento ou nas fraudes que envolvem o Banco Master.

"Não há, em nenhum processo de auditoria ou de sindicância, nada que encontre qualquer culpa por parte do ex-presidente Roberto Campos", disse Galípolo durante audiência da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado, no Senado.

Campos Neto presidiu o BC entre 2019 e 2024, período em que o Master foi oficialmente transferido para o controle de Daniel Vorcaro e cresceu substantivamente. Ele havia sido convocado para comparecer à CPI, mas faltou.

No mês passado, ao se manifestar pela primeira vez sobre o caso Master, Campos Neto afirmou em nota que a cúpula do Banco Central não trata de operações de bancos do segmento S3 — de médio porte — e não pode ser responsabilizada por falha de terceiros.

O BC negou uma autorização para transferir o controle do então Banco Máxima, que seria rebatizado Master, para Vorcaro em fevereiro de 2019. Em outubro daquele ano, a autoridade monetária mudou de posição e decidiu autorizar a transferência.

Vorcaro chegou a apelar ao então diretor de Fiscalização, Paulo Sérgio Neves Souza, para conseguir autorização para a transferência, ainda em fevereiro de 2019. Souza é suspeito de ter recebido mesadas para trabalhar a favor de Vorcaro no BC.

Galípolo relatou que, ainda em 2023, Campos Neto havia solicitado justamente a Paulo Souza, que ainda era diretor de Fiscalização, uma análise do balanço do Master. No fim de 2024, a área de Fiscalização também pediu análises a três escritórios de advocacia.

As declarações de Galípolo sobre o antecessor ocorreram no mesmo dia em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a criticar o ex-chefe do Banco Central. Em entrevista ao canal ICL Notícias, Lula afirmou que Roberto Campos Neto "é a serpente que pôs o ovo" do caso do Banco Master.

"Perguntei para uma pessoa importante deste país aqui: por que é que você nunca publica o nome do Roberto Campos Neto?", disse o presidente. "O Ilan Goldfajn, que era presidente do Banco Central, recusou reconhecer o Banco Master. O Roberto Campos legalizou o Banco Master."

Lula também defendeu seu governo e afirmou que não há limites para a apuração de casos de corrupção, independentemente de quem esteja envolvido, inclusive integrantes da própria administração. Ao comentar o caso Master, Lula defendeu a aplicação de punições exemplares e ressaltou que todos os envolvidos devem "pagar o preço", sob o risco de não haver efeito pedagógico no combate à corrupção.

"E todas as falcatruas que vêm na asa genealógica do Banco Master têm quem? O governo Jair Bolsonaro, o Paulo Guedes e os ministros deles", continuou Lula. "Só você mostrar que você vai perceber que é uma tentativa de esconder, sabe, qual é a serpente que pôs o ovo. É o Roberto Campos."

Lula criticou ainda a condução da CPI do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), ao afirmar que o colegiado não convidou nomes ligados ao governo Jair Bolsonaro e que houve tentativa de politizar a investigação. Ele salientou que o caso foi descoberto por órgãos de controle do governo, citando a atuação da Polícia Federal e da Controladoria-Geral da União.

"Eles tentaram fazer uma briga política, porque são dois candidatos a senador, o relator e o presidente. E tentaram envolver todo mundo do nosso lado", disse o presidente.

Sobre o caso do Banco Master, disse que não se opõe à instalação de uma CPI, desde que o processo seja abrangente e inclua Campos Neto e diretores da autarquia. Lula também ponderou que delações premiadas são sempre delicadas, pois podem ser "compradas", ao comentar o acordo envolvendo Daniel Vorcaro.

Reunião de Lula e Vorcaro

Galípolo detalhou nesta quarta-feira que o presidente Lula, em reunião com Vorcaro, em dezembro de 2024, afirmou que o caso seria tratado tecnicamente pela autoridade monetária.

Segundo Galípolo, Lula disse que esse não era um tema que cabia à Presidência da República, mas sim ao BC, e que, dentro da autarquia, tinha certeza de que a análise do caso seria técnica.

Ainda conforme o relato de Galípolo, na reunião, os representantes do Master relataram ao presidente que estavam sendo perseguidos pelo mercado financeiro e que a dificuldade deles em conseguir captação era resultado justamente dessa perseguição.

À CPI, o presidente do BC observou que essa versão não era muito aderente, dado o próprio tamanho do banco. "Não era um banco que tinha tamanho para isso", disse.

Também à comissão, Galípolo frisou que sempre gozou de toda autonomia para fazer seu trabalho no BC e que a orientação que recebeu do governo foi não proteger nem perseguir ninguém no caso Master.

O banqueiro central observou ainda que nunca conversou sobre o caso Master com o ex-governador do Distrito Federal Ibaneis Rocha (MDB) nem com o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes.

Problemas de liquidez

O presidente do Banco Central afirmou que o Banco Master sofria de problemas de liquidez desde janeiro de 2025 e que a venda de carteiras novas pela instituição chamou a atenção da fiscalização da autoridade monetária logo no início do ano.

"É normal você vender um ativo que você já tem. Agora, você comprar e constituir um ativo novo, depois vendê-lo para fazer liquidez, é algo meio como perguntar para alguém: 'Por que você está comprando um carro?'. (E a pessoa responder:) 'Porque eu estou precisando de dinheiro, comprei um carro para depois vendê-lo'. É pouco usual", disse.

Segundo Galípolo, a partir da identificação dessas operações e da estranheza gerada por elas, foi criado um grupo de trabalho dentro da autarquia para analisá-las. Em março, a investigação foi levada pelo diretor de Fiscalização do BC, Ailton de Aquino, à presidência da autoridade monetária.

Ao rememorar a trajetória de investigação do Master dentro da autarquia, Galípolo ponderou que a checagem das carteiras é complexa e demanda tempo. Também destacou que a legislação demanda que o BC esgote alternativas de mercado antes de liquidar um banco.

Também em depoimento à CPI, o presidente do BC afirmou que foi uma sindicância interna da autarquia que captou indícios de favorecimento indevido aos servidores afastados Paulo Souza e Belline Santana, ambos suspeitos de atuar a favor do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro.

Apoio do FGC

Galípolo afirmou hoje que foi correta a decisão do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de pagar por CDBs vincendos para apoiar o Master.

"Esse processo foi importante para que você pudesse esgotar de maneira adequada todo o processo de análise de soluções alternativas de mercado, sem aumentar o tamanho do banco", disse.

Ele também relembrou que, em setembro de 2025, o próprio Master chegou a entregar uma comunicação em que reconheceu sua dificuldade e propôs sair do mercado. Isso ocorreu depois que o BC negou a proposta de o Banco de Brasília (BRB) adquirir a instituição.

"Mas, ao longo desse processo, aquele passivo que extrapolava o que o FGC conseguia garantir vai consumindo o caixa do banco, até que, no dia da liquidação, o banco tinha em caixa um valor que era 10% do valor de vencimento que ele tinha para pagar naquele dia, efetivamente. E isso gera a liquidação do banco", disse.

Galípolo também mencionou que a autarquia jamais foi apresentada ou conheceu os supostos investidores árabes alegados pelo Master na época.

Sigilo de oito anos

O presidente do Banco Central afirmou que o sigilo de oito anos imposto sobre as informações referentes à liquidação do Banco Master segue regras da autoridade monetária em vigor desde 2018. Galípolo mencionou que houve críticas à decisão e ponderou que, se há uma insatisfação com a regra, seria possível rediscuti-la, mas não simplesmente descumpri-la.

Na sequência, afirmou que, no caso do Master, a autoridade monetária entende que é fundamental seguir o rito da forma mais estrita possível.

"No caso do Banco Master, a gente entende que é fundamental que seja seguido o rito mais estrito possível, justamente para evitar dar algum tipo de subsídio, para eventualmente ter algum tipo de questionamento amanhã", disse.

Galípolo também voltou a afirmar que o País precisa normalizar relações institucionais. "Entendo como normalizar as relações institucionais não recuar daquilo que são as suas obrigações legais e o seu mandato legal, nem um milímetro, mas também não exorbitar o que é a sua função e a sua obrigação legal."

PEC da autonomia

O presidente do Banco Central pediu apoio dos senadores presentes em audiência da CPI do Crime Organizado para votar a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 65, que garante autonomia administrativa e financeira para a autarquia.

"Desde a minha sabatina, eu fui mudando o pedido: eu pedi apoio de início, pedi ajuda, (e agora) peço socorro", disse.

A PEC 65 está parada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, aguardando um acordo para ser votada. Segundo o presidente do BC, um dos pontos sobre os quais havia dúvidas — o enquadramento da autarquia como uma instituição de direito público ou privado — já foi superado.

Galípolo tem uma reunião ainda nesta quarta-feira com o relator da PEC, o senador Plínio Valério (PSDB-AM), e o presidente da CCJ, Otto Alencar (PSD-BA). Eles devem discutir o tema nesse encontro.

Na audiência, o banqueiro central disse que a PEC é essencial para recompor o quadro de servidores do BC, que diminuiu quase 25% nos últimos dez anos, por causa de aposentadorias. Ele relatou que, hoje, a autoridade monetária brasileira tem cerca de 3 mil servidores, contra 23 mil do Federal Reserve (Fed), o BC americano, e 13 mil do BC da Índia.

Galípolo ponderou, ainda, que o BC precisa de recursos para investir em sistemas e tecnologia, que viabilizem uma melhora da supervisão do sistema financeiro. Outros bancos centrais globais já desenvolvem modelos de inteligência artificial (IA) para esse fim, ele relatou.

"Cada um desses bancos vem desenvolvendo internamente essa tecnologia. Nós temos competência para isso, mas não conseguimos em função das limitações que nós temos hoje", disse o presidente do BC./Com Geovani Bucci, Gabriel Hirabahasi e Gabriel de Sousa

Estadão
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