Mobilidade elétrica avança no Brasil, mas esbarra em custo e coordenação
Especialista aponta eletrificação de ônibus como chave para reduzir emissões e melhorar qualidade de vida, mas evolução exige escala, financiamento e políticas públicas integradas
RIO - Cada vez mais presente nas cidades brasileiras, a mobilidade elétrica avança apesar de esbarrar em alguns obstáculos como custo e uma maior coordenação institucional. No debate de quinta-feira, 25, no Energy Summit, no Rio de Janeiro, a diretora executiva do Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP-Brasil), Clarisse Cunha Linke, defendeu o avanço de políticas públicas estruturantes para acelerar a eletrificação do transporte no país e diminuir disparidades regionais.
Segundo ela, embora já registre progressos no segmento de carros de menor porte, a transição dos modais pesados, como ônibus e caminhões, ainda enfrenta entraves regulatórios e financeiros. "Há um avanço claro nos veículos leves, mas os pesados ainda concentram os principais desafios", afirmou.
O tema tem peso estratégico: o setor de transporte responde por cerca de 50% das emissões relacionadas à energia no país. Para a executiva, uma agenda consistente de descarbonização passa necessariamente por instrumentos de regulação aliados a incentivos econômicos.
"Poderíamos olhar para uma nova geração do Procompi (Programa de Apoio à Competitividade das Micro e Pequenas Indústrias), com um calendário de descarbonização de todos os veículos acoplados a mecanismos de financiamento para garantir que a demanda siga crescendo", aponta.
Ônibus a eletricidade x a diesel
De acordo com Clarisse, um ônibus movido a eletricidade chega a ser três vezes mais caro do que um modelo a diesel, o que limita sua adoção em larga escala, gerando um efeito circular de baixa demanda desestimulando fabricantes a ampliar a produção e reduzir preços. "Sem escala, não há incentivo para a indústria conseguir tornar esse produto mais acessível", complementa.
Além disso, experiências internacionais mostram caminhos possíveis. A diretora citou o caso da Califórnia, nos Estados Unidos, onde a combinação entre regulação e estímulo direto à demanda ajudou a acelerar o mercado, incluindo a criação de vouchers de até US$ 165 mil por veículo. Países como a China e algumas nações da América Latina como Chile ou Colômbia também aparecem como referências quando se fala em eletromobilidade.
No Brasil, outra sugestão da especialista é a criação de um instrumento de compra agregada de veículos. "Os municípios, isoladamente, não têm poder de barganha. Mas quando se consolida a demanda, os preços caem", afirmou, citando o exemplo chinês, onde a aquisição centralizada de 5 mil veículos reduziu os custos em cerca de 30%.
Eletrificação não pode se restringir ao transporte individual
Apesar das dificuldades, o mercado brasileiro mostra sinais de avanço. Mais de 300 ônibus elétricos foram emplacados em maio, alta de 450% em relação ao mesmo mês em 2025 e com 90% da produção realizada no país. No entanto, Clarisse alerta para a forte concentração regional: a maior parte das entregas ocorre no Sudeste, especialmente em São Paulo, que concentra cerca de 86% da frota e lidera políticas de redução de emissões.
Outro ponto levantado é que a eletrificação não pode se restringir ao transporte individual. "Não dá para imaginar que todos terão carro elétrico. A grande chave de impacto está no transporte público", analisa. Em outro alerta, a executiva salienta a piora na qualidade do serviço em algumas cidades, o que tem levado usuários, especialmente mulheres de áreas periféricas, a migrarem para alternativas como motocicletas por aplicativo.
Nesse sentido, a eletrificação dos ônibus, aliada à melhoria do serviço, teria impacto direto tanto nas emissões quanto na qualidade de vida. "Um ônibus elétrico pode retirar pelo menos 40 carros das ruas", afirmou.
Ampliação da rede elétrica entra na agenda
Para sustentar o crescimento, a especialista destaca a necessidade de modelos inovadores de financiamento e de novos arranjos de negócio. Cidades como Bogotá e Santiago já testam formatos que separam a operação do transporte do investimento em infraestrutura e energia.
Por aqui, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) estima em cerca de R$ 100 bilhões os investimentos necessários em 21 regiões metropolitanas para implantação de corredores verdes de ônibus, incluindo frota e rede de recarga.
"Nesse contexto, a infraestrutura de carregamento deve ser tratada como política pública, e não apenas como um desafio operacional", sinaliza Clarisse. Ela defende ainda articulação entre investimento público e privado para viabilizar pontos de recarga em larga escala, replicando modelos adotados na China.
Para viabilizar essa transformação, será necessário revisar contratos, estabelecer novos indicadores de qualidade e reformular modelos de remuneração das operadoras, vinculando-os ao desempenho do serviço.
A ampliação da rede elétrica e a adoção de novas práticas tarifárias também entram na agenda, assim como a integração dos sistemas de bilhetagem, limitada a poucas regiões metropolitanas.
Ainda assim, o principal gargalo apontado pela executiva está na coordenação institucional e na capacidade de implementação dos projetos. O que exigirá combinação de políticas públicas coordenadas, inovação tecnológica e foco na inclusão.
"Não é apenas uma estratégia climática, mas social", concluiu, citando que, análogo ao SUS, o Sistema Único de Mobilidade (SUM) está em tramitação no Congresso Nacional.
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