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Meta viciou crianças e enganou o público, dizem promotores nos EUA

Coalizão de estados americanos pede que Meta seja penalizada em US$ 200 bilhões; defesa reconhece que alguns usuários tiveram experiências negativas, mas alega que empresa 'tentou criar ferramentas para ajudá-los'

18 ago 2026 - 21h51
(atualizado às 22h00)
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A Meta viciou e explorou crianças conscientemente, segundo informações apresentadas nesta terça-feira, 18, em um tribunal federal dos Estados Unidos, durante um julgamento contra a gigante das redes sociais sob a acusação de tornar deliberadamente o Instagram e o Facebook viciantes para usuários jovens.

O advogado da Meta, Paul Schmidt, reconheceu que alguns usuários tiveram experiências negativas nos aplicativos, mas argumentou que a empresa "tentou criar ferramentas para ajudá-los". Antes do início do julgamento, a empresa negou as acusações, insistindo que havia trabalhado com pais, especialistas e autoridades para incorporar medidas de proteção para crianças.

No que muitos especialistas chamaram de "momento da indústria do tabaco" para as redes sociais, uma coalizão de estados pede que a Meta seja penalizada em cerca de US$ 200 bilhões por projetar produtos que viciam crianças.

Os estados estão intervindo onde "o Congresso falhou em agir", disse o procurador-geral do Colorado, Phil Weiser, na tarde de terça-feira durante uma coletiva de imprensa, observando que — assim como em casos históricos contra empresas de tabaco décadas atrás — este caso também envolve "saúde pública e, em alguns casos, marketing voltado para crianças que prejudicou" os pequenos.

Durante as declarações de abertura, a promotora da Califórnia, Megan O'Neill, descreveu o modelo de negócios da Meta como algo destinado a "viciar os usuários, mantê-los presos pelo maior tempo possível, coletar seus dados e, então, esconder a verdade do público". A Meta "explorou a maneira como o cérebro das crianças funciona", disse O'Neill.

O ex-diretor de engenharia da Meta, Arturo Bejar, testemunhou que, nos primeiros anos do Facebook, "o objetivo era colocar as coisas nas mãos dos usuários o mais rápido possível, o que significava que, muitas vezes, a segurança era uma preocupação secundária".

Dias antes do julgamento, a Meta tentou impedir o depoimento de Bejar, uma medida que o juiz rejeitou.

Manifestação de mães

Este não é o primeiro caso que busca responsabilizar empresas de tecnologia, incluindo a Meta, por esse tipo de problema, mas pode se tornar um dos mais impactantes se obrigar a Meta a fazer mudanças profundas.

Ativistas, incluindo mães de crianças que, segundo elas, foram levadas ao suicídio pelo uso das redes sociais, realizaram uma manifestação em frente ao tribunal. Uma mãe, Lori Schott, criticou publicamente o fundador e CEO da Meta, Mark Zuckerberg, e o chefe do Instagram, Adam Mosseri, afirmando que eles "construíram uma das empresas mais poderosas e ricas do mundo... Mas o poder não justifica causar danos".

Zuckerberg e Mosseri estão entre as principais testemunhas que devem depor, segundo documentos judiciais.

Em uma coletiva de imprensa na tarde de terça-feira, o procurador-geral da Califórnia, Rob Bonta, não quis confirmar se Zuckerberg seria chamado para depor.

A primeira de muitas?

Este é o primeiro julgamento federal do que se espera ser uma onda de processos contra empresas de redes sociais, incluindo TikTok, Snapchat e YouTube. Famílias, educadores e governos estaduais nos Estados Unidos acusam essas empresas de prejudicar a saúde mental dos jovens.

A Meta, que conta com mais de três bilhões de usuários em todo o mundo, é a única ré no processo de Oakland.

Além de penalidades financeiras, os estados exigem mudanças nos aplicativos da Meta para proteger os usuários jovens, incluindo limites para o tempo de tela.

Quatro estados — Califórnia, Colorado, Kentucky e Nova Jersey — representam uma coalizão de 29 estados que processaram a Meta inicialmente em 2023.

As acusações são três: a Meta mentiu ao público sobre o grau de perigo de seus aplicativos para menores; projetou recursos especificamente para criar dependência e manter os jovens online, incluindo ferramentas de limite de tempo de tela que são facilmente contornáveis; e coletou dados de crianças menores de 13 anos sem o consentimento dos pais, violando a lei federal.

Espera-se que o julgamento dure cerca de seis semanas, com um veredito previsto para outubro.

Para a Meta, "a grande questão aqui é o dano à reputação" e a possibilidade de ser forçada a fazer mudanças significativas no Facebook e no Instagram, disse à AFP Vincent Joralemon, diretor do Centro de Direito e Políticas de Ciências da Vida de Berkeley. "Realmente lembra o caso da indústria do tabaco nos anos 1990", afirmou Joralemon.

Enquanto os processos sobre os danos das redes sociais giram em torno da relação entre tecnologia e dependência, o caso contra a Meta concentra-se em suas práticas comerciais — de forma semelhante a quando reguladores dos EUA processaram empresas de tabaco, observou Joralemon.

Dezenas de estados americanos processaram quatro grandes empresas de tabaco por minimizarem os efeitos nocivos de seus produtos à saúde e obtiveram um acordo histórico em 1998, que incluiu penalidades financeiras e mudanças no marketing dos produtos. Desde então, essas empresas de tabaco pagaram mais de US$ 176 bilhões, segundo dados da Associação Nacional de Procuradores-Gerais. / AFP

Estadão
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