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Lula confirma que vai propor tarifa zero no transporte aos finais de semana com dinheiro de emendas

Medida foi anunciada a dez dias do segundo turno das eleições; presidente já havia pedido que Fazenda fizesse cálculos para que ação constasse em programa de governo; custo deve variar entre R$ 50 bi e R$ 60 bi, segundo estimativa preliminar da Confederação Nacional dos Municípios

15 out 2026 - 17h33
(atualizado às 20h40)
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Resumo
A dez dias do segundo turno, o presidente Lula anunciou que proporá em 2027 uma PEC para garantir tarifa zero nos ônibus aos finais de semana e feriados em todo o país, financiada por emendas parlamentares. A medida integra um pacote com forte apelo popular para reverter a desvantagem contra Flávio Bolsonaro nas urnas. O plano, porém, suscita dúvidas econômicas: a Confederação Nacional dos Municípios estima que o custo da gratuidade em dois dias semanais fique entre R$ 50 bilhões e R$ 60 bilhões.

BRASÍLIA — O presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou nesta quinta-feira, 15, a dez dias do segundo turno das eleições, que vai propor em 2027, caso seja reeleito, uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) para garantir tarifa zero nos ônibus, aos finais de semana e feriados, em todas as cidades brasileiras com transporte coletivo. A informação foi antecipada pelo Estadão.

A iniciativa integra o pacote de bondades proposto por Lula às vésperas do segundo turno. No ano passado, o presidente chegou a pedir ao então ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que fizesse cálculos sobre o custo da medida, pois queria que ela fosse uma das bandeiras da campanha à reeleição.

A proposta só não entrou no programa de governo de Lula porque a equipe econômica não concluiu um estudo mais aprofundado sobre sua viabilidade econômica. Em conversas reservadas, ministros afirmavam que não havia espaço no arcabouço fiscal para adotar a tarifa zero. Atualmente, 138 cidades já aplicam o passe livre no País.

"Vou mandar uma PEC também para o Congresso garantindo passe livre nos finais de semana para todas as cidades que tiverem transporte coletivo", disse o presidente na rede social X, meia hora após a publicação da reportagem. "E onde vamos arranjar dinheiro?", perguntou, antecipando as críticas que deve receber. Ele mesmo respondeu: "Aí vamos compartilhar com as emendas parlamentares para a gente garantir que o povo vai passear. O povo vai ficar feliz, os deputados vão dar utilidade às suas emendas para garantir que valeu a pena o fim da escala 6 por 1."

O orçamento aprovado pelo Congresso prevê R$ 57,5 bilhões para as emendas parlamentares em 2027. Como mostrou o Estadão, entidades ligadas ao setor de transportes e prefeituras afirmam que ainda é impossível saber com exatidão qual o impacto da tarifa zero em todo o País.

Lula confirma que vai propor tarifa zero no transporte aos finais de semana com dinheiro de emendas
Lula confirma que vai propor tarifa zero no transporte aos finais de semana com dinheiro de emendas
Foto: Wilton Junior/Estadão / Estadão

Estimativa preliminar da Confederação Nacional dos Municípios (CNM) indica que o custo para adotar o passe livre no Brasil em dois dias da semana, como disse Lula, ficaria entre R$ 50 bilhões e R$ 60 bilhões.

A informação de que o presidente poderia fazer o anúncio nesta quinta-feira, 15, já circulava pelo mercado financeiro. Pesquisas qualitativas feitas por grandes bancos apontavam que a tarifa zero era uma proposta com capacidade de virar votos do senador Flávio Bolsonaro (PL) para Lula. Trackings realizados pelo PT vão na mesma direção.

Nos últimos dias, o presidente anunciou várias medidas com apelo popular para angariar apoio nas urnas. Em aliança com os presidentes do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), e da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), Lula conseguiu aprovar o fim da escala 6x1, avançou uma casa na PEC da Segurança - apesar dos percalços sobre a redução da maioridade penal - e perdoou R$ 12,86 bilhões em dívidas de microempreendedores individuais (MEIs), além de aumentar o seu teto de faturamento.

Com esse pacote, o presidente espera reverter a vantagem de Flávio no primeiro turno. Pesquisa Datafolha divulgada nesta quinta feira mostrou o senador com 51% das intenções de votos válidos e Lula com 49%, configurando um empate técnico dentro da margem de erro.

Congresso tem vários projetos de passe livre

Na Câmara dos Deputados, há diversos projetos que tratam da tarifa zero, entre eles a PEC 25/2023, de autoria das deputadas Luiza Erundina (PSOL/SP), Erika Kokay (PT/DF) e Professora Luciene Cavalcante (PSOL/SP), entre outros parlamentares. O objetivo da proposta é criar um Sistema Único de Transporte público urbano, nos mesmos moldes do Sistema Único de Saúde (SUS).

Coordenador da Frente Parlamentar em Defesa da Tarifa Zero, o deputado Jilmar Tatto (PT-SP) é um dos nomes que defendem a proposta. Em 2025, Tatto tratou do tema pessoalmente com Lula. Em conversa com o Estadão, à época, ele disse que levou apenas uma hora para convencer o presidente sobre a viabilidade da medida.

"A saúde, a educação e a assistência social já contam com recursos de emendas parlamentares. Por que o transporte público não pode contar também?, questionou Tatto nesta quinta-feira.

Na avaliação do deputado, a campanha do PT conseguiu mudar a pauta negativa neste segundo turno. "Saímos dessa encalacrada de Vorcaro e do STF e fomos para a vida real", completou o deputado, numa referência às crises envolvendo o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, e o Supremo Tribunal Federal (STF).

Tatto observou que um programa nacional deste porte precisa levar a uma revisão dos contratos com as empresas que operam o serviço. Em vez de cobrarem por usuário, essas empresas passariam a ser remuneradas pela manutenção do veículo em determinado trajeto.

Custo e financiamento

Se o passe livre fosse adotado nos sete dias da semana, os custos poderiam variar de R$ 90 bilhões por ano, segundo a Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU), a R$ 200 bilhões, de acordo com estimativas da Confederação Nacional dos Municípios (CNM).

O País tem 5.571 municípios, e eles são responsáveis pelo transporte urbano, que é totalmente descentralizado. O governo federal não possui números agregados. Além disso, um projeto de tarifa zero nacional teria de englobar também o transporte sobre trilhos, que é usado nas grandes regiões metropolitanas e não poderia ser ignorado, sob pena de pôr o modelo de negócios em risco.

Estadão
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