IPCA-15 rompe piso das expectativas em julho e reforça apostas de corte na Selic
Principal motor do arrefecimento do índice foi o grupo de alimentação e bebidas, que registrou queda de 0,66% em julho, ante a alta de 0,74% observada no mês anterior
RIO E SÃO PAULO - O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) de julho reforça a leitura, entre economistas, de uma nova redução nos juros na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) de agosto. A alta de 0,06% em julho, desacelerando após ter subido 0,41% em junho, não só ficou abaixo da mediana das estimativas (0,21%) da pesquisa Projeções Broadcast, como rompeu o piso das expectativas, que era de 0,17%. O teto projetado era de 0,28%.
Na avaliação do BGC Liquidez, o resultado divulgado nesta terça-feira, 28, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) confirma o bom momento da inflação, apesar da guerra entre Estados Unidos e Irã. Mesmo no cenário geopolítico, não houve "nenhum efeito de segunda ordem relevante".
Para a Capital Economics, o número reforça o argumento em prol de mais um corte de 0,25 ponto percentual. "Acreditamos que o ciclo de flexibilização se tornará mais intermitente, com potencial para mais um corte de 0,25 ponto nas três reuniões restantes do ano, levando a Selic para 13,75% ao fim do ano", projeta a consultoria.
A leitura benigna é compartilhada pela economista do BNP Paribas, Laiz Carvalho, que destaca que o qualitativo do índice foi "muito bom", favorecendo a expectativa de corte. Embora a projeção oficial da instituição ainda preveja a manutenção da taxa, Carvalho ressalta que o resultado cria um viés de revisão. "Vamos aguardar os dados de mercado de trabalho e de crédito no final da semana, mas o resultado de hoje (terça-feira, 28) é muito positivo", afirma. Já o Citi reiterou a visão de que o Banco Central não vai alterar o patamar de juros de 14,25% ao ano, diante da persistência da desancoragem das expectativas de longo prazo.
Alimentos puxam alívio
O principal motor do arrefecimento do índice foi o grupo de alimentação e bebidas, que registrou queda de 0,66% em julho, ante a alta de 0,74% observada no mês anterior.
A deflação na alimentação no domicílio (-1,14%), apontam os economistas da Terra Investimentos, João Maurício Rosal, Homero Guizzo e Luís Bettoni, foi mais acentuada que a esperada, com surpresas generalizadas de alívio dentro desse grupo.
A economista da XP Inc., Basiliki Litvac, pontua que a desaceleração do indicador já estava no radar, mas veio mais intensa e com desvios de baixa disseminados em sua composição. Além da queda nos alimentos, ela destaca que os bens industriais ajudaram a puxar o índice para baixo, com resfriamento nos itens de vestuário, artigos de residência e bens duráveis.
Já o grupo de transportes subiu 0,11% em julho, após cair 0,03% em junho, reflexo da alta de 11,70% da passagem aérea. Por outro lado, os combustíveis caíram 0,90%, com todos apresentando queda: etanol (-2,50%), óleo diesel (-1,32%), gás veicular (-0,97%) e gasolina (-0,68%).
Apesar da alta na margem, o segmento foi o maior destaque para puxar o índice para baixo na análise do BNP Paribas. A gasolina superou a estimativa inicial do banco (que projetava uma queda mais próxima a 0,20%) e as passagens aéreas, altamente voláteis, subiram abaixo da estimativa da casa, que esperava um salto de 15%.
Núcleos e inflação em 12 meses perdem força
Com os dados de julho, o IPCA-15 acumula alta de 3,51% no ano. A taxa em 12 meses ficou em 4,52%, praticamente colada no teto da meta oficial do governo (4,50%). Assim como o índice mensal, o número anualizado rompeu o piso das Projeções Broadcast, que iam de 4,63% a 4,74%.
Cálculos do economista do Banco BV, Carlos Lopes, mostram que a média dos núcleos de inflação do IPCA-15 recuou de 0,34% em junho para 0,21% em julho. Mas a desaceleração dos preços também se mostra no acumulado dos últimos 12 meses, segundo a Terra Investimentos, tanto na média dos núcleos quanto em todas as principais aberturas do índice, que perderam força.
As variações foram as seguintes: média dos núcleos (4,29% para 3,66%); preços livres (4,55% para 4,23%); preços administrados (5,51% para 5,33%); bens industriais (2,64% para 2,62%); serviços (6,25% para 5,95%); serviços subjacentes (5,24% para 5,08%) e alimentação no domicílio (4,29% para 3,66%).
A estimativa da Terra Investimentos para o IPCA para 2026 caiu para 5,04%. Já o Citi manteve a projeção de alta de 4,8% no fim de 2026./Por Gabriela da Cunha, Gabriela Jucá, Daniel Tozzi, Maria Regina Silva, Letícia Correia, Gustavo Nicoleta
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