Stanford escolhe três advogados brasileiros para pesquisa sobre impacto da IA
Estudo pretende entender em que medida a inteligência artificial já está sendo usada por escritórios, empresas e pelo próprio Judiciário e como isso altera a prestação de serviços jurídicos e a relação com o cliente
RIO - A Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, selecionou três advogados brasileiros para desenvolver uma pesquisa sobre os impactos da inteligência artificial (IA) no sistema de Justiça e no mercado jurídico do País, com apoio da estrutura do Center for Legal Informatics (CodeX), da Stanford Law School. A ideia é mostrar como o uso da tecnologia pode dar mais velocidade e reduzir custos no setor judiciário brasileiro.
O Brasil foi escolhido por ser considerado o maior mercado jurídico do mundo, segundo um dos três advogados selecionados pela Stanford, Bruno Feigelson, sócio fundador do Lima = Feigelson Advogados e da Associação Brasileira de Law Techs e Legal Techs (AB2L).
"Nos últimos dez anos, aqui no Brasil, a gente criou o maior ecossistema de direito e inovação do planeta Terra", diz Feigelson, destacando o fato de o Brasil ter mais de 80 milhões de processos em tramitação e mais de 1,3 milhão de advogados, além do maior número de cursos de direito do planeta. "O Brasil, sozinho, tem mais faculdade de direito do que o mundo inteiro. Se você somar as faculdades na China, na Europa, na Ásia inteira, nos Estados Unidos, não dão o número de cursos de direito que a gente tem no Brasil", afirma.
Além dele, fazem parte do projeto o diretor executivo da AB2L, Daniel Marques, e a fundadora do Future Law, Tayná Carneiro.
"Nós três somos doutores aqui no Brasil, então é uma espécie de pós-doutorado. O nosso vínculo é de pesquisa com o Stanford, e a gente vai tentar fazer essa análise e trazer insights para o planeta inteiro, porque a tese é que o que acontecer no Brasil provavelmente vai influenciar outros países no mundo", afirma.
Feigelson destaca que o Brasil também tem atualmente o maior gasto global jurídico, com entre 1,5% e 2% do Produto Interno Bruto (PIB) destinados ao judiciário, recursos que poderiam ser usados em saúde e educação.
"O convite de Stanford", explica o advogado, "visa justamente mostrar de como o local do mundo que tem o maior gasto do PIB, o maior número de advogados, o maior número de faculdades de Direito está usando inteligência artificial, e como isso vai mudar esse mercado, como vai mudar essa indústria jurídica".
A pesquisa pretende entender em que medida a IA já está sendo usada por escritórios, empresas e pelo próprio Judiciário. E como isso altera a prestação de serviços jurídicos e a relação com o cliente. O estudo sobre a situação nacional investiga principalmente a transição de sistemas de IA como "copiloto" — quando as ferramentas são de apoio ao profissional — para "autopiloto", ou seja, sistemas que entregam serviços diretamente ao cliente final em tarefas rotineiras de alta complexidade cognitiva.
Feigelson afirma que o estudo também mapeia como departamentos jurídicos corporativos podem redistribuir seus orçamentos entre escritórios tradicionais e operadores "tech-first" (tecnologia em primeiro lugar), além de analisar a disputa entre escritórios, law techs e um modelo híbrido que ele chama de "law companies".
"A gente vai tentar fazer essa análise e trazer insights para o planeta inteiro, porque a tese é: o que acontecer no Brasil provavelmente vai influenciar outros países no mundo, porque, por incrível que pareça, a gente às vezes tem muita síndrome de vira-lata, mas esses números do Brasil impõem que a gente também seja muito inovador", avalia Feigelson. "Vamos mostrar como a gente pode se beneficiar mais da inteligência artificial para agilizar essa Justiça que a gente ainda considera tão lenta no Brasil", conclui.
Segundo Feigelson, os primeiros resultados da pesquisa devem ser conhecidos a partir de abril do ano que vem, quando os advogados pretendem começar a publicar artigos e as pesquisas compartilhadas com a comunidade acadêmica de Stanford.
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