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Investimento estrangeiro no Brasil sobe 23% a US$ 46 bilhões em 2021 e cobre rombo externo

Resultado do ano passado, porém, é o segundo menor desde 2009 (US$ 31,481 bilhões), sob os efeitos da crise financeira global

26 jan 2022 - 10h42
(atualizado às 13h59)
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BRASÍLIA - Os investimentos estrangeiros diretos (IDP) na economia brasileira somaram US$ 46,441 bilhões em 2021, aumento de 23% em relação a 2020, informou o Banco Central nesta quarta-feira, 26. Dessa forma, foram suficientes para cobrir o rombo das contas externas no ano passado (de US$ 28 bilhões).

O IDP engloba investimentos mais duradouros no País, como em uma nova fábrica ou ampliação da capacidade de uma instalação já existente. Quando o déficit não é "coberto" pelos investimentos estrangeiros, o governo precisa buscar outras saídas, como ingresso de recursos para aplicações financeiras ou empréstimos buscados no exterior para fechar as contas.

O resultado de 2021 é ainda o segundo menor desde 2009 (US$ 31,481 bilhões), sob os efeitos da crise financeira global. Em 12 meses, o saldo de investimento estrangeiro representa 2,89% do Produto Interno Bruto (PIB). Mesmo assim, ainda não retomou o nível pré-pandemia, disse o chefe de Departamento de Estatísticas do Banco Central, Fernando Rocha.

O total que ingressou no País ficou fora das estimativas apuradas pelo Projeções Broadcast para o ano, que iam de US$ 50 bilhões a US$ 60 bilhões. Pelos cálculos do Banco Central, o IDP de 2021 indicaria entrada de US$ 52 bilhões.

O resultado do IDP em 2021 foi beneficiado pela recuperação dos fluxos de investimento após o impacto mais severo devido à pandemia em 2020. Mas alguns especialistas observam que a entrada de recursos no País é limitada por problemas próprios, como os de natureza fiscal, diante das dúvidas sobre a sustentabilidade das contas públicas.

Rocha disse que não espera uma desaceleração dos fluxos de IDP este ano. A previsão do BC é que, em 2022, os investimentos cheguem a US$ 55 bilhões.

Resultado negativo em dezembro

Em dezembro, porém, o fluxo do IDP surpreendeu drasticamente ao indicar resultado negativo em US$ 3,935 bilhões, o pior da série histórica do BC. No mesmo período de 2020, o montante havia sido positivo em US$ 1,102 bilhão. O resultado ficou muito abaixo das estimativas apuradas pelo Projeções Broadcast, que iam de entrada de US$ 2,6 bilhões a US$ 5,2 bilhões. A projeção do BC era de ingresso de US$ 3 bilhões em IDP no último mês do ano.

"Foi um resultado atípico que só aconteceu três vezes na série histórica. Foi um resultado pontual que não se projeta para os demais períodos, não deve se repetir", disse Rocha. "O IDP negativo significa que investimento que já havia sido feito foi devolvido a matrizes", explicou. Segundo ele, os reinvestimentos foram negativos porque houve no mês forte remessas de US$ 10,2 bilhões de lucros ao exterior - o segundo maior valor da série histórica para qualquer mês. "O valor superou em mais de US$ 6 bilhões o lucro apropriado no mês, e precisou ser retirado de lucros reinvestidos em meses anteriores, ficando com sinal negativo".

Segundo o economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini, o fluxo negativo no último mês do ano é atípico historicamente e reforça a preocupação dos agentes econômicos com o Brasil, principalmente os investidores internacionais. "Isso é um fato raro de acontecer e mostra justamente a preocupação com o caminhar da carruagem. O risco do governo com endividamento e flertando com o populismo mexe com as expectativas e elas vão para o lado negativo. Ou vai para o lado da cautela e mantém tudo estável, ou de fato ajusta a carteira, que foi o que aconteceu", afirmou.

O economista cita que o envio de recursos para o exterior por questões fiscais, comum no período, também pode ter afetado o montante. Para 2022, Agostini acredita na recuperação do investimento estrangeiro direto, mas ainda limitado pelas implicações da pandemia. "Projetamos algo em torno de US$ 50 bilhões, ainda muito abaixo do que o Brasil viveu antes da pandemia. Será um ano ainda de cautela."

Rombo nas contas externas

O Brasil registrou rombo em transações correntes de US$ 28,110 bilhões em 2021, segundo o BC. É o maior déficit para um ano desde 2019 (-US$ 65,030 bilhões), conforme a série do BC, iniciada em 1995. O déficit representa 1,75% do PIB.

Isso representa um aumento de 14,8% na comparação com o ano de 2020, quando o resultado negativo somou US$ 24,492 bilhões.

"Houve dois períodos distintos durante o ano de 2021. No primeiro semestre, tivemos a continuidade da trajetória de redução do déficit em transações correntes que ocorria desde 2020. Já no segundo semestre, tivemos uma gradual elevação dos déficits correntes. Isso parece condizente com uma economia que demanda mais importações de bens e serviços e tem mais lucratividade interna, com mais remessas ao exterior", afirmou Rocha.

Em dezembro do ano passado, o BC estimou um aumento no rombo das contas externas para US$ 30 bilhões em 2021 devido ao "cenário de continuidade da retomada da atividade doméstica" e do "crescimento da demanda global e atenuação da intensidade das intervenções não farmacêuticas para contenção da covid-19".

O resultado de transações correntes, um dos principais do setor externo do País, é formado pela balança comercial (comércio de produtos entre o Brasil e outros países), pelos serviços (adquiridos por brasileiros no exterior) e pelas rendas (remessas de juros, lucros e dividendos do Brasil para o exterior).

No ano passado, as transações correntes foram beneficiadas pelo aumento dos preços de commodities (produtos básicos, como alimentos e minério de ferro), mas também houve recuperação das importações, graças à retomada econômica, e à necessidade de buscar energia elétrica fora, além do dólar caro. Por outro lado, os gastos com viagens ainda foram modestos, devido à pandemia.

A balança comercial registrou saldo positivo de US$ 36,181 bilhões em 2021, enquanto a conta de serviços ficou negativa em US$ 17,114 bilhões. A conta de renda primária também ficou deficitária, em US$ 50,471 bilhões. No caso da conta financeira, o resultado ficou negativo em US$ 32,617 bilhões.

Somente em dezembro, o resultado das transações correntes ficou negativo em US$ 5,891 bilhões. Este é melhor desempenho para o último mês do ano de desde 2019, quando o saldo foi negativo em US$ 5,491 bilhões. Em 2020, o dado do mês foi de déficit de US$ 8,458 bilhões.

Para 2022, o BC estima que o déficit em transações correntes somará US$ 21 bilhões.

Conta de viagens

Ainda sob os efeitos da pandemia de covid-19 na economia, a conta de viagens internacionais registrou déficit de apenas US$ 2,302 bilhões em 2021, ainda segundo o BC. O valor reflete a diferença entre o que os brasileiros gastaram lá fora e o que os estrangeiros desembolsaram no Brasil no período. Em 2020, o déficit nessa conta já havia sido baixo, de US$ 2,350 bilhões. Em 2019, por sua vez, o saldo negativo fora de US$ 11,599 bilhões.

Na prática, com o dólar mais elevado e à continuidade de restrições de voos em vários países ao longo de 2021, os gastos líquidos dos brasileiros no exterior se mantiveram baixos no ano passado.

O desempenho da conta de viagens internacionais no ano passado foi determinado por despesas de brasileiros no exterior, que somaram US$ 5,250 bilhões - ante US$ 5,394 bilhões em 2020. Também foi o mais baixo resultado desde 2005, quando os gastos de brasileiros no exterior somaram US$ 4,720 bilhões. Já o gasto dos estrangeiros em viagem ao Brasil ficou em US$ 2,947 bilhões, após US$ 3,044 bilhões no ano anterior.

"Em 2021, houve recuperação gradual mês a mês. E, daqui pra frente, principalmente no curto prazo, a evolução dessa conta se torna muito incerta em função dos riscos e desafios causados pela nova onda de contágios com a variante ômicron, da covid-19", disse Rocha, do BC. / COLABOROU MARIANNA GUALTER

Estadão
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