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Inadimplência bate recorde em fevereiro e pode piorar se guerra no Irã impactar preços

Para economista-chefe da Serasa Experian, reversão não deve acontecer tão cedo, pois Selic ainda continuará em nível restritivo mesmo com cortes

24 mar 2026 - 12h14
(atualizado às 12h50)
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Número de brasileiros inadimplentes subiu 38,1% em uma década
Número de brasileiros inadimplentes subiu 38,1% em uma década
Foto: Monica Zarattini/Estadão / Estadão

O Brasil bateu recorde de 81,7 milhões de CPFs negativados em fevereiro de 2026 e tem registrado recordes desde janeiro de 2025, pois a taxa Selic está em um nível muito elevado, segundo a economista-chefe da Serasa Experian, Camila Abdelmalack, em entrevista coletiva sobre os dez anos do Mapa da Inadimplência.

A economista afirma que não vê reversão de dados de inadimplência tão cedo, frisando que, por mais que a Selic caia, ainda continuará em nível de juros muito restritivo, e acrescentou que o Banco Central mudou um pouco a sinalização nas últimas comunicações, colocando mais cautela para o ciclo de flexibilização monetária.

"Se antes tínhamos expectativa de juro perto de 12%, mercado começou a revisar para cima essas projeções. Vemos o boletim Focus vendo taxa de juros no nível de 12,50% no fim de 2026, e precificação na curva de juros com nível entre 13% e 14% nos juros de longo prazo, dois dígitos", acrescenta.

Abdelmalack ainda observa que as instituições financeiras estão desacelerando o ritmo de concessão, principalmente puxado pelas modalidades de juros mais baratos. "Ou seja, a população está se endividando em modalidades mais caras."

Em uma década, houve uma alta de 38,1% no número de brasileiros inadimplentes, de 59 milhões em 2016 para 81,7 milhões em 2026.

A economista diz também que não basta ver se o crédito está mais caro ou mais barato para entender a inadimplência. "Tem a história da inflação por trás disso, porque corrói poder de compra da população, principalmente nas faixas de renda menor."

Dados da Serasa Experian mostram que, em média, o brasileiro tem 70,5% da sua renda comprometida, mostrando como está alavancado.

Guerra

A guerra no Irã pode impactar o cenário inflacionário no curto prazo, não só por meio dos preços dos combustíveis, mas também a partir do preço do frete e insumos. Se houver um choque de preços de fato, principalmente na inflação de alimentação a domicílio, pode haver um impacto ainda mais forte na inadimplência, avalia a economista-chefe da Serasa Experian.

A economista observa, contudo, que o governo federal está trabalhando com medidas para tentar mitigar os preços de combustíveis e realizando negociações com caminhoneiros.

Volume de dívidas

O Brasil conta com 332 milhões de dívidas em 2026, um volume 43% maior do que o registrado em 2016, segundo os dados da Serasa Experian.

Como consequência, a dívida média por consumidor avançou 12,2%, passando de R$ 5.880,02 para R$ 6.598,13, considerando valores corrigidos pela inflação entre os anos. A inadimplência se concentra na base, com 48% dos brasileiros inadimplentes ganhando até um salário mínimo.

O estudo também mostra transformações no perfil dos consumidores endividados, com destaque para o avanço da inadimplência entre a população com mais de 60 anos. Em 2016, esse grupo representava 12,23% do total de inadimplentes — a menor participação entre as faixas etárias.

Dez anos depois, o cenário se inverte: enquanto os jovens de 18 a 25 anos reduzem sua participação em 4,48 pontos porcentuais (de 15,93% em 2016 para 11,45% em 2026), os consumidores acima de 60 anos ampliam sua fatia em 7,18 pontos porcentuais, para 19,41%.

Em relação ao gênero, ao longo da última década as mulheres passaram a ser a maioria entre os inadimplentes. Em 2016, elas representavam 49,8% do total, ante 50,2% dos homens. Hoje, somam 50,5%, enquanto eles respondem por 49,5%.

Estadão
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