IBGE mira gestores da iniciativa privada em formação que quer prevenir desastres climáticos; entenda
Com El Niño no radar, plataforma 'Singed Lab Desastres' pretende capacitar até 1 mil pessoas em gestão de emergências climáticas; inscrições estão abertas também a integrantes do setor público
Como parte de uma estratégia de atenção aos extremos climáticos do El Niño previstos para este semestre, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) pretende preparar a iniciativa privada e o setor público para traçar ações de prevenção e enfrentamento aos possíveis impactos desses eventos nos Estados brasileiros, com base em dados estatísticos e geocientíficos.
Até o dia 15, a instituição está com inscrições abertas para a primeira turma de uma iniciativa de formação gratuita ministrada por técnicos do IBGE e destinada a gestores privados (de instituições privadas e entidades da sociedade civil), além de gestores públicos (de órgãos e instituições públicas) e pessoas autônomas que atuam nas áreas de prevenção, mitigação e reconstrução de áreas afetadas por desastres ambientais.
Segundo o IBGE, há vagas para até 1 mil participantes na formação em gestão climática, que terá início previsto para o dia 20 de julho e que dará aos participantes habilitados certificação emitida pela Escola Nacional de Ciências Estatísticas (ENCE/IBGE). O órgão também prevê que esses participantes poderão integrar as Comissões de Prevenção de Desastres no Brasil (CPDB-IBGE).
Conforme a instituição, para compor a turma, será utilizado como critério a participação de até oito gestores públicos por município. No caso dos integrantes de empresas privadas, é esperado o número mínimo de cinco representantes por companhia. Procurado pelo Estadão, o IBGE não informou se haverá número máximo de participantes aceitos por empresa.
A formação integra a plataforma proprietária "Singed Lab Desastres", lançada em 23 de junho, que reúne informações cartográficas, estatísticas e dados geocientíficos do Sistema Nacional de Geociências, Estatísticas e Dados (Singed), com o objetivo de oferecer suporte às ações locais de resposta a eventos climáticos extremos.
Durante o lançamento da plataforma, o presidente do IBGE, Marcio Pochmann, afirmou que a ferramenta inaugura "uma nova fronteira para o Estado brasileiro", visto que possibilita o uso da inteligência territorial e da estatística não apenas para contabilizar perdas, mas para evitar que elas aconteçam.
"Com a plataforma, o IBGE dá um passo fundamental para que o Brasil possa avançar em plena mudança climática, com melhores condições de avaliar seus efeitos, mas também de se preparar para atuar de forma preventiva", avaliou o gestor. "Isso é feito com inteligência de dados geocientíficos e estatísticos, que permitem aos gestores atuarem de forma mais racional e decisiva."
De acordo com o diretor de Tecnologia da Informação do IBGE, Marcos Mazoni, cuja pasta é responsável pela construção da plataforma, além de dar base à formação, os dados contidos no "Singed Lab Desastres" tem software livre, de forma a permitir o uso amplo.
"A ideia é que os gestores possam criar debates, encontros online, registros e análises de suas políticas. Queremos que (a plataforma) seja útil não apenas nos momentos de crise, mas também que permita a prevenção e o debate contínuo sobre as políticas para enfrentar as mudanças climáticas."
Ferramenta de governança climática
Na avaliação da especialista em governança ambiental, Fernanda Faret, diretora-presidente da Ambix Ambiental, a iniciativa do IBGE representa uma mudança importante na forma como o País passa a tratar os riscos climáticos. A iniciativa vem na esteira de advertências da ONU nesta sexta-feira, 3, sobre o El Niño, que deve se intensificar com um "episódio forte" entre julho e setembro, aumentando a probabilidade de ondas de calor, secas e chuvas intensas em grande parte do mundo.
"Ao reunir inteligência territorial, dados geocientíficos e capacitação de gestores, a plataforma fortalece uma agenda baseada em prevenção e adaptação, substituindo uma lógica historicamente reativa por uma abordagem de antecipação dos impactos."
Para as empresas, que tiverem representantes aderindo à iniciativa, esse tipo de informação pode ser estratégica do ponto de vista da governança climática, ressalta Faret. Segundo ela, os eventos extremos já afetam diretamente cadeias de suprimentos, disponibilidade hídrica, infraestrutura, logística, produção, contratos e custos operacionais.
"Na prática, a iniciativa privada deve utilizar essas informações para integrar os riscos climáticos à gestão corporativa. Isso inclui mapear vulnerabilidades das operações, revisar planos de continuidade de negócios, fortalecer a gestão de recursos hídricos, avaliar impactos sobre contratos e investimentos e incorporar critérios de adaptação climática à tomada de decisão", recomenda.
"Incorporar dados qualificados sobre riscos climáticos permite decisões mais assertivas, reduz vulnerabilidades e aumenta a resiliência dos negócios diante de um cenário de maior intensidade desses eventos", acrescenta a especialista.
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