Guerra terá impacto desigual na América Latina, mas inflação subirá em toda a região, diz FMI
Organismo recomenda que países da região preservem a credibilidade das políticas monetárias e fiscais para atravessar novo choque
NOVA YORK - A guerra no Oriente Médio deve ter impacto "desigual" na América Latina e no Caribe, mas a inflação deve subir em todos os países da região, alerta o Fundo Monetário Internacional (FMI) em relatório publicado nesta sexta-feira, 17. Produtores de petróleo como o Brasil, porém, estão se beneficiando dos preços elevados de energia. Ao mesmo tempo, diante de mudanças nos fluxos de capital e da maior aversão ao risco por parte dos investidores, o organismo recomenda preservar a credibilidade das políticas monetárias e fiscais para atravessar o novo choque.
"O impacto sobre a atividade econômica vai variar muito entre os países, mas o impacto sobre a inflação é mais uniforme. A inflação será maior para todos", afirma o diretor do departamento do Hemisfério Ocidental do FMI, Nigel Chalk, ao comentar as perspectivas do Fundo para a América Latina e o Caribe, durante as reuniões de Primavera, que acontecem em Washington, nos Estados Unidos.
O FMI melhorou a expectativa para o Produto Interno Bruto (PIB) da América Latina e do Caribe para uma alta de 2,3% neste ano, 0,1 ponto porcentual acima da última atualização feita em janeiro. No próximo ano, o Fundo espera que a região acelere o passo e avance 2,7%, previsão que foi mantida. Dentre os destaques de crescimento na América Latina, estão países como Paraguai, Argentina, Equador, Chile e Colômbia. O FMI estima avanço de 1,9% para o PIB do Brasil neste ano, projeção que teve melhora de 0,3 pp, e 2,0% em 2027. Na outra ponta, a Bolívia deve enfrentar mais um ano de recessão, prevê o Fundo.
"Os produtores de petróleo — Argentina, Brasil, Canadá, Colômbia, Equador, Guiana, Trinidad e Tobago, Estados Unidos e Venezuela — estão se beneficiando dos altos preços da energia", destaca Chalk. Esses países estão se beneficiando porque o choque de commodities fortalece o balanço de pagamentos, apoia o crescimento e ajuda as finanças dos governos, mas, mesmo nessas economias, alerta: os mais vulneráveis serão duramente atingidos por preços mais altos de energia e alimentos.
Apesar do impacto da guerra, o FMI manteve a expectativa de desaceleração da inflação da América Latina e do Caribe para 6,7% neste ano, ante 7,6% em 2025. Para 2027, a expectativa é de que o indicador melhore ainda mais, para 4,9%.
De acordo com Chalk, a região iniciou 2026 "em base sólida", com crescimento "no potencial" e inflação "próxima da meta" dos bancos centrais, depois de gerir os impactos do tarifaço do presidente dos EUA, Donald Trump. O ritmo de avanço das exportações acelerou, apesar das incertezas políticas, mas a guerra já tem "ramificações importantes" via commodities e condições financeiras globais, com o aumento dos riscos negativos, avalia.
Entre as economias que tendem a ser mais atingidas pelo choque global estão as caribenhas dependentes do turismo, com dívida alta e importações líquidas de energia em média em torno de 6% do PIB, prevê o diretor do FMI. "A América Central não está muito atrás em sua exposição a altos preços de energia e, para alguns, há restrições em sua capacidade de adotar medidas políticas de mitigação, dado o espaço fiscal limitado", afirma Chalk.
Ele observa ainda que países com déficits em conta corrente expressivos e dependência de financiamento global, mesmo os exportadores de energia, enfrentam custos de financiamento mais altos e menor acesso ao mercado, à medida que a guerra reduz o apetite ao risco dos investidores.
Diante do choque, recomenda que as autoridades fiscais da região resistam à pressão por subsídios amplos e preservem redes de proteção focalizadas, usando o espaço fiscal de forma estratégica para famílias vulneráveis, agricultores e empresas. "Dados os altos níveis de dívida, a região tem pouco espaço para aumentar ainda mais os déficits fiscais", conclui o diretor do FMI.
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