Guerra no Irã ameaça imagem de Dubai como polo financeiro
Conflito leva investidores a transferir ativos para Singapura e Suíça e testa a promessa do emirado de ser refúgio seguro para as finanças globais.Dubai construiu uma reputação como oásis de estabilidade em uma região do Oriente Médio conhecida pelas tensões regionais.
O segundo emirado mais rico dos Emirados Árabes Unidos se posicionou como um centro financeiro seguro, onde ricos de todo o mundo podiam alocar capital, conduzir negócios e planejar o futuro com confiança.
Essa imagem cuidadosamente construída foi abalada pela guerra dos EUA e de Israel contra o Irã.
Ataques iranianos com mísseis e drones contra alvos no Golfo Pérsico provocaram um forte choque econômico, com os mercados acionários de Dubai e do vizinho Abu Dhabi perdendo inicialmente 120 bilhões de dólares (R$ 598 bilhões) em valor.
Ao mesmo tempo, o turismo despencou, a taxa de ocupação hoteleira caiu dos usuais 70% ou 80% para 20%, e os voos de e para o Aeroporto Internacional de Dubai recuaram cerca de dois terços, segundo a consultoria londrina Capital Economics.
Embora o tráfego aéreo, o turismo e os negócios estivessem se recuperando em meio ao cessar-fogo provisório, um novo ataque de drones iranianos ao complexo petrolífero de Fujairah, nesta segunda-feira (04/05), trouxe um lembrete indesejado: quanto mais durar o impasse entre Washington e Teerã, maior será a ameaça à reputação de Dubai como polo global de negócios.
Status de porto seguro em suspenso
Algumas das pessoas de altíssimo patrimônio que adotaram Dubai como playground dos ricos e famosos passaram a questionar se o emirado é, de fato, orefúgio seguro que prometia ser. Muitas delas já recorrem a outros dois grandes centros financeiros, Singapura e Suíça, para alocar ao menos parte de seus ativos.
Consultores de patrimônio nesses dois países relataram recentemente um aumento acentuado nas consultas de clientes baseados em Dubai, com banqueiros privados suíços esperando dezenas de bilhões de dólares em novos fluxos vindos do Golfo.
Os dois centros não são concorrentes diretos e costumam atrair perfis distintos de riqueza, afirma Ryan Lin, advogado baseado em Singapura e diretor do escritório Bayfront Law. "A Suíça tende a atrair clientes europeus e globais, enquanto Singapura tem mais probabilidade de se beneficiar de riqueza de origem asiática", explica.
Singapura foi pioneira no modelo que Dubai mais tarde emulou, ao construir um ecossistema sofisticado de family offices, como são chamadas as estruturas privadas criadas para gerir investimentos, planejamento tributário e sucessório. Essas soluções são especialmente atraentes para famílias de países como China, Índia e Indonésia.
A Suíça, por sua vez, se apoia numa longa tradição de bancos privados e em sua reputação de neutralidade. Para quem busca retirar parte dos ativos de Dubai, a mudança costuma ser uma "escolha entre crescimento e preservação", segundo Till Christian Budelmann, diretor de investimentos do banco privado suíço Bergos.
"Singapura é excelente para capturar o crescimento asiático, mas a Suíça continua sendo o principal porto de ancoragem do mundo para a preservação de capital", diz Budelmann. Ele acrescenta que o país alpino "oferece um nível de distância sistêmica de focos geopolíticos que Singapura nem sempre pode garantir".
Boom imobiliário perde fôlego
Além da retração imediata, o conflito ameaça o apelo de longo prazo de Dubai para expatriados e empresas. O estilo de vida cosmopolita da cidade ajudou a impulsionar um boom imobiliário que fez os preços de mansões de alto padrão quase dobrarem entre a pandemia e o fim de 2024.
Agora, muitos estão preocupados com o setor. Em março, o valor total das transações residenciais caiu quase 20% na comparação mensal, para cerca de 10,1 bilhões de dólares (R$ 50 bilhões), informou a Bloomberg no mês passado.
Projeções para o mercado imobiliário de Dubai feitas pelo Citi Research e pela consultoria Knight Frank agora apontam para uma possível correção de preços entre 7% e 15%.
Apesar dos ataques iranianos, a maioria dos indivíduos de alto patrimônio não está deixando Dubai, mas diversificando.
Budelmann descreve esse movimento como "hibridismo estratégico", no qual os clientes mantêm seus negócios operacionais e alguns ativos nos Emirados, mas transferem a riqueza de longo prazo e, em muitos casos, estabelecem uma residência secundária em Singapura ou na Suíça.
Boom econômico em pausa
Cerca de um quinto dos clientes de Lin baseados em Dubai planeja permanecer onde está e vê a instabilidade causada pela guerra como temporária.
Para muitos outros, ter uma base em outro lugar passou a ser considerado uma apólice de seguro essencial.
Antes da guerra, a economia de Dubai estava em plena expansão. Em 2025, o emirado registrou crescimento do PIB de cerca de 4,7% nos primeiros nove meses do ano.
Um recorde de 9.800 milionários se mudou para Dubai no ano passado, levando consigo cerca de 63 bilhões de dólares (R$ 314 bilhões) em nova riqueza, segundo a consultoria Henley and Partners.
O emirado oferece imposto de renda zero para pessoa física, não cobra imposto sobre ganhos de capital nem sobre herança e aplica um imposto corporativo de apenas 9% sobre lucros acima de cerca de 100 mil dólares (R$ 498 mil). Empresas em zonas de livre comércio não pagam imposto algum sobre a renda qualificada.
Popular por bons motivos
Inicialmente um modesto assentamento no deserto, Dubai passou os últimos 50 anos expandindo os limites da inovação e da engenharia.
Analistas acreditam que, se o cessar-fogo se mantiver e a confiança retornar rapidamente, Dubai pode se recuperar com rapidez. Eles também alertam contra descartar a cidade que abriga o prédio mais alto do mundo - o Burj Khalifa - e uma longa lista de outros projetos aparentemente impossíveis que se tornaram ícones globais.
Antes da guerra, o governante de Dubai, o xeique Mohammed bin Rashid al-Maktoum, colocou em marcha planos para transformar o aeroporto de Dubai no maior hub de aviação do mundo e dobrar o tamanho da economia até 2033.
Outros projetos audaciosos também estão previstos para o futuro da cidade, como planos para uma passarela climatizada de 93 quilômetros, conhecida como The Loop, o maior sistema de recifes artificiais do mundo, com mais de 1 bilhão de corais, e um chamativo hotel na forma da Lua, voltado para o turismo de luxo.
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