Guerra empurra classe média iraniana para a pobreza
Inflação beirando os 90% força famílias iranianas a cortar gastos e pressiona a classe média. Especialistas projetam cenário sombrio mesmo caso as tensões militares diminuam.Dona de casa no Irã, Mina já não mede a guerra por bombardeios ou declarações militares, e sim pelo que desapareceu da mesa de jantar de sua família.
"Desde que a guerra começou no ano passado, ficamos mais pobres a cada dia", diz ela à DW, referindo-se aos bombardeios de EUA e Israel contra instalações nucleares iranianas em junho de 2025.
"Sinceramente, não me lembro da última vez que comprei carne vermelha. Nós a substituímos por frango, mas até o frango virou um luxo. Não pensamos mais em economizar dinheiro. Pensamos apenas em pagar o aluguel e comprar comida."
O Fundo Monetário Internacional prevê que a economia do Irã encolherá 5,4% este ano, enquanto a inflação deve se aproximar de 69%. O Banco Mundial também alertou que o conflito, a queda do comércio e a incerteza prolongada estão pesando fortemente sobre a economia do país.
Economista baseado na Suécia, Ahmad Alavi afirma a guerra não criou a crise econômica do Irã, mas a agravou de forma significativa.
"O Irã entrou no conflito com uma inflação já acima de 40%, uma moeda em desvalorização, déficits orçamentários crônicos e anos de sanções", afirma. "A guerra atuou como um choque externo. Os danos à infraestrutura, a interrupção do comércio pelo Estreito de Ormuz, os bloqueios da internet e o aumento das expectativas de inflação aceleraram o colapso do poder de compra."
Alavi aponta números oficiais que mostram uma inflação anual de 66% e uma inflação acumulada em 12 meses próxima de 88%. Os preços dos alimentos subiram ainda mais rapidamente. Pães e cereais registraram alta de cerca de 140%, carnes e aves de 135%, laticínios de mais de 116% e óleos comestíveis de mais de 200%.
Esses números forçaram muitas famílias a comprar menos carne, adiar tratamentos médicos e desistir de poupar dinheiro.
Guerra empurrou milhões de iranianos para a pobreza
Economistas afirmam que as famílias costumam cortar primeiro os gastos com viagens e roupas. No entanto, à medida que a inflação persiste, os cortes passam a atingir alimentação, saúde e educação, aumentando a pressão sobre famílias de renda média que antes se consideravam financeiramente seguras.
Alavi diz que as famílias de baixa renda foram as mais afetadas, mas destaca que a classe média enfrenta cada vez mais as mesmas dificuldades.
"Muitos trabalhadores assalariados e aposentados caíram abaixo da linha da pobreza pela primeira vez porque suas rendas não acompanharam a inflação."
Ele estima que entre 3,5 milhões e 4,5 milhões de iranianos tenham caído na pobreza desde a intensificação do conflito, elevando para mais de 40 milhões o número total de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza num país de pouco mais de 92 milhões de habitantes.
Empresas sufocadas pela incerteza
A pressão também está sendo sentida pelo setor privado iraniano.
Morteza, um comerciante iraniano, afirma que as rotas comerciais regionais mudaram rapidamente depois que o transporte marítimo pelo Estreito de Ormuz se tornou mais difícil.
"A China se moveu rapidamente para preencher parte da lacuna deixada pelos fornecedores de Dubai", diz ele à DW. "Ao contrário dos países do Golfo, a China também pode enviar mercadorias por ligações ferroviárias através da Ásia Central, evitando muitos dos riscos e atrasos associados ao transporte marítimo."
Ele acredita que a crescente importância dessas rotas terrestres foi uma das razões pelas quais os Estados Unidos atacaram uma linha ferroviária próxima à fronteira do Irã com o Turcomenistão. Essa hipótese não pôde ser verificada de forma independente.
Mesmo assim, Morteza diz que a mudança trouxe poucos benefícios aos comerciantes iranianos.
"O colapso do rial e a alta da inflação impediram o crescimento do mercado", afirma. "Os comerciantes vivem em constante incerteza porque as taxas de câmbio mudam quase todos os dias. Mercadorias que comprávamos e vendíamos por preços menores agora precisam ser repostas a custos muito mais altos, isso apenas se os clientes ainda tiverem poder de compra suficiente para adquiri-las."
Para o comerciante, a incerteza se tornou o maior obstáculo. "Com as tensões continuando, sinceramente não vejo um futuro claro para fazer negócios no Irã."
Há saída para a crise no Irã?
Apesar de o Irã ser uma nação produtora de petróleo, é improvável que o regime se beneficie significativamente da alta dos preços globais da commodity, dado que as sanções, as restrições às exportações e os custos de transporte mais elevados continuam limitando suas receitas, pontua o economista Alavi.
Ele argumenta que medidas como subsídios, controle de preços e intervenções no mercado cambial podem aliviar parte da pressão imediata, mas dificilmente resolverão os problemas estruturais.
"Sem restaurar a confiança, reduzir as sanções e enfrentar os problemas estruturais, essas políticas continuam sendo respostas de curto prazo, e não soluções duradouras."
O custo da incerteza
Alavi diz que a própria incerteza se tornou uma das maiores barreiras à recuperação econômica.
Segundo ele, muitas empresas estão adiando investimentos porque têm pouca confiança no futuro da economia. Ao mesmo tempo, as famílias estão ficando cada vez mais cautelosas com seus gastos, já que esperam que os preços continuem subindo e que seu poder de compra diminua ainda mais.
Ele afirma que reconstruir a confiança de investidores, empresas e consumidores provavelmente levará muito mais tempo do que reparar os danos físicos causados pela guerra.
A menos que a inflação diminua, a taxa de câmbio se estabilize e as condições de comércio melhorem, Alavi acredita que muitas famílias continuarão sob pressão financeira, mesmo que as tensões militares diminuam.
Do contrário, afirma, a tendência é o padrão de vida dos iranianos cair ainda mais.
Ele diz que mais famílias provavelmente reduzirão os gastos com proteínas, saúde e educação, enquanto o fechamento de empresas e o desemprego poderão continuar aumentando.
"Não falamos mais sobre o futuro", diz a dona de casa Mina. "Só esperamos conseguir pagar o aluguel do próximo mês."
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