Grupo Pão de Açúcar e Raízen em recuperação: o que explica quebra de duas gigantes
São duas gigantes que atuam em mercados distintos, mas que foram afetadas pelas mesmas conjunturas econômicas
Em dois dias consecutivos, dois grandes grupos anunciaram que estão em recuperação extrajudicial. São eles: o Grupo Pão de Açúcar (GPA), dono da rede de supermercados Pão de Açúcar e Extra, e a Raízen, que atua no setor de energia, desde a produção de açúcar da Cosan até a distribuição dos combustíveis da marca Shell no Brasil. São duas gigantes que atuam em mercados distintos, mas que foram afetadas pelas mesmas conjunturas econômicas.
Receba as principais notícias direto no WhatsApp! Inscreva-se no canal do Terra
Juro elevado
Tanto o GPA quanto a Raízen atribuíram suas dívidas, em partes, ao juro alto, com a taxa Selic saindo de 2,75% em 2020 e chegando a 14,75% em 2025.
"É como se fosse um círculo vicioso, onde você entra já com uma taxa elevada de juros no Brasil, ou seja, os bancos só vão te emprestar acima daquela taxa; você se torna cada vez mais arriscado, portanto, cada novo empréstimo que você toma, ele se torna mais caro. E chega um determinado momento que fica inviável a operação de curto prazo da empresa, se você não fizer a negociação, porque essas dívidas vão vencendo", explica Luís Garcia, advogado tributarista, sócio do Tax Group.
Má administração
Especificamente com relação à Raízen, Luís Garcia considera que a forma com que a empresa decidiu crescer foi muito arriscada. "Ela quis expandir baseada muito no endividamento, que não se concretizou em termos de retorno, e agora tem a necessidade do alongamento da dívida", afirma. A Raízen divulgou dívidas na faixa dos R$ 65 bilhões, enquanto a do GPA gira em torno de R$ 4,5 bilhões.
Para Vanderlei Garcia Jr., doutor em Direito Civil pela USP, é preciso ressaltar que o contexto macroeconômico tem grande influência nas situações das duas empresas, mas aliado a isso também há uma má administração das dívidas.
Ainda sobre a Raízen, Vanderlei considera que a situação da empresa é mais difícil de se reverter do que a do GPA. "A dívida é alta, então essa renegociação é mais difícil. Consequentemente, a própria reestruturação e saúde futura dessa empresa fica um pouco mais incerta. Já o Grupo Pão de Açúcar, olhando para o faturamento, o caixa e o futuro, as dívidas elas são, entre aspas, mais fáceis de serem reestruturadas, mais fáceis de serem cumpridas", diz.
Impacto dos tributos
Especialista em direito tributário, Luís Garcia dá ênfase aos impostos cobrados destes grupos. Ele considera que a Raízen atuar em um setor com uma carga tributária muito alta. "Tem a questão do ICMS sobre combustíveis que é muito elevado. Tem o Pis o Cofins, ou seja, ela já paga lá na origem. Tem algumas outras contribuições, como a CIDE, tributos específicos e encargos logísticos e regulatórios muito altos. A estrutura tributária de quem trabalha com combustível é muito pesada", defende.
Já com relação ao GPA, os tributos costumam incidir sobre as mercadorias que são repassadas aos consumidores, diminuindo sua margem de lucro.
"A carga tributária indireta pode ser até de 20% do preço final, ou seja, no GPA a pressão é mais sobre a precificação e a margem. E aí, é um setor extremamente concorrido, onde se sofre muito em tentar trabalhar com margens mais apertadas sem ter uma estrutura de capital saudável. É uma tempestade perfeita: alta carga tributária, margens apertadas e estrutura de capital complicada", define.
O GPA e a Raízen quebraram?
A recuperação extrajudicial é feita buscando acordo com os credores, sem a necessidade de acionar a Justiça. Para isso, ela precisa ser aceita por um quórum mínimo de 50% dos credores. O objetivo da recuperação é, justamente, evitar a quebra das empresas.
“Recuperação extrajudicial não é sinônimo de paralisação da empresa. Ao contrário, costuma ser justamente uma tentativa de preservar a operação enquanto se reorganiza a estrutura de dívida”, afirma Armin Lohbauer, especialista em Contencioso Cível. Ele define este momento como um "respiro financeiro" às empresas.
Caso não atinjam o quórum, o GPA e a Raízen ficariam restritos a negociações individuais. "O que reduz muito a efetividade da reestruturação", considera Lohbauer.