Galípolo: Master tinha problema de liquidez em janeiro de 2025 e venda de carteiras gerou estranheza
Em audiência na CPI do Crime Organizado, presidente do BC destacou que legislação demanda que autarquia esgote alternativas de mercado antes de liquidar um banco
BRASÍLIA - O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, detalhou nesta quarta-feira, 8, que o Banco Master sofria de problemas de liquidez desde janeiro de 2025 e que a venda de carteiras novas pela instituição chamou a atenção da fiscalização da autoridade monetária logo no início do ano.
"É normal você vender um ativo que você já tem. Agora, você comprar e constituir um ativo novo, depois vendê-lo para fazer liquidez, é algo meio como perguntar para alguém: 'Por que você está comprando um carro?'. (E a pessoa responder:) 'Porque eu estou precisando de dinheiro, comprei um carro para depois vendê-lo'. É pouco usual", disse, em audiência da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado.
Segundo Galípolo, a partir da identificação dessas operações e da estranheza gerada por elas, foi criado um grupo de trabalho dentro da autarquia para analisá-las. Em março, a investigação foi levada pelo diretor de Fiscalização do BC, Ailton de Aquino, à presidência da autoridade monetária.
Ao rememorar a trajetória de investigação do Master dentro da autarquia, Galípolo ponderou que a checagem das carteiras é complexa e demanda tempo. Também destacou que a legislação demanda que o BC esgote alternativas de mercado antes de liquidar um banco.
Também em depoimento à CPI, o presidente do BC afirmou que foi uma sindicância interna da autarquia que captou indícios de favorecimento indevido aos servidores afastados Paulo Souza e Belline Santana, ambos suspeitos de atuar a favor do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro.
Apoio do FGC
Galípolo afirmou hoje que foi correta a decisão do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de pagar por CDBs vincendos para apoiar o Master.
"Esse processo foi importante para que você pudesse esgotar de maneira adequada todo o processo de análise de soluções alternativas de mercado, sem aumentar o tamanho do banco", disse.
Ele também relembrou que, em setembro de 2025, o próprio Master chegou a entregar uma comunicação em que reconheceu sua dificuldade e propôs sair do mercado. Isso ocorreu depois que o BC negou a proposta de o Banco de Brasília (BRB) adquirir a instituição.
"Mas, ao longo desse processo, aquele passivo que extrapolava o que o FGC conseguia garantir vai consumindo o caixa do banco, até que, no dia da liquidação, o banco tinha em caixa um valor que era 10% do valor de vencimento que ele tinha para pagar naquele dia, efetivamente. E isso gera a liquidação do banco", disse.
Galípolo também mencionou que a autarquia jamais foi apresentada ou conheceu os supostos investidores árabes alegados pelo Master na época.
Sigilo de oito anos
O presidente do Banco Central afirmou que o sigilo de oito anos imposto sobre as informações referentes à liquidação do Banco Master segue regras da autoridade monetária em vigor desde 2018. Galípolo mencionou que houve críticas à decisão e ponderou que, se há uma insatisfação com a regra, seria possível rediscuti-la, mas não simplesmente descumpri-la.
Na sequência, afirmou que, no caso do Master, a autoridade monetária entende que é fundamental seguir o rito da forma mais estrita possível.
"No caso do Banco Master, a gente entende que é fundamental que seja seguido o rito mais estrito possível, justamente para evitar dar algum tipo de subsídio, para eventualmente ter algum tipo de questionamento amanhã", disse.
Galípolo também voltou a afirmar que o País precisa normalizar relações institucionais. "Entendo como normalizar as relações institucionais não recuar daquilo que são as suas obrigações legais e o seu mandato legal, nem um milímetro, mas também não exorbitar o que é a sua função e a sua obrigação legal."
PEC da autonomia
O presidente do Banco Central pediu apoio dos senadores presentes em audiência da CPI do Crime Organizado para votar a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 65, que garante autonomia administrativa e financeira para a autarquia.
"Desde a minha sabatina, eu fui mudando o pedido: eu pedi apoio de início, pedi ajuda, (e agora) peço socorro", disse.
A PEC 65 está parada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, aguardando um acordo para ser votada. Segundo o presidente do BC, um dos pontos sobre os quais havia dúvidas — o enquadramento da autarquia como uma instituição de direito público ou privado — já foi superado.
Galípolo tem uma reunião ainda nesta quarta-feira com o relator da PEC, o senador Plínio Valério (PSDB-AM), e o presidente da CCJ, Otto Alencar (PSD-BA). Eles devem discutir o tema nesse encontro.
Na audiência, o banqueiro central disse que a PEC é essencial para recompor o quadro de servidores do BC, que diminuiu quase 25% nos últimos dez anos, por causa de aposentadorias. Ele relatou que, hoje, a autoridade monetária brasileira tem cerca de 3 mil servidores, contra 23 mil do Federal Reserve (Fed), o BC americano, e 13 mil do BC da Índia.
Galípolo ponderou, ainda, que o BC precisa de recursos para investir em sistemas e tecnologia, que viabilizem uma melhora da supervisão do sistema financeiro. Outros bancos centrais globais já desenvolvem modelos de inteligência artificial (IA) para esse fim, ele relatou.
"Cada um desses bancos vem desenvolvendo internamente essa tecnologia. Nós temos competência para isso, mas não conseguimos em função das limitações que nós temos hoje", disse o presidente do BC.