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Fed precisa subir juros e não deveria ter cortado taxa em 2024 e 2025, diz ex-diretor do BC dos EUA

Para Jeffrey Lacker, inflação norte-americana só deverá voltar à meta de 2% em 2028, o que exigirá juros acima de 4,5%, 'talvez até mais'

10 set 2026 - 14h55
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Resumo
O ex-presidente do Fed de Richmond Jeffrey Lacker defende a alta imediata dos juros nos EUA para conter a inflação, que segue acima de 3%. Ele critica os cortes feitos em 2024 e 2025, afirmando que partiram de premissas erradas e enfraqueceram a credibilidade da instituição. Para Lacker, as taxas precisam superar 4,5% para levar a inflação à meta de 2% até 2028, alertando que o Banco Central repete a lentidão de 2021 ao hesitar em endurecer a política mesmo com o mercado de trabalho equilibrado.

O ex-presidente do Federal Reserve (Fed) de Richmond Jeffrey Lacker defende um aperto monetário "imediato" nos Estados Unidos e diz que, se ainda fizesse parte do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, em inglês), teria votado contra a decisão de manutenção de juros de julho.

Em entrevista ao Estadão/Broadcast, ele afirma que os cortes de juros promovidos em 2024 e 2025 partiram da aposta errada de que a inflação iria ceder e acabaram ajudando a mantê-la acima de 3%.

Lacker prevê que a inflação nos EUA só deve voltar à meta de 2% em 2028 e afirma que isso exigirá juros acima de 4,5%, "talvez até mais", para iniciar uma queda consistente. O ex-Fed argumenta que o mercado de trabalho está equilibrado e alerta que o Banco Central pode repetir o erro de 2021 ao "agarrar qualquer desculpa" para não apertar a política monetária.

Para ex-diretor do Fed, preços nos EUA estão elevados e se movendo na direção errada
Para ex-diretor do Fed, preços nos EUA estão elevados e se movendo na direção errada
Foto: AgnosticPreachersKid/Wikimedia Commons/Reprodução / Estadão

Confira os principais pontos da entrevista:

Durante seu tempo no Fed o senhor foi conhecido por vários votos dissidentes. Gostaria de saber se também teria sido um dos dissidentes na última reunião do Fomc, em julho.

Sim, seria. Eles precisam aumentar as taxas. Em 2024 e 2025, o Fed cortou juros porque achava que a inflação estava prestes a cair mais. E estava errado. De fato, acho que esses cortes contribuíram para que a inflação permanecesse elevada, acima de 3%. E então, o que vimos este ano foi a inflação subindo não apenas por causa dos preços do petróleo ou das tarifas. Os preços estão elevados e se movendo na direção errada.

Alguns formuladores de política monetária estão dizendo que a meta de inflação a 2% não será alcançada tão cedo. Quando o senhor vê isso acontecendo?

Eu não acho que isso acontecerá antes de 2028. E exigirá que o Fed aja. A relação histórica sugere que eles terão que aumentar as taxas de juros para acima de 4,5% para que a inflação comece a cair, talvez até mais. E, até que façam isso, a inflação vai permanecer em torno de 3%.

A inflação está acima da meta do Banco Central há mais de cinco anos. O senhor vê a credibilidade do Fed em risco?

Sim, está. As evidências apontam que os americanos esperam que a inflação permaneça elevada no próximo ano ou dois. Isso é um problema, porque significa que a política está frouxa.

O mercado de trabalho parece um pouco de lado em comparação com a ênfase atual que os formuladores de política monetária estão colocando na inflação. O senhor acha que o relatório payroll melhor do que o esperado de agosto reforça a ideia de um aumento de juros, ou devemos esperar os dados de inflação desta semana?

Acredito que o último relatório de emprego não fez nada para encorajá-los a evitar um aumento de juros. Se mudou algo, os encorajou. A imigração caiu em 2024 e, a partir de 2025, foi muito baixa, praticamente zero. Então, a oferta de trabalho não estava crescendo muito. O mercado estava com medo de que, com a baixa demanda por trabalho, houvesse um aumento no desemprego, mas isso não aconteceu. Agora todos reconhecem que o mercado de trabalho está equilibrado e não acho que os membros do Fomc seriam capazes de argumentar ou persuadir alguém de que há risco ali. Olhando em retrospecto, parece que não havia riscos de queda significativos (nos últimos dois anos). Essa é outra razão para duvidar que as taxas de juros deveriam estar onde estão agora.

Você acredita que o mercado, e até os próprios dirigentes, estão subestimando o ritmo da inflação?

As pessoas dizem que parece que "há desinflação na próxima esquina". Mas então não acontece, sobe novamente. O fato é que a inflação está apenas flutuando dentro de uma faixa. Acho que isso é uma ilustração do perigo de olhar para movimentos de inflação de muito curto prazo. Você tem que manter o olhar para uma tendência de longo prazo.

Há alguma risco de que o Fed possa demorar muito para tomar uma decisão de política monetária?

Acredito que esse é um risco muito importante. Eles esperaram muito tempo em 2021; a inflação subiu e continuou. O Comitê parece agarrar qualquer desculpa para cortar juros, qualquer desculpa para evitar aumentar taxas. Eles simplesmente se apegam a esses argumentos e negligenciam o fato de que a inflação está acima de 3%. Isso sugere que eles vão esperar um pouco, aumentando o risco da inflação — como aconteceu em 2021. Há também um risco definitivo de aumento na demanda agora por causa do boom de investimento em inteligência artificial (IA).

O mercado interpretou os comentários de Kevin Warsh em Jackson Hole como hawkish e agora está precificando um aumento de taxas pelo Fed já em setembro. O senhor concorda com essa interpretação?

Ele corrigiu alguns erros que cometeu na coletiva de julho e fez um forte argumento de aperto monetário. Mas, durante os anos 1970, quando tivemos um grande choque de inflação, o Fed foi muito vocal sobre querer conter a inflação e não fez nada sobre isso. Warsh pode fazer um jogo duro, porém ações falam mais alto que palavras. Se eles votarem este mês para subir juros, suspeito que seria unânime ou talvez, no máximo, um ou dois dissidentes.

Mesmo sob Jerome Powell, havia muitas preocupações sobre os riscos à independência do Fed. Qual é a sua avaliação dos primeiros meses de Warsh?

Gosto da fala de Warsh, que diz que todos têm direito a uma opinião sobre política monetária e podem expressá-la, incluindo o presidente. E nós levamos tudo isso em consideração. Então, ele estava meio que rebaixando o presidente para ser como todo mundo. Kevin Warsh é muito experiente com o sistema político e o Fed já mostrou que estava disposto a fazer o que queria, como achava adequado. No final do dia, Donald Trump sabe que não tem alavancagem.

Há alguns rumores de que Warsh talvez queira espaçar mais as reuniões do Fomc?

Ah, certo, ter menos reuniões. Warsh parece pensar que é um problema que os mercados reajam tanto quando o Fed tem uma reunião ou quando as pessoas do Comitê falam. Então, há duas abordagens: uma é falar menos, mas toda vez que você fala significa muito mais para os mercados. A outra opção é falar mais, para que toda vez que você fale, faça uma diferença menor no mercado. Eu apenas o incentivaria a falar mais em vez de menos. O Fed deveria pensar em se reunir todo mês; alguns bancos centrais fazem isso.

Você está preocupado com os mercados de títulos dos EUA agora?

Não. Se você olhar para os rendimentos, eles estão mais ou menos onde estavam antes da grande crise financeira de 2006/2007 e então eles meio que se renormalizaram. Quero dizer, acho que a direção que eles gostariam de seguir parece para cima, pois os déficits são tão gigantescos e parece improvável que a demanda global por dívida dos EUA vá aumentar tão rapidamente quanto a oferta. Não acho que os juros dos Treasuries estejam em níveis perigosos ou catastróficos ainda. Espero que os formuladores de políticas levem isso em consideração, que os legisladores e a administração reajam a isso para colocar a casa em ordem.

Estadão
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